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Iberê Camargo, Natureza-morta, 1954
Postado em 02/10/2026 - 6:00
Greve de cor
Com exímio conjunto de obras abstratas, figurativas e construtivas, mostra na Pinakotheke revisita o Salão Preto e Branco, relevante episódio de organização da classe artística brasileira

São raras as iniciativas coletivas de articulação política no meio das artes visuais no Brasil. O caso mais conhecido é o boicote que artistas e críticos promoveram à 10ª Bienal de São Paulo, em 1969, em resistência à violência da ditadura militar. Agora a Pinakotheke revisita uma manifestação anterior a essa, que teve enorme repercussão midiática em seu momento, mas que acabou ficando restrita ao âmbito acadêmico. O Salão Preto e Branco, liderado por Djanira da Motta e Silva, Iberê Camargo e Milton Dacosta, se organizou contra a precarização das condições do trabalho artístico devido ao aumento das taxas de importação de materiais. Como protesto, o III Salão Nacional de Arte Moderna inaugurou em 15 de maio de 1954 no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, com 323 obras realizadas exclusivamente em preto e branco.  

Com curadoria de Shannon Botelho, Revolta em Preto e Branco é realizada a partir de sua pesquisa acadêmica sobre a relação entre a crítica de arte e os salões de arte moderna dos anos 1950. A mostra retoma esse relevante episódio de organização de classe e traz um conjunto exímio de obras de artistas abstratos, figurativos e construtivos, que deixaram de lado divergências e estabeleceram uma trégua por uma causa comum.  

Para Goeldi, mestre das sombras e de um Rio de Janeiro noir, não foi difícil se restringir à tinta preta nas xilogravuras enviadas ao Salão, mas é surpreendente ver o desafio enfrentado por Alfredo Volpi, signatário do protesto, em privar-se da cor e sua pesquisa de fachadas de casas populares. Entre as 61 obras de 50 artistas, expostas na Pinakotheke de Botafogo, oito participaram do Salão, entre elas Natureza-morta (1954), de Iberê Camargo, e Luares sobre a Cidade Negra (1954), de Antonio Bandeira. Para dialogar com as obras da mostra original, a curadoria traz uma série de trabalhos de artistas signatários do manifesto, como os pesos pesados Portinari, Burle-Marx, Lygia Pape, Palatnik, Lygia Clark e Hélio Oiticica, entre outros. Todos, logicamente, em P&B. A terceira sala da exposição atualiza o debate, introduzindo trabalhos de artistas contemporâneos como Andréa Hygino e Bruno Dunley.  

“Embora desde o século 19 existisse uma indústria papeleira nacional, os papéis para fins artísticos eram massivamente importados. A produção brasileira destinava-se quase integralmente a fins comerciais e burocráticos”, escreve Botelho no texto do catálogo. O mesmo pode ser dito sobre as tintas, pigmentos, pincéis, telas e vernizes, tudo importado.  

Mas a profissionalização do sistema de arte envolve a produção local de insumos e materiais. Por isso, a participação de Bruno Dunley ganha um duplo sentido nesta mostra: além de ser um dos protagonistas da geração de pintores que despontou no Brasil no início do século 21, Dunley criou, juntamente com o artista Rafael Carneiro, em 2020 – durante a pandemia da Covid-19, quando o produto importado atingiu preços impraticáveis –, a Joules & Joules, primeira marca nacional e profissional de tintas e bastões a óleo de alta qualidade. Fim da greve de cor.