“Falar sozinho é um costume em nossos países”, escreveu um então jovem Roberto Bolaño em El Espíritu de la Ciencia Ficción, novela que seria lançada 12 anos após sua morte e que, tendo sido escrita no início dos anos 1980, surpreende por guardar tantos pontos de contato com a obra publicada em vida, sobretudo no que se refere ao romance Los Detectives Salvajes, livro que, ao lado do também póstumo 2666, o consagrou como “uma ideia de beleza mais além, que supera sempre aquilo que é óbvio”, conforme seu conterrâneo Alejandro Zambra.
O Espírito da Ficção Científica, embora remeta a um elemento da obra de Bolaño que data do mesmo período — a “universidade desconhecida”, em que todo poeta se matricula — e não faça uso da polifonia tão deliberadamente quanto a última parte de Monsieur Pain, nos lembra Os Detetives Selvagens sobretudo por seu universo: jovens latino americanos recém-ingressos na boêmia mexicana, a precariedade, a batalha diária por alguns pesos quando se é presunçoso e brilhante, o amor pela ficção científica e todo um universo de apartamentos embotados pela fumaça dos cigarros, o cheiro de mezcal, tequila ou vodca, bem como pelas vozes de garotos e garotas que tagarelam, se atracam e desaparecem.
Publicado em 1998, quando Bolaño tinha 45 anos, o livro foi definido por seu autor como “uma carta de amor para a minha geração”, o que me faz pensar em duas coisas. Como é a representação do amor na obra do chileno (En realidad poco es lo que recuerdo ahora/ Me amó para siempre/ Me hundió), é a primeira. A segunda: tido pela crítica como uma espécie de meteoro hispano-americano pós-moderno, de quem ele está falando quando diz “minha geração”? À sombra projetada pelo seu expoente definitivo, alguns espectros se encolhem. De forma paradoxal, sem esses espectros não há obra, então nos debrucemos sobre eles, respondendo ao convite de seu pilar mais firme.
O infrarrealismo, fundado a partir do encontro de Bolaño com o poeta mexicano Mario Santiago Papasquiaro no café La Habana, em 1975, viria a ser conhecido mundialmente na figura dos “real-visceralistas, ou visce-realistas, e até mesmo vice-realistas, como às vezes gostam de se chamar” – e aqui quem fala é Juan Esteban Harrington, ou melhor, Juan Garcia Madero, narrador da primeira e da última parte de Os Detetives Selvagens e correspondente na ficção do poeta e cineasta chileno. No espelho criado por Bolaño ao longo das mais de 600 páginas, García Madero é Harrington, Papasquiaro torna-se Ulisses Lima, Carla Rippey torna-se Catalina O’Hara, Lisa Johnson torna-se Laura Jáuregui e o próprio autor se reflete: Roberto Bolaño é Arturo Belano, personagem e narrador que aparece em outras de suas obras, como no romance Estrela Distante, nos contos de Putas Assassinas e em sua magnum-opus, 2666.
Nesse período, Octavio Paz, entre outros motivos por ser editor da revista Plural, publicação mantida por incentivos financeiros do controverso governo de Luiz Echeverría Álvarez, tornou-se o alvo predileto dos infrarrealistas. Em Os Detetives Selvagens, após aporrinhar um professor de poesia com perguntas sobre formas poéticas, García Madero solta: “O único poeta mexicano que sabe de cor essas coisas é Octavio Paz (nosso grande inimigo)”, me levando a insistir na declaração de Bolaño sobre seu romance. Porque em Bolaño uma coisa é certa: não há amor que destrua o que o ódio constrói.
Irmanados pela afronta contra Paz (que jogo feliz de nomes) e os poetas “oficialescos” – no Chile, Alejandro Jodorowsky e Nicanor Parra faziam algo parecido com Pablo Neruda –, pelo apreço à bebedeira, ao uso de drogas e a uma tardia primavera sexual, e pelas leituras dos beatniks, dos surrealistas e dadaístas franceses e dos “horazeristas” peruanos, entre outros revolucionários, os infrarrealistas surgiam como um grupo heterogêneo e tímido que, em suas “sabotagens”, tinha como caraterística primordial esse cruzamento de diversas linhas de pensamento importadas; característica, diga-se, bem latino-americana. Vale ainda pontuar que as referências indicadas pelos infrarrealistas não se limitam aos movimentos literários e poéticos. Na produção do grupo aparecem vultos que explicitam o quanto, apesar da aura boêmia, ou talvez justamente pela sua abertura de critério, era vasto o seu campo de interesses. Ela ainda fará sua aparição neste artigo, mas adianto que, ao longo das 65 páginas do primeiro número da revista Correspondencia Infra, surgem nomes como o do artista plástico Kurt Schwitters, do bailarino Bolshoi e um arco musical que vai de John Cage a Frank Zappa. Nas últimas páginas, precedendo três laudas de uma partitura, podemos ler: “El Movimiento Infrarrealista dice: Música”. Anos mais tarde, Bolaño publicaria Amuleto (1999), onde, em uma passagem intrigante, a narradora Auxilio Lacouture encontra-se com o fantasma da pintora surrealista mexicana Remedios Varo e esta a põe para ouvir Concertino em Lá Menor, do compositor espanhol Salvador Bacarisse. Música.

AUTORRETRATO DUVIDOSO
Em muitos de seus livros, sob a máscara de Belano, Bolaño nos conta sua história, ou aquilo que deseja nos fazer crer que é a história de sua vida. Nos trabalhos que publicou em um período curto (La Pista de Hielo, seu primeiro livro, é de 1993; sua morte foi em 2003), pintou um autorretrato do tipo duvidoso, nesse gesto mantendo-se fiel a um argumento que parece perpassar toda a sua obra: o esquecimento e a desinformação são violências estratégicas que operam a serviço da submissão política. Em um conto, Bolaño nos diz que sobreviveu à prisão no regime pinochetista porque havia estudado juntamente com os carcereiros no primário; numa entrevista, porém, diz que não foi preso, mas que pegou um avião para nunca mais voltar depois de desconfiar da estranha missão que lhe fora designada pelo Partido Comunista Chileno. Nesse labirinto sem fio, coloca a ideia de uma historiografia latino-americana no centro da discussão, e sendo Os Detetives Selvagens – o trabalho que corresponde à sua participação no infrarrealismo –, o livro não poderia deixar de ser, além de tão afetuoso, também paródico e sardônico.
A todo tempo, ao longo da segunda parte do romance, que é seu centro nervoso (os detetives selvagens), os personagens, ao lembrar do real-visceralismo, oscilam entre a nostalgia e o desprezo. Porque Bolaño afirma que, em toda a sua seriedade, nenhuma obra infrarrealista poderia alcançar a mesma projeção do romance. Que, sem ele, o infrarrealismo estaria ainda mais relegado às pesquisas obsessivas de historiadores, estudiosos e colecionadores de revistas raras. Bolaño sabe que o destino natural de um grupo latino-americano de jovens que, para além de seu ódio por Octavio Paz, nutre um ódio de classe porque muitos não são pessoas brancas, porque são proletários, porque são pobres, é o apagamento.
E foi sabendo disso que Bolaño — aqui não esqueçamos sua aura de intelectual branco, magro e míope vivendo na Europa — ergueu o monumento que ergueu. Um espelho extremamente apaixonado. Um espelho extremamente crítico.
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“[…] o infrarrealismo estaria ainda mais relegado às pesquisas obsessivas de historiadores, estudiosos e colecionadores de revistas raras” — explico: são Pájaro de Calor e Muchachos Desnudos Bajo un Arcoíris de Fuego as coletâneas infrarrealistas por excelência, mas ainda mais célebre, ao alcance de uma pesquisa no Google, é a revista Correspondencia Infra. O primeiro número, onde na capa, entre o título e a imagem do que parecem ser alguns bonecos enfileirados, lemos REVISTA MENSTRUAL DEL MOVIMIENTO INFRARREALISTA OCTUBRE/NOVIEMBRE 77, traz, além da lista de endereços de seus editores (sendo o de Bolaño em Barcelona e o de Papasquiaro uma informação vaga,“Vive en Israel”), o texto Dejenlo Todo, Nuevamente – Primer Manifiesto del Movimiento Infrarrealista, assinado pelo chileno.
O manifesto, que tem uma inesperada citação de Drummond e momentos luminosos — “La ternura como un ejercicio de velocidad”, “Hasta las cabezas de los aristócratas nos pueden servir de armas”, “Nuestra ética es la Revolución, nuestra estética la Vida: una-sola-cosa” —, quando se propõe a falar sobre “Nuestros parientes más cercanos”, enumera: “los francotiradores, los llaneros solitarios en los cafés de chino de latinoamérica, los destazados en supermarkets, en sus tremendas disyuntivas individuo-colectividad […]”.
O espelho real-visceralista não reflete apenas sujeitos, mas também objetos. É o caso da revista-reflexo Lee Harvey Oswald. Logo nas primeiras páginas de Os Detetives Selvagens somos apresentados a ela. “Os poetas, segundo Ulisses Lima”, diz García Madero, “são como Lee Harvey Oswald. É isso?.” A referência ao assassino de John Kennedy expõe com franqueza a um só tempo o nível de admiração e a postura irreverente em relação ao status quo norte-americano (aqui, a figura do 35º presidente dos EUA estende-se para tudo que é oficial, mercadológico e opressor) e nos transporta, então, para o primigênio do infrarrealismo, da forma como Bolaño o viu em 1977: francoatiradores solitários, metralhadoras em estado de graça, terroristas cheios de ternura e dor que, por meio da obra de um dos seus, nas mãos de leitores em tantas partes do mundo, enfim podem falar — nem que seja por um instante — um pouco menos sozinhos.