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Ato III de O Barco, de Grada Kilomba, no Inhotim. Foto: Estúdio Coniiin
Postado em 12/06/2026 - 12:19
GEOMETRIAS TRÁGICAS
Uma conversa com Grada Kilomba sobre a desobediência poética de criar uma linguagem para falar sobre o que não é falado

Segundo o Livro do Gênesis, a primeira tarefa de Adão no Éden foi inventar a língua, dando nome a tudo. Em estado de inocência pura, suas designações alcançavam a essência do que era denominado, não havendo distinção entre as coisas e seus nomes. Após a queda, a harmonia se perdeu, o mundo se desligou de seus significantes e uma série de eventos infelizes – entre eles o Dilúvio – culminou no epítome dessa ruptura: o mito de Babel.

Situado no capítulo 11 do Gênesis, versículos 1 a 9, trata-se do último evento pré-histórico da Bíblia, fazendo da Torre de Babel a imagem derradeira antes do verdadeiro começo do mundo, erguida em um tempo em que “a terra inteira tinha uma só língua e um mesmo modo de falar”. As razões que levaram à sua construção são tema de numerosos debates teológicos, com leituras que vão desde grupos que desejavam viver no céu até homens que tencionavam declarar guerra contra Deus, passando pelo culto de ídolos. Uma visão mais objetiva interpreta a passagem como a explicação dos hebreus para a profusão de culturas, crenças e, é claro, línguas diversas ao redor do mundo.

Se a linguagem é o que sobra após uma catástrofe – o apócrifo Livro dos Jubileus descreve a torre sendo destruída por um enorme vento –, cabe perguntar qual rota deve ser traçada em direção à reparação. A psicanálise oferece uma resposta em sua definição de “cura pela fala”, mas a arte pode indicar outro caminho – o do silêncio.

Opera to a Black Venus (2024), terceiro e último ato da obra O Barco (2021), de Grada Kilomba, é uma manifestação muda. Objeto-vivo no Inhotim desde a performance inaugural da artista em território mineiro com o Ensemble Lisboa, O Barco se encerra com uma articulação entre imagem, som e espectador. Nada de palavras.

“O vídeo é um lamento, um réquiem aos horrores do agora, às políticas do agora”, diz à celeste a artista e psicanalista portuguesa, que concentrou cinco dias de gravação junto a bailarinos, tenores e cinegrafistas em uma obra de seis minutos de duração. Rodada em uma zona desértica nos arredores de Lisboa, Opera to a Black Venus remete tanto a cosmogonias quanto a discussões contemporâneas sobre devastação climática ao partir de uma única pergunta: “O que o fundo do oceano nos diria amanhã, se hoje fosse esvaziado de água?”

Para Kilomba, “o fundo do mar é um arquivo, mostra os resultados das políticas humanas e funciona como um cemitério global. Há linhas de corpos que criam trilhas cuja temporalidade revela o lado grotesco da humanidade”. A supressão temporal do trabalho exibido no Inhotim responde a um trauma tão forte que sua elaboração foge das possibilidades semânticas – fenômeno conhecido pelos psicanalistas –, evocando uma operação de subtração confluente ao princípio que rege O Barco: 134 blocos de madeira reduzidos ao espaço máximo que podia ocupar um corpo no porão das embarcações carregadas de pessoas escravizadas rumo às Américas.

“Quanto maior a violência, maior a necessidade de abstração. A poesia aparece em formas geométricas mais abstratas, conforme o crescimento das políticas desumanizadoras. Poesia e geometria têm um papel muito importante no trato de questões traumáticas.” O desafio, segundo Grada, é encontrar maneiras de abordar a violência sem reproduzir a violência, distante do risco de acionar gatilhos sem perder a visão crítica, o que nos leva ao seu conceito de “desobediência poética” e ao que considera o papel do artista na sociedade: tematizar o que não é tematizado. Criar uma linguagem, ainda que sem fonemas, para falar sobre o que não é falado. E compreender quais são os sistemas que tornam essas discussões periféricas e decidem o que é digno de se saber. Ou melhor, nas palavras dela, se perguntar: “Como criar um lamento que é poético?”

Grada Kilomba na instalação O Barco, no Inhotim. Foto: Estúdio Coniiin
Vídeo Opera to a Black Venus, Ato III de O Barco, de Grada Kilomba, no Inhotim. Foto: Estúdio Coniiin

TRAUMA E TRADUÇÃO

A linguagem é o que sobra após uma catástrofe. Prova disso é outro elemento fundamental de O Barco: os 18 versos do poema escrito por Grada Kilomba cravados em 18 blocos de madeira com tradução para diversas línguas migrantes, entre elas yorubá, criollo de Cabo Verde e árabe da Síria. Não se trata, portanto, de rememorar a história somente, mas de expor “as línguas que estão em movimento hoje, caindo no fundo do mar agora”. É como se a desorientação originada pela destruição de Babel levasse, inesperadamente, a um encontro de línguas que atravessam o mapa-múndi em todas as direções. Kilomba conta que não é raro, diante da obra, pessoas se perguntarem que palavras são aquelas, revelando como “o que sabemos nem sempre nos serve, pois a linguagem que nos é dada não pode contar nossa história”.

Não são apenas as comunidades de cada território que são trazidas para dentro dos processos da artista. Na verdade, a dimensão externa está sempre presente em suas obras, seja na forma de pessoas, seja na forma de materiais elementares, como café, açúcar, terra, madeira queimada, rochas ou vidro. Conforme diz Kilomba, sua relação com o próprio trabalho é parecida com a de um autor diante da escrita de um livro. “Cada obra leva à próxima, e é no meio do capítulo que você começa a entender como vai ser o capítulo seguinte.”

Detalhe da instalação Compressed Time, de Grada Kilomba. Foto: Estúdio Coniiin

Foi essa abertura ao contexto que possibilitou, às vésperas da inauguração do terceiro ato de O Barco, a inclusão da instalação Compressed Time (2024), composta de um cubo de vidro posicionado em meio a um arranjo de pedras coletadas no Inhotim. Instalada na parte de trás da tela que exibe Opera to a Black Venus, funcionando quase como o subconsciente da obra aparente, esta peça faz a ponte entre as rochas portuguesas e a paisagem mineral de Brumadinho. De costas uma para a outra, o único fator a uni-las é o som: um piano tocado a quatro mãos por Grada Kilomba e sua filha mais nova.

O jazz hipnótico, desobediente, recaindo sobre si mesmo como as ondas de um mar extinto, é “a narrativa de uma criança respondendo ao agora”. Trata-se de um lembrete do futuro: assim como o vidro, a rocha e a areia são estados diferentes de um mesmo elemento, a mãe é a continuidade da filha e a música costura tudo na fabricação de um mundo onde, mais uma vez, não exista nenhuma diferença entre as coisas e seus nomes.