Uma atípica coleção compõe a primeira fase da ocupação de Keila Alaver da Banca Tijuana, na Galeria Vermelho, em São Paulo. Nas prateleiras, ao lado de novos trabalhos realizados em papéis, envelopes e artigos de papelaria bordados e trabalhados à mão, a artista enfileira seu vasto repertório de assemblages montadas com objets trouves e objetos não funcionais garimpados em lojinhas de quinquilharias. Surrealismo perde.

A julgar pelo tamanho do espaço, temos aqui uma minirretrospectiva em construção. Mas a extensão do projeto até o fim de 2023 confere à instalação I AI (2023) a qualidade de uma instituição (semi)permanente, em que a artista vai ao longo do ano trazendo à tona, revelando e reagrupando as pérolas de seu acervo pessoal. Essa banca-baú segue a mesma lógica de agregação e crescimento desordenado de instalações anteriores da artista, como Jardim de Pele de Pêssego (2010), onde, em visita, a crítica Kiki Mazzucchelli observou que as esculturas proliferavam como musgos.
O projeto da Vermelho de convidar artistas a ocupar um espaço afetivo (para muitos) que está em vias de desaparição da vida urbana – a banca de jornal – se entrosa muito bem com a poética invulgar de Keila Alaver. Aqui, o que era prosaico e cotidiano ganha uma nova pele, ou penugem, ou pelúcia.
