REALISMO ESPECULATIVO
Segundo a autora Lucia Santaella, em seu artigo “Ignições das artes contemporâneas na virada especulativa”, o nome realismo especulativo – ou filosofia orientada a objeto, ou ainda ontologia orientada a objeto (OOO) – funciona como um guarda-chuva que abriga autores com diversas tendências. “São os seguintes os pontos para os quais convergem os realistas especulativos: a) O retorno ao objeto e consequente abandono da virada linguística do pós-estruturalismo. Encontrar os objetos por trás das qualidades com que se apre- sentam a nós, e para além de sua nomeação. Um foco renovado na vitalidade, materialidade, autonomia, en- canto e durabilidade dos objetos; b) A liberalização da noção de objeto, tudo é objeto: galáxias, a tela deste computador, queijos na chapa, futebol, o ser humano e seus pensamentos, comandos, o Litoral Norte etc. etc. Todos os objetos são iguais a objetos, ontologicamente no mesmo plano; c) A dissolvência das dicotomias a partir da ruptura radical de quaisquer relações entre interior/exterior, seja no sujeito, seja no objeto, o que leva à abolição do binômio sujeito/objeto, pois não existe o pressuposto de um sujeito para estabelecer as linhas divisórias dessas relações; e d) A rejeição do hábito dos humanos de pensar sobre as coisas apenas em termos dos efeitos que elas provocam em nós. Pensar a realidade para além do nosso pensamento é obrigatório. Disso decorre um cabal descentramento de quaisquer formas de antropocentrismo.” Entre os nomes que têm sido reconhecidos como expoentes do movimento destacam-se Graham Harman, considerado seu fundador, Levy Bryant, Timothy Morton, Ray Brassier, Steven Shaviro, e Ian Bogost.
PENSAMENTO ESPECULATIVO
O filósofo e matemático britânico Alfred North Whitehead (1861-1947) cunhou nas obras Processo e Realidade (1929) e Formas de Pensamento (1938) os conceitos de pensamento especulativo, filosofia especulativa e realidade especulativa, defendendo que dicotomias como sujeito ou objeto, experiência ou representação, fatos ou convicções, são falsos problemas engendrados pela filosofia racionalista para conseguir explicar fenômenos eliminando tudo o que não pode ser enquadrado pela explicação. “Estas alternativas, que parecem tão inocentemente teóricas, são na verdade máquinas de guerra imparáveis, girando no vácuo e produzindo uma desertificação de todos os modos de existência: reduzindo o pensamento a meras representações, ficções a realidades imaginárias, valores a projeções subjetivas sobre a natureza”, escreve a historiadora da ciência Isabelle Stengers em artigo na revista Parse. Segundo ela, a posição de Whitehead, ao afirmar que nada deve ser excluído da prática filosófica, não significa que tudo deve ser levado em consideração: “Estipula que devemos rejeitar o direito de desqualificar. O apelo de Whitehead pode, portanto, ser entendido como uma reflexão sobre a pluralidade de questões de interesse [matters of concern (Bruno Latour)], que fazem parte da mesma realidade da qual participamos. Fazer com que uma situação, passada ou presente, tenha interesse significa intensificar o sentido de possíveis que ela abriga, expresso pelas lutas e reivindicações por outra forma de fazê-la existir. É por isso que o pensamento especulativo é tão facilmente encontrado em histórias e contos que, como a ficção científica, exploram outras trajetórias possíveis”.
FICÇÃO ESPECULATIVA
O termo tem três significados historicamente localizados: um subgênero de ficção científica que lida com problemas humanos e não tecnológicos; um gênero distinto e oposto à ficção científica em seu foco exclusivo em futuros possíveis; e uma supercategoria para todos os gêneros que deliberadamente se afastam da imitação da “realidade consensual” da experiência cotidiana. Usado em referência a um conjunto difuso de uma supercategoria metagenérica e a um campo da produção cultural, a ficção especulativa surgiu em resposta à necessidade de um termo genérico para uma ampla gama de formas narrativas que subvertem a mentalidade pós-iluminista: aquela que há muito havia excluído da “literatura” histórias que se afastam da realidade consensual ou abraçavam uma versão da realidade diferente da empírico-materialista. Situada contra as reivindicações deste paradigma, a ficção especulativa surge como uma ferramenta para desmantelar o viés da tradição cultural ocidental em favor da literatura que imita a realidade e como uma busca pela recuperação do sentimento de espanto e maravilhamento. Algumas das forças que contribuíram para o surgimento da ficção especulativa incluem a aceleração da hibridação de gêneros; a expansão do panorama literário global provocada pela crescente aceitação de gêneros não miméticos pela cultura dominante; a proliferação de formas narrativas indígenas, minoritárias e pós-coloniais que subvertem as noções ocidentais dominantes do real; e a necessidade de novas categorias conceituais para acomodar tipos diversos e híbridos de narrativa que se opõem a uma visão sufocante da realidade imposta pelo capitalismo global.
TV ESPECULATIVA
Do 11 de Setembro à Covid-19, o século 21 parece cada vez mais distópico – e o mesmo acontece com seus programas de televisão. As narrativas longas de ficção científica vão um passo além dos medos de hoje: a democracia liberal em crise, a crescente precariedade econômica, a ameaça do terrorismo e o controle corporativo onipresente. Ao mesmo tempo, muitos desses programas tentam visualizar alternativas, utilizando extrapolações distópicas para destacar a possibilidade de construir um mundo melhor. Programando o Futuro examina como a televisão especulativa recente aborda as contradições da ordem neoliberal. Sherryl Vint e Jonathan Alexander analisam uma série de narrativas populares das últimas duas décadas, incluindo Battlestar Galactica, Watchmen, Colony, The Man in the High Castle, The Expanse e Mr., e argumentam que a televisão de ficção científica coloca em primeiro plano a governança como parte da explicação das novas instituições e normas dos seus futuros imaginados. Por meio de alegorias e críticas do desenvolvimento social, político e econômico contemporâneos, a TV especulativa oferece sua contribuição ao público para resistir à naturalização do status quo, ou seja, as representações de lutas políticas em mundos alternativos abordam questões urgentes do mundo real de identidade, pertencimento e mudança social e política