icon-plus
Q: And the babies? A: The Babies. (1969), do grupo The Art Workers Coalition [Foto: Reprodução]
Postado em 20/02/2024 - 6:37
Comunicados em Tempos de Insurgência
As relações entre arte, design e política que se expressam graficamente, em consonância a movimentos sociais, em contextos de repressão, violência, guerra ou crise democrática

A comunicação gráfica política é uma linguagem universal, produzida em diferentes contextos e colocada em circulação em museus, ruas, escolas e fábricas, entre outros lugares da vida política. A aproximação entre estética e política e a relação entre imagem e texto borram os limites das categorias de arte, design e política. Os casos levantados buscam não apenas resgatar estilos de vanguarda, mas também pensar que sentido essas manifestações têm hoje e como podem contribuir para uma crítica no presente.

Q: And the babies? A: The Babies. (1969), do grupo The Art Workers Coalition [Foto: Reprodução]

THE ART WORKERS COALITION (EUA)
Q: AND THE BABIES? A: AND THE BABIES. (1969)

A fotografia de Ron Haeberle, fotógrafo de combate do Exército dos EUA, capta os corpos mutilados no massacre de My Lai, uma das maiores atrocidades cometidas pelo Exército norte-americano na Guerra do Vietnã. A imagem foi publicada na revista LIFE, em março de 1968. O cartaz foi criado em litografia por três membros do grupo Art Workers Coalition. O texto é uma apropriação de trecho de entrevista do The New York Times que, ao colocar uma sim- ples questão, se opõe à mensagem vitoriosa dos militares e mostra o quanto injustificável foi o massacre. Em 1970, os membros do AWC fizeram um protesto com os cartazes dentro do MoMA NY, diante da pintura icônica antibelicista Guernica, de Pablo Picasso.

DAVID TARTAKOVER (ISRAEL)
CHILDHOOD IS NOT CHILD’S PLAY! (1998)

“É triste quando uma criança morre e, por mais difícil que seja dizer, foi de acordo com o regulamento.” (Porta-voz da Força de Defesa de Israel em reação à morte de Ali Muhamed Juanwish, 6 anos, em novembro de 1997.) Na parte inferior do cartaz, a frase: “Infância não é brincadeira de criança!” Na parte superior, a citação de declaração do porta-voz das Forças de Defesa de Israel, explicando que esse menino palestino foi “morto de acordo com o regulamento”, provoca um desconforto ainda maior ao ser aplicada sobre a imagem de uma criança pequena na mira de uma batalha política.

O artista gráfico, professor e ativista pró-palestina David Tartakover atua com a difusão de mensagens de esquerda sobre a ocupação israelense. Em 1978, ele desenhou o logotipo Peace Now, que circulou como adesivo e virou uma das primeiras manifestações visuais pró-Palestina em Israel e um símbolo do movimento pela paz.

GRAPUS (FRANÇA)
APARTHEID /RACISME (1986)

O cartaz antirracismo em preto e branco apresenta a silhueta de uma caveira no mapa da África. Foi feito pelo coletivo francês Grapus, que atuou entre 1970 e 1991, formado inicialmente pelos designers François Miehe, Pierre Bernard e Gérard Paris-Clavel. Todos eram membros do Partido Comunista e se conheceram durante o movimento estudantil de maio de 1968, onde começaram a desenvolver a produção de imagens associada à militância. Os materiais gráficos eram influenciados pelas ideias e práticas da Internacional Situacionista e por cartazes poloneses de designers como Henryk Tomaszewski, que foi professor dos integrantes. Miehe, Bernard e Paris-Clavel trabalharam também em Conselhos Municipais Progressistas, no Sindicato Comunista CGT, em causas educacionais e em instituições sociais. O grupo buscava uma mudança social por meio da relação entre artes gráficas e ação política. Muitos artistas, ativistas e designers fizeram parte do Grapus ao longo dos anos, entre eles, o artista plástico suíço Thomas Hirschhorn. Em 1989, ele participou da exposição Cartazes de Direitos Humanos, organizada pelos integrantes do Grapus, em Paris.

 

À esq., cartazes do Atelier Populaire (França, 1968); à dir., cartazes da Taller Popular de Serigrafia (Argentina, 2002)[Foto: Reprodução]


ATELIER POPULAIRE (FRANÇA, 1968)

Quando a Escola de Belas Artes de Paris foi ocupada pelos estudantes em maio de 1968, as salas de aula foram convertidas em locais abertos e democráticos, onde foram organizadas oficinas do Atelier Populaire. Ali foi colocada em ação a produção diária de cartazes impressos em serigrafia, com estética simples e slogans diretos, que eram depois colados nas ruas e levados aos comitês de ação dos bairros e aos comitês de greve das fábricas.

TALLER POPULAR DE SERIGRAFIA (ARGENTINA, 2002)
Com uma estrutura serigráfica móvel – tela de serigrafia, espátula, tinta, estopa e rodo –, o Taller Popular de Serigrafia produz, há 20 anos, imagens e slogans simples de protesto para serem impressos em camisetas e cartazes durante manifestações e assembleias populares. O grupo foi formado em 2002 por artistas plásticos em um contexto de crise do sistema político das democracias capitalistas e da crise econômica na Argentina, que levaram a intensos conflitos populares. O nome do grupo refere-se ao Taller de Gráfica Popular, que fazia gravuras no México na década de 1910.

GRUPO MIRA (MÉXICO, 1977)
O grupo mexicano Mira foi formado por Melecio Galván, Arnulfo Aquino, Jorge Perezvega, Rebeca Hidalgo, Eduardo Garduno, Silvia Paz Paredes, Saul Martinez e Salvador Paleo. Desde 1968, produziram materiais gráficos juntos, paralelamente ao engajamento em diversos movimentos sindicais. Seus folhetos e cartazes, de baixa qualidade e custo, eram distribuídos em escolas, bairros periféricos e sindicatos. Divididos em núcleos, os Comunicados Gráficos, colocavam em pauta o panorama social da Cidade do México na época: problemas da cidade (imigração, educação, desemprego, transporte), estrutura de poder (aparatos repressivos e de manipulação, como polícia, prisões, televisão e jornal) e as alternativas propostas pelos movimentos sociais.

TUCUMÁN ARDE (ARGENTINA, 1968)
O projeto coletivo de pesquisa e ação política Tucumán Arde ocorreu em 1968, em Rosário, na Argentina. A organização pretendeu participar do processo revolucionário em um contexto de repressão das ditaduras militares na América Latina, buscando contornar a censura. Por meio de pichações, adesivos e cartazes nos muros da cidade, anunciaram uma exposição-denúncia sobre as contradições do sistema político-econômico e a desigualdade social em Tucumán. A exposição aconteceu na Confederação Geral de Trabalhadores de Los Argentinos (CGT).


TRIO SARAJEVO (BÓSNIA-HERZEGOVINA)

SARAJEVO POSTCARDS COLLECTION (1993)

O Trio Sarajevo foi formado em 1985, por três graduandos da Academia de Belas Artes de Sarajevo, influenciados pela cena punk local e por movimentos relacionados à pop-art. Durante a Guerra da Bósnia, o grupo optou por permanecer em Sarajevo e continuar ali sua produção visual. Com a cidade sitiada, os artistas focaram a produção de cartões-postais e cartazes, redesenhando símbolos icônicos da cultura pop do século 20, com quaisquer imagens disponíveis, geralmente publicitárias, para comentar a situação de Sarajevo. Na parte inferior de um cartão-postal, escrevem: “Este documento foi criado em circunstâncias de guerra. (Sem papel, sem tinta, sem eletricidade, sem água. Apenas disposição). Produzido durante a Guerra na Bósnia, 1992- 1995”. Neste ano de 2022, o Trio Sarajevo realizou a releitura de um de seus cartazes de Sarajevo para comentar a Guerra na Ucrânia.

GUERRILLA GIRLS (EUA)
THE BIRTH OF FEMINISM (2001)

Guerrilla Girls é um coletivo anônimo de mulheres artistas, atuante desde 1985. A partir de estratégias midiáticas de publicidade, reivindica a igualdade de gênero no mundo da arte. Na paródia do cartaz hollywoodiano, The Birth of Feminism (O Nascimento do Feminismo), aparecem três atrizes famosas seminuas com chapéu de cowboy e óculos cor-de-rosa – Pamela Anderson, Halle Berry e Catherine Zeta-Jones –, segurando uma placa exigindo “Igualdade agora”. Na parte inferior, o texto: “Elas fizeram os direitos das mulheres parecerem bons. Muito bons”. De forma irônica, as Guerrilla Girls comentam a exploração da mulher pela indústria cultural, muito antes do #MeToo.

EL FANTASMA DE HEREDIA (ARGENTINA)
I’LL BE YOUR MIRROR (2015)

Desde 1992, o grupo argentino El Fantasma de Heredia trabalha com temas sociais e culturais. O cartaz comenta o aumento de assassinatos de mulheres na Argentina. No cartaz, há uma foto de um diário com a letra da música I’ll Be Your Mirror (Eu Serei Seu Espelho/ imagem), da banda Velvet Underground, escrita à mão, refletida ao contrário, sobre um olho roxo, sobrevivente.

GRUPO DE AÇÃO (BRASIL)
APÓSTOLOS DO GENOCÍDIO (2021)

Apóstolos do Genocídio foi uma série do Grupo de Ação, composta de 13 lambes de serigrafia exibindo faces e nomes de empresários que apoiam o presidente Jair Bolsonaro. Os cartazes foram colados em diversos pontos das ruas de São Paulo e projetados pelo grupo Projetemos na empena de um edifício próximo ao Minhocão. O Grupo de Ação, aliança suprapartidária e anticapitalista, foi formado em 2020 para pensar ações estéticas no contexto político de ascensão do governo de direita, no período da pandemia.

MARIELLE PRESENTE (BRASIL)
GRAFITTES ANÔNIMOS

O Brasil é o quarto país do mundo que mais mata ativistas ambientais, aponta a ONG Global Witness. Foram 20 assassinatos em 2021, três quartos deles aconteceram na Amazônia. A violência contra a mulher é outro fator absurdo. Em 2021, em média, uma mulher foi vítima de feminicídio a cada 145 7 horas, segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Quando o país exige respostas para as mortes do líder indígena Zezico Rodrigues Guajajara e do líder quilombola Edvaldo Pereira Rocha, no Maranhão; e do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, no Amazonas, o país nunca deixou de perguntar: Quem matou Marielle???