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A Assembleia dos Ratos (c. 1868), de Gustave Dorê [Foto: Wikimedia Commons]
Postado em 19/12/2024 - 7:26
HISTÓRIAS E FATOS SOBRE O CÓRREGO DA TRAIÇÃO
Os textos a seguir revelam as verdadeiras origens históricas e cosmogônicas do nome do córrego da Traição

No início do século passado, a Estrada da Traição seguia o córrego homônimo desde sua origem no Planalto Paulista até seu deságue no Rio Pinheiros. O córrego nomeou também a Usina de Traição, que invertia o sentido do Pinheiros para abastecer a Usina de Pedreira e atualmente funciona no controle do nível das águas. Hoje, o córrego é subterrâneo. Foi fechado para que, em 1970, a Avenida dos Bandeirantes fosse inaugurada sobre seu leito. A estrada deixa de existir e o Córrego da Traição se torna mais um braço invisível das águas de São Paulo.

Da origem de seu nome, sobrevivem hipóteses. Uma delas é que, sobre sua nascente, uma amizade teria terminado em assassinato. Outra é que, em suas margens, o bandeirante paulista Borba-Gato teria sido emboscado por seu filho adotivo. Para dar fim a estes boatos, os textos a seguir revelam as verdadeiras origens históricas e cosmogônicas do nome Traição.

Os traídos contam suas memórias

Uma tragédia que você não vê. Que corre por baixo da terra, e você não ouve. Mas que você sente, quando passa por perto, no cheiro putrefato que sobe pelos bueiros. Você sente os cadáveres boiando, o desespero, e prende a respiração.

Começou assim. 

Nós chegamos aqui junto com os homens pálidos. Não de propósito, nem deles, nem nosso. Estávamos dentro dos orifícios nos cascos, embaixo dos cereais, nas frestas e nas sombras. Naquela época, não pensávamos em nós mesmos. Pensávamos em roer e em reproduzir, e em roer mais. Pensávamos em medo de sermos encontrados e pisoteados pelas botas, e em medo dos gatos. Mas sem saber o que era um eu, o medo de ser pisoteado era só mais uma das coisas do mundo.

Aqui, nos espalhamos. Havia muito espaço, muitas plantas, frutas, havia outros bichos que não os gatos para correrem atrás de nós. E depois, plantações. Éramos pestes aqui também, mas não éramos os únicos a serem caçados. Na verdade, não éramos a preocupação principal dos homens. Víamos, com confusão, homens caçando outros homens. 

Enquanto eles caçavam aqueles que já viviam aqui, nós roíamos. Enquanto eles caçavam aqueles que vieram nos navios, como nós, nos porões, nós roíamos.

E depois, cidades. Cada vez maiores. O tempo, para nós, significava pouco. Roer, reproduzir. Dois, um ano de vida. Alguns meses. Roer, reproduzir.

E muito depois, canais. Água correndo debaixo da terra, só que feita pelos homens. Rios, esgotos, galerias. Começa uma vida nova – uma vida subterrânea. Começamos a explorar. As galerias, os caminhos, a vida enterrada no meio da cidade. Não havia gatos, nem pássaros gigantes, nem homens. Ninguém nos pisoteava.

Aí surgem meus ancestrais distantes, de inúmeras gerações passadas, uns 50 anos atrás. Assim como os outros, eles encontraram um canal debaixo da terra para fazer a ninhada, e ficaram. Neste, os homens construíram um longo vazio para suas máquinas, com muitos e muitos dias de extensão, seguindo o mesmo caminho que a água faz.

Nós que ficamos, mudamos. Começamos a lembrar, não só daquilo que vivemos, mas do que os outros viveram antes de nós, até gerações que nem sabíamos contar. Começamos a pensar em nós. E a dar nomes para as coisas, e por isso, para nós mesmos. Por um momento, foi deslumbrante. Nós criamos coisas. Pequenas embarcações, e casas flutuando. Uma ou duas gerações de paz. Mas mudamos de novo.

As histórias que ecoam nas galerias é que uma enchente aconteceu e, como em todas as outras, nós tivemos que voltar para a superfície. Nossas construções foram todas destruídas. Tivemos medo que a enchente nos fizesse esquecer. Pavor. Muito mais do que os antepassados tinham das botas e dos gatos.

Mas não esquecemos. Pelo contrário, a lembrança enlouqueceu alguns de nós. Quando voltamos para baixo, estávamos cindidos. Os enlouquecidos se tornavam agressivos, roendo compulsivamente, roendo a si mesmos, patas, rabos, roendo aos outros. Arrancavam carne e comiam. A si mesmos e aos outros.

Os loucos, aos poucos, voltaram a parecer sãos. Voltaram a dar nomes, pararam de se roer. Nós finalmente entendemos: eles lembravam mal. Suas memórias não eram as nossas, e acreditavam que não eram como nós. Eles se deram o nome de borba-gatos. Começaram a nos caçar. Aqueles que eram capturados eram roídos até os ossos. 

Até hoje fugimos. Fugimos de nós mesmos. Dos traidores.

Estátua do Borba Gato, incendiada em julho de 2021 [Foto: Gabriel Schlickmann]

Entrevista exclusiva com testemunha ocular

– É melhor que escreva o que lhe digo.

– Pode começar. Vou gravar tudo aqui.

– E essa máquina ouve minhas palavras?
– Chama gravador. Vai lembrar o que você disser.

– Se assim me diz.

– Pode começar.

– Bem. Disseram meus homens que acontecera tem vinte anos no Sumidouro. O crime, digo.

– Qual dos crimes?

– O primeiro, é evidente, do bandeirante e outros paulistas sobre o castelhano, Dom Castelo Branco.

– Ah, sim. E o que eles contaram?

– Contaram-me que Castelo Branco, que era superintendente-geral das Minas, havia sido enviado pela coroa para Sumidouro em busca de jazidas de pedras verdes e de ouro. E que, na época, Borba-Gato era já o encarregado daquela bandeira por ocasião da morte do seu sogro.

– Certo. E eles se desentenderam.

– Pelo que dizem, sim. Castelo Branco gabava-se de suas ligações à corte. Também os meus oficiais achavam-lhe intragável, e para Borba-Gato fora desrespeitoso. Começaram a disputar pela patente das minas, e daí contaram-me que o castelhano começou a fazer pouco-caso das suas obrigações.

– Então ele começou a enrolar a expedição.

– Sim, sim, ele atrasou a bandeira com vários adiamentos. Borba-Gato cresceu-se impaciente e deu cabo nele.

– Deu cabo como?

– Dizem uns que seus sequazes lho atiraram com mosquetes na cabeça. Mas tenho por mim, pois ouvi de um membro da bandeira do Sumidouro, que quem estava lá no dia o viu arremessado no buraco de uma mina e que sua queda durou três segundos inteiros.

– Mas não foi acidente.

– Não, foi Borba-Gato que em uma raiva cega o empurrou. Ou não cega, afinal, contam que após o ocorrido ele alegrou-se com a bandeira, apenas para ter que fugir logo depois.

– Então ele ficou foragido da coroa ou sei lá o quê?

– Sim, e durou esta fuga dois anos. Ele recebeu perdão somente pois, ao que sei, encontrou ouro no encontro entre as águas do Piracicaba e do Doce. Esse ouro lhe rendeu patentes.

– Tá. Mas eu não entendi ainda o que isso tem a ver com o Córrego da Traição. Porque isso aconteceu em Minas Gerais, certo? Qual é o outro crime?

– É o segundo crime que deu ao córrego seu nome.

– Então continua.

– Pois bem. Borba-Gato rendeu bastante ouro ao Rei, pois confiscava a mando da coroa tudo que as jazidas produziam. Não lhe interessava nada que não fosse seu ofício e o ouro. Até das mulheres ele desdenhava, mesmo as mais jovens e formosas, pois seu tempo era valioso e as mulheres só nos ocupam com futilidades.

– Hm.

– É aí que entra o segundo ocorrido. Poucos o sabem, mas eu vi e ouvi tudo de primeira mão, quando Borba-Gato se hospedou conosco em uma vinda a São Paulo, quando já era tenente-general. E lhe digo: não é verdade que foi seu filho o responsável pelo seu sumiço. O que acontecera é que Borba-Gato conheceu uma moça distinta que apareceu por aqui, dita filha de general. Na flor da idade, uns 14 anos, mas portava-se como uma dama feita. Ele ficou encantado. Passavam na companhia um do outro dias e dias. E poucos meses depois é que se deu seu sumiço.

– E isso tem a ver com o Córrego da Traição?

– Sim, pois foi nele que ela o afogou. Estavam os dois entrelaçados na beira d’água. Eu por acaso estava lá perto, dando conta das minhas necessidades em um arbusto, quando acidentalmente assisti à cena. A moça estava nua em cima dele, e era a moça mais bela que já vi, mas de repente uma coisa horrorosa aconteceu em sua figura. A pele dela reluzia como a superfície d’água. Então ela lho levantou com a força de três homens e lho arremessou dentro d’água e, enquanto ele agitava-se todo tentando voltar à terra firme, ela tacou-lhe uma grande pedra por cima. E foi isto. Após isto passei a chamar a água daqui de Traição.

– Péra, ela levantou o cara e tacou na água? Agora eu que não acredito em você.

– Senhorita, eu vi com estes dois olhos. Depois, a moça saiu da cidade e nunca mais a vi, mas os boatos a seu respeito só cresceram. Alguns contaram que ela era neta de Castelo Branco que viera vingar a família. Uns mamelucos começaram a criar estórias, que seu pai era o Doce e sua mãe, o Piracicaba, toda a sorte de loucuras. Mas o que vi naquele dia não era moça coisa alguma, mas um monstro. Disso nunca esqueci.

Agnello se transformando em serpente (1857), de Gustave Dorê [Foto: Wikimedia Commons]

A serpente

Vou contar a vocês aquilo que vocês não contam a si mesmos. Como tudo começa e termina. Como eu existo onde quer que estejamos no tempo, e também nunca existi.

Eu sei de tudo isso porque a água sempre soube. 

Quando a grande serpente, a mboi açu, a mãe-d’água criou este mundo, a água foi a primeira a existir. Quando o solo andou, as montanhas se formaram e os vales e planaltos dançaram, a água era a primeira a saber. Antes de vocês, antes do primeiro de vocês, e ainda antes do primeiro organismo minúsculo que viria a se agregar a outros, a água já sabia de tudo. E, portanto, eu sempre soube de tudo. 

Quando apareci no tempo, brotei dos chãos e cavei uma fenda na terra, eu já era um paradoxo. Sempre correndo, sempre no mesmo lugar. Existindo apenas enquanto devir, já que, na verdade, não existe nada correndo nas veias da mãe-d’água que não seja a própria mãe-d’água.

E, ainda assim, como todas nós, tenho um nome e um corpo. A nós, vocês chamam de rios e de cobras. Somos, afinal, a mesma coisa; quando a água serpenteia pelas terras, ou quando andamos na forma das suas mulheres ou das víboras, que vocês acreditam também ser a mesma coisa, somos a grande serpente em suas muitas formas.

Às cobras, ela permitiu a vontade própria de criar seus caminhos e seus desejos, que são também dela tão logo existem. Um sem-número de desejos dela vêm e a ela retornam no movimento infinito da nossa liberdade determinada. A mim, coube atrair os homens. Conquistá-los, amá-los, os tomar para mim. 

Perguntam-se por que motivo abraço os homens e os carrego até o fundo do meu corpo. Mas aquilo que engulo torna-se água, e assim suas lembranças e seu nome dissolvem-se no todo. Não há nada de humano que valha a pena ser recordado. O que importa é que à água tudo retorna. É assim que tudo termina e de fato nunca existiu. Resta apenas a mãe d’água, a serpente do mundo, e sua memória.