Mira: No fim de agosto de 2025, recebi algumas mensagens sobre destruir a entrevista, talvez como desculpa para uma amizade. Toda a minha poética é semeada na imprevisibilidade dos encontros, do que se dá. Esta entrevista é, de alguma maneira, um extrapolar de conversas entre arte, mercado e resgate que já tivemos antes. Uma aproximação do que podem ser práticas artísticas de quem vive de arte no Brasil, no trabalho cotidiano de atribuir sentido no contemporâneo.
Noah Mancini: Quando cheguei até Mira, a conversa foi proposta e realizada em uma troca de WhatsApp, por meio de longos áudios, aqui transcritos e revisados. A intenção foi que, enviando mensagens de voz, a intimidade dialética fosse construída juntamente com uma produção de pensamento espontânea, de um gesto de abertura, do devaneio momentâneo. Além desses mútuos disparadores, a durabilidade e o ritmo da conversação, nesta entrevista realizada ao longo de semanas, permitiram outra continuidade do diálogo, em provocações e indagações que pudessem reverberar no tempo, ruminar as ideias, para então devolvê-las ao outro.
Mira é bióloga e artista educadora interessada em poéticas entre identidade de gênero e história natural. Sua prática transdisciplinar abrange desenho, performance, escrita e audiovisual. Idealizou Mira Visuais, situada na comunidade de Heliópolis, espaço de confluência para artistas trans e travestis periféricas na criação de imagens além da violência. Seus últimos trabalhos investigam relações de maternidades na comunidade trans, gestação e história natural.
Noah Mancini: Como você chega ao mundo das artes?
Mira: No começo do ano, eu coordenei uma residência artística chamada Fazendo a Maloka, aqui em Heliópolis, e uma das pessoas que eu convidei para fazer uma aula-vivência com os residentes foi a Uýra Sodoma. Ela fez exatamente essa mesma pergunta: como é se descobrir artista, ou como se nomear artista, ou como você se coloca hoje, artista o quê, e esse bafo de se posicionar como artista. Para mim, acho que são dois momentos iniciais: quando eu tinha uns 10 anos, em que a vontade de melhorar o que eu estava desenhando e pintando, e estudar arte, me veio avassaladora, me consumindo. Lembro de chorar de vontade de estudar desenho e pintura.
Meus pais deram um jeitinho de me colocar numa escola de arte de quebrada, que são basicamente aqueles ateliês pequenininhos em que os professores ensinam senhorinhas a pintar flores, paisagens de marina, ou uma natureza-morta. Eu entrei com 10 ou 11 anos nessas aulas e comecei a pintar óleo sobre tela, mas era muito caro, ainda é muito caro. Logo no começo, meus pais estavam muito apertados e já virou uma chave: vamos vender isso para custear o curso. Então, no mesmo ano em que comecei a estudar, já comecei a trabalhar com arte. Meu pai tirava fotos, upava no pen drive e levava para o trabalho dele. Ele era eletricista no metrô, trabalhava à noite e mostrava na sala do café as fotos para os colegas de trabalho. Eu vendia muito, foi a época em que eu mais vendi quadros, muita pintura!
E foi muito importante, porque isso sustentou meu estudo inicial em arte na Cidade Líder, em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo. A vida foi acontecendo para que, talvez poucos anos atrás, eu tenha me posicionado como artista e entendido além de um sentimento muito forte, um desejo de expressão, uma vontade de ter contato com os materiais, uma experiência estética com a pintura, com o desenho, nas texturas, um grande prazer. Hoje, entendo um pouco mais sobre as necessidades do meu corpo, morando na favela, sendo travesti, percebo que ser artista é uma profissão. Me posiciono como artista e educadora, como artista educadora. Continuo amando e respeitando muito o trabalho de arte em seu impacto na construção de imaginações coletivas, no registro de um tempo, de movimentos coletivos, como uma desculpa para as pessoas se juntarem.
Mas é o meu trabalho, é a minha fonte de renda, e tenho entendido cada vez mais como levar isso a sério. Daí todas as partes mais burocráticas e técnicas da entrada nas artes, não só em uma técnica de composição de uma tela, mas nas técnicas de captação de recursos, de organização financeira, de gestão de equipe. Hoje, trabalhando em Mira Visuais, um espaço de confluência para pessoas trans periféricas, e finalizando “trabalho de parto”, minha pesquisa mais recente, que é um duo – um livro e uma peça de videoarte –, consigo dizer que 100% do dinheiro captado para recursos humanos foi direcionado para pessoas trans periféricas. Tudo isso tem a ver também com uma posição política do meu corpo, um compromisso a partir do meu território, a partir de onde eu venho. Mas continuo tirando muita onda.

Mira: E pra você, como acontece sua aproximação com expressões artísticas? Existe um momento em que se torna uma profissão?
Noah: Muito interessante você falar desse seu contato com a arte, porque quando a gente retrocede cronologicamente a nossa história, deparamos com esses contatos com a arte na primeira infância, e como isso se desdobra futuramente. Essa afeição pelo universo poético.
Na minha escola, principalmente a partir do ensino fundamental em diante, fui uma pessoa que sofria muito bullying, era muito diferente do resto das pessoas que estavam na minha sala, então sempre era zoado, chorava, essa historinha triste que todo mundo tem pra contar, né? Quando eu tinha uns 13 anos, minha mãe me colocou no teatro, ela achou que seria bom. E no teatro consegui me desenvolver criativamente, de maneira que eu era mais aceito socialmente e até reconhecido com as minhas características, minhas aptidões. Vi naquele grupo um espaço de acolhimento, das coisas que eu acreditava que seria legal fazer, divertido e enriquecedor. Conheci muitas músicas, muitas peças, atuando desde contra-regra até como ator. Nesse universo, eu era muito mais bem-vindo. Minhas ideias eram mais bem-vindas, minha performatividade. Era um refúgio, querendo ou não, para o pesadelo que vivia no período escolar.
A partir daí, percebi que a única coisa que me sentiria feliz fazendo seria arte. Entrei no bacharelado interdisciplinar em Artes e Design na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Já aos 17, 18 anos, antes de entrar na universidade, me entendia artista. Quando entro na universidade, chego com o pé na porta. A universidade fala: “Querida, calm down” e corta minhas asinhas.
Durante muitos anos paralisei minha produção, ou fiz uma produção tímida, sempre com esse receio de não atingir o suficiente os objetivos. A experiência da universidade, ao mesmo tempo que me deu um referencial teórico e um contato com outros artistas de trajetórias diferentes, também me castrou discursivamente durante muito tempo, a ponto de pegar um ranço da academia. Então, rolou uma crise durante alguns anos, e foi quando percebi: “Preciso fazer as coisas que sei fazer e que necessito para continuar a viver“, num sentido existencial mesmo, de ajudar a superar as realidades à volta, com essa fabulação de imaginários e de possibilidades de formas, de possibilidades de vida, de invenções.
Hoje me enxergo como um artista multimídia, artista-etc., que foi uma possibilidade, trabalhando com essa interdisciplinaridade, uma solução, uma saída profissional, estrutural, mercadológica mesmo, de atuar em várias vertentes. A gente vai atirando para tudo quanto é lado, é uma maneira incansável de nunca estagnar na criação, no próprio poder de criação, misturar linguagens e conhecer coisas novas nesse contínuo aprendizado.
E também um escoamento financeiro. Quando está apertado de um lado, a gente tenta ir para outro. O que vai aparecendo também vamos pegando, porque não dá para dormir no ponto. Também começamos a ter uma visão mais geral de diversas etapas da produção de feitura de um trabalho de arte. Trabalhando com o que a gente tem, a gente vai fazer produção, direção, atuação. É segurar as pontas, ao mesmo tempo que vai aprendendo, se preenchendo, se alimentando de arte.

Mira: Bom, sobre as materialidades, comecei no óleo sobre tela e desenho, mas outras linguagens foram se apresentando pra mim, como a pintura acrílica, aquarela e performance. Nesse momento começo a questionar alguns limites que antes eram mais fixos pra mim, como a religião, e os resquícios dela ainda habitavam, e habitam, o meu corpo. Eu fui Testemunha de Jeová, cresci numa família bastante rigorosa, mas consegui algumas brechas pra já começar a estudar e trabalhar com arte. Meu primeiro trampo como artista educadora foi na minha garagem, dando aula de pintura para crianças do Salão do Reino, da religião, da quebrada pra custear também a universidade.
Pra mim, o momento em que eu saio da casa dos meus pais marca uma ruptura não só com a minha família, mas também com a religião, e é o momento em que encontro a performance e começo a imaginar e a experimentar o meu corpo também como um meio, uma mídia, e me implicar mais ainda, talvez mais radicalmente. Eu fiz uma residência artística chamada Open Cu sobre o processo da peça Macaquinhos, e abrimos uma edição da MAMBA NEGRA em silêncio. Foi precioso encontrar ali outras possibilidades de comunicação não verbal, entendendo o corpo a partir de outras direções, abrir espaço para a sensibilidade. Além de conviver com outras pessoas que estavam questionando suas próprias expressões de gênero e identidade. Pouco depois, a maior parte das pessoas transicionou de gênero. Depois eu fui fazer, antes mesmo da minha transição, algumas outras performances, videoperformances, estudei fotoperformance com o Marcelo Deni, quando eu fiz Candelabro, acendi algumas velas e queimei no meu corpo. Pra mim, a performance é a possibilidade de experimentar. Assim como recentemente a poesia tem sido um espaço radical de experimentação.
A materialidade têxtil também foi esse formato para dar conta da minha transição de gênero. Num momento muito precário da minha vida surgiu Mira Visuais: como um brechó, morando em Salvador. Eu tinha me mudado para lá para estudar artes na UFBA, logo depois de me formar em Biologia. Criei Mira Visuais em 2021, durante a pandemia, como um espaço para vender algumas pinturas acrílicas no algodão cru, parecidas com bandeiras, e também roupas. Fui notada por coletivos de São Paulo, que me chamaram para costurar, e eu fui aprendendo juntamente com as travestis, com coletivos como o Ateliê Transmoras, que cultivam a confluência de pessoas travestis, pessoas trans e várias outras pessoas marginalizadas, através da materialidade têxtil, principalmente do descarte. Colchas de retalhos que vão sendo tecidas em rede, e que vão também costurando os nossos corpos, as nossas dores e feridas.
Mira: Eu queria saber se pra você existe essa relação entre as linguagens que você se interessa, o que vai aparecendo a partir da sua produção e você vai descobrindo coisas novas ouvindo o trabalho. E sobre a precariedade no acúmulo de trabalho no seu contexto como artista etc., se este for o seu caso.
Ei amiga, boa noite, tudo bem? Bom dia já, né? Nessa sua fala percebo coisas que às vezes se descontinuam… e aí, anos depois, voltam. Ou coisas que aparecem de supetão em certo momento da vida. E de como lidamos com isso também.
A pergunta vem em algumas frentes. A primeira é técnica mesmo. O material, não ter os melhores recursos ou as melhores condições de conservação, armazenamento do trabalho. Então, muitas vezes, fui fazendo meu trabalho ficar pequeno, diminuto. Para que ele conseguisse ser transportado, conservado.
A precariedade, a princípio, é óbvia. É um statement, não tem o que fazer. Não só em questões territoriais e financeiras, mas a arte no Brasil. Até museus e lugares institucionais sofrem de precariedade. Se a precariedade já é algo dado, algo provável, eu tento olhar sempre para pessoas, ou movimentos, iniciativas, projetos, que buscam soluções dentro dessa precariedade. Para não ficar relegado ao lugar da miséria, ao lugar do que não acontece, do fracasso. Mas admitir essa falha e fazer algo com isso.
De alguma maneira, esse precário vai fazer a gente abrir mão de se levar tão a sério, de se exigir muito, porque já não temos nada. E isso abre espaço para uma experimentação, um laboratório, para algo desgarrado da arte enquanto algo cristalino. Abre espaço também para pensarmos a arte em vários lugares. Dentro das salas de aula, das conversas, das residências de pessoas. Acredito que todo mundo, potencialmente, é artista.
Então, de que maneira a gente pega o que a gente tem, lida com isso e propulsiona novas fábulas, novos suportes, novos discursos? Outros discursos, não necessariamente novos, mas como isso pode ser um trampolim para não ficarmos reféns das limitações? Quando delimitamos essas fronteiras, também temos um lugar para chamar de nosso. Não que não possamos transitar entre espaços, mas desgarrar desse lugar de preciosismo é uma maneira de não se deixar iludir, não se deixar ficar deslumbrado por uma promessa de algo. Entender que é tudo um percurso, uma continuidade, uma insistência, uma vontade contínua de fazer.
Acredito, sim, que a gente luta, a gente pensa e pratica, tentando sair das limitações, das faltas de recursos, espaços, acessos. Queremos sair disso, ao mesmo tempo que esses impeditivos não podem ser os paralisadores do nosso pensamento, da nossa produção. Porque, justamente, foi esse pensamento crítico, foi a postura ativa e não satisfeita com o status quo que me permitiu avançar, amadurecer, acessar espaços que eu não imaginei que seriam possíveis. Mas também fazer com que as pessoas à minha volta tenham suas insurreições poéticas, criativas, para que elas tracem seus percursos, sendo eles óbvios ou não, tentando obedecer a uma fórmula ou não.
Noah: Uma coisa que fiquei pensando sobre o que você tinha comentado antes é de como o outro acaba fertilizando o seu trabalho, inspirando a sua trajetória e nos auxiliando nesse percurso. Ou como também possibilitamos esse empurrão ou apoio para o outro. Queria saber de que maneira suas relações pessoais, sociais, afetam sua produção? Tanto do lugar íntimo, do círculo afetivo, quanto do que nos atravessa no externo, lá fora.
As redes são mais importantes do que o trabalho, pra mim. Os encontros e as parcerias ao longo do caminho são o próprio trabalho. Eu sinto que meu trabalho só acontece porque pude acessar espaços informais, comunidades underground de formação e pesquisa. Foi dali que criei minhas referências e ampliei meus repertórios. Fui conhecendo pessoas que me incentivaram, me botaram em crises, me criticaram, me gongaram, e tudo isso como combustível para a produção. Uma produção que não é hegemônica, que não está dentro de um mercado de arte considerado legítimo. Mas tudo isso nas brechas, até mesmo esta conversa.
Esta entrevista que se dá porque a gente se conhece talvez por uma amiga em comum. Eu lembro de uma das primeiras vezes que a gente trocou ideia, foi na exposição de Mira Visuais, na quarta edição de Me Reconheço no Encontro, que é esse projeto que eu idealizei de residência artística, que acontece desde 2021, articulando identidade, expressão de gênero e lixo têxtil. Ano passado, a gente fez uma exposição e uma festa, que por acaso foi no dia do meu aniversário, como resultado de um grupo de estudos. Acho que essas coisas vão criando em nós não só possibilidade de fazer, de realizar, de conseguir grana e dignidade, mas também continuar criando sentido. Pra mim, é fôlego e refresco pra continuar seguindo, apesar das ruínas, viva! Acho que tem algo aí nesses encontros que a gente se apoia, você no seu trampo, eu no meu, nos últimos minutos tentando encaminhar esta entrevista. Tem algo aí nesses encontros, além da produção de um objeto, de uma obra, de uma carreira… acho que tem alguma coisa aí.