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Espectador (Com As Mãos Para Trás), 2014, de Efrain Almeida [Foto: cortesia Fortes D'Aloia & Gabriel]
Postado em 21/07/2026 - 6:42
Essa parada do corpo
Fortes D’Aloia & Gabriel celebra 25 anos com Efrain Almeida e Ernesto Neto em duas exposições que refundam o Brasil moderno

A primeira exposição póstuma de Efrain Almeida e uma mostra que apresenta um novo e inédito corpo de trabalhos de Ernesto Neto. Coisa de uma vez na vida, né? Pois esse é o conteúdo que aguarda o visitante na FDAG Barra Funda a partir do dia 22/8, em comemoração dos 25 anos da galeria e como auspicioso preâmbulo das próximas décadas.

Nas esculturas delicadamente talhadas em umburana ou cedro, que representam a fauna e a flora do sertão do Cariri, Almeida inscreve seu léxico de identidades, solidão, intimidade e sabedoria. Com as obras em crochê tecidas em algodão cru por artesãs colaboradoras de Neto, em formas orgânicas modulares subindo pelas paredes, o artista plasma a força vital da natureza. Esses corpos esculpidos por Efrain e por Neto restituem os corpos reais da vida vivida nessas nossas latitudes.

São artistas do fluxo e não do paradoxo. Tomo emprestada a definição de Márcia Fortes, que assina a curadoria da mostra de Efrain Almeida, como síntese das duas exposições. Desenvolvido para abarcar uma pesquisa de mais de 30 anos do artista cearense, de quem a galerista era muito próxima, o conceito se aplica muito bem às práticas de Neto e, possivelmente, a diversos artistas da galeria.

O conceito também explica a própria decisão de assumir, pela primeira vez em 25 anos, a curadoria de uma mostra. Em agosto de 2001, Márcia Fortes fundou, com Alessandra D’Aloia, a galeria que nasceu como continuidade e ruptura do projeto de Marcantonio Vilaça, morto trágica e prematuramente em 31 de dezembro de 2000. Fortes era colaboradora do galerista, realizando exposições a partir de Nova York, onde viveu por 12 anos. Entre as curadorias que fez para a Camargo Vilaça, destaca-se Hanging (1998), que trouxe a São Paulo nomes proeminentes da pintura internacional, como Franz Ackermann e Hiroshi Sugito, representado até hoje pela FDAG.

Márcia e Alessandra tinham, à época, o desafio de continuar trabalhando na internacionalização da arte brasileira, grande legado de Marcantonio Vilaça, que teve papel central na difusão e circulação da arte de Ernesto Neto, Adriana Varejão e Beatriz Milhazes pelo mundo. A tríade era representada desde 1993 pela galeria e seguiu com as novas sócias. Efrain Almeida também fazia parte do time, e coube a ele estrear o novo programa, num aceno ao protagonismo da arte nacional.

Hoje, 25 anos depois da mostra inaugural, o artista ganha uma retrospectiva organizada dois anos após a sua morte. “A obra do Efrain não está contida em um modo único de funcionamento, ela sempre foi híbrida, não binária, não polarizada”, afirma Fortes. Para lançar luz sobre a complexidade da produção, a curadora optou por não incluir esculturas de beija-flor, espécie de marca registrada do artista. A exposição reúne trabalhos autobiográficos, autorretratos, além de icônicas esculturas representando dádivas, como aquela das mãos de madeira segurando um pequeno vestido de veludo.

“O beija-flor é a grande analogia existencial da obra dele, esse pássaro que consegue ficar parado no ar, mensageiro do céu, símbolo de sorte, cura, presságio”, prossegue. “O aspecto adocicado desses trabalhos é apenas a primeira camada; há todo um universo queer, questões da identidade, da intimidade e da espiritualidade, há algo de perverso também nas suas obras. A exposição pretende apresentá-lo de forma holística.”

Na sala contígua da FDAG Barra Funda, os seres sinuosos de Ernesto Neto surgem subindo pelas paredes, encenando uma conexão entre a terra e o ar, que amplifica o continuum da troca entre o fogo e a água que vinha já alimentava a pesquisa do artista. A imagem do beijo entre o Sol (fogo) e a Terra (dos lençois freáticos) data da exposição Dengo (2010), no MAM São Paulo, quando Neto teve essa visão da planta como um ser que busca a luz, estendendo-se na direção do Sol, e a escuridão, alongando-se até o mais profundo da terra em busca de água.

Da dengosa fertilização do mundo, desembocamos agora nesse habitat de seres se espreguiçando e se espraiando pela simples vontade de viver. As cosmogonias que habitam todos os corpos escultóricos, objetuais ou instalativos de Ernesto Neto são híbridos de ancestralidades que o artista convoca para expressar o que significa ser brasileiro. “Nós não somos ocidentais. Na Europa ninguém nos considera ocidentais. Eles dizem que no Brasil tem ‘essa coisa do corpo’, que fez a gente ser diferente. Os Estados Unidos, sim, são parte do Ocidente, porque ali não rolou a ‘parada do corpo’. Ou seja, lá não teve mistura, aqui teve. A cultura afro, a música brasileira, as sabedorias indígenas, são nossa força motriz. E é intelectualmente libertador não ser ocidental”, resume.