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Estudante interagindo com a obra de Nicolás París na Bienal de Veneza [Foto: cortesia Galeria Luisa Strina]
Postado em 22/11/2011 - 11:17
Fazer e ver, um jogo eterno
Projeto de Nicolás Paris, na 54a Bienal de Veneza, pede participação de estudantes
Maria Iovino, de Bogotá

O centro ao redor do qual se organiza a proposta de Nicolás Paris é a direção do olhar e sua possibilidade de reinventar o mundo continuamente. Poucas vezes entende-se que essa possibilidade esteja relacionada com o que pode ser captado e entendido pela percepção. Daí a importância de se fazerem inteligíveis as sinalizações de um artista.

Isso traz à tona a questão da responsabilidade não só do artista que sinaliza, mas também de quem se proponha a dirigir uma coletividade, a partir de concepções sobre o real. A realidade, como se faz entender no trabalho de Nicolás Paris, não é algo estabelecido, e descritível, mas uma impressão variável que depende de sua captura pelos sentidos. É por esse motivo que os traços predominantes do imaginário  da poética do artista se fazem no próprio processo de arquitetar ideias em formas. Entender e dar a ntender esses parâmetros é, ao mesmo tempo, seu método de trabalho e de observação.

Desde essa perspectiva, o contexto e a experiência de quem o vive são percebidos como assunto completamente instável e maleável, ou como problema suscetível de ser moldado em cada sensibilidade envolvida.

As ferramentas que Nicolás Paris assume em cada trabalho nos fazem compreender que todo código ou preceito está sujeito a interpretações e reestruturações. As emoções têm, portanto, um papel definitivo nos rostos que se configuram progressiva e circunstancialmente entre múltiplos sistemas de interpretação. Essa é a razão pela qual o artista recorre a elas sem descanso em seus jogos com a imagem. Não é gratuito que o impulso criativo desse artista tenha tomado forma no trabalho educativo e isso se dá, num primeiro momento, com estudantes de regiões carentes.

Nessas condições, o desenho, por seu despojamento, por sua realidade estrutural e sua amizade com a escritura (e também pela formação de Paris como arquiteto), converteu-se naturalmente no aliado que mais riquezas trouxe à consolidação de sua proposta. Talvez, entre as mostras nas quais o artista participa atualmente, a 54ª Bienal de Veneza seja onde em maior medida se possam ler essas ideias, já que, ao convite feito pelo programa educativo do evento, o artista respondeu com um compêndio de exercícios, dirigidos a estudantes, professores e ao público. Eles reúnem abstrações e conclusões formadas desde que iniciou seu trabalho como arte educador.

Maria Iovino é curadora e autora de livros sobre artistas da América Latina, coordenou na Colômbia a pesquisa de documentos ICAA/MFAH.

*Publicado originalmente na edição impressa #2.

Serviço:

54a Bienal de Veneza 2011
até 27 de novembro
Veneza, Itália

11o Biennale de Lyon
até 31 de dezembro
Lyon, França