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Vista de Contraplano (2026), de Lais Myrrha. Foto: Ícaro Moreno/ Inhotim
Postado em 11/05/2026 - 5:13
Inhotim 2.0: Rumo ao Sul
Instalação de Lais Myrrha materializa novo imaginário ético e estético da instituição mineira, que comemora duas décadas de atuação com programa sustentável e diverso

Quem te viu, quem te vê, Inhotim. No marco das comemorações de 20 anos, o idílico instituto devotado ao encontro entre arte e natureza puxa o freio da megalomania e embarca, enfim, no século 21. Uma obra recém-inaugurada materializa o novo imaginário ético e estético do local: Contraplano (2026), de Lais Myrrha. A escultura a céu aberto esvazia a ideia de pavilhão, tão cara ao antigo Inhotim, onde era praxe construir novos edifícios para abrigar instalações de grandes dimensões. Assim se fizeram os pavilhões de Tunga, Cildo Meireles, Hélio Oiticica, Matthew Barney, Doug Aitken etc. 

Cito apenas artistas homens para o bem do argumento, mas registre-se que ao longo destes 20 anos também se edificaram pavilhões para nomes como Lygia Pape, Claudia Andujar, Adriana Varejão, Doris Salcedo e Rivane Neuenschwander. O fator primordial é a decisão institucional de adaptar os imóveis existentes para receber outras obras, outros artistas e outras exposições. A partir da doação, iniciada em 2022, do jardim botânico e de parte da coleção de arte do criador do instituto, Bernardo Paz, o Inhotim é hoje uma instituição cultural sem fins lucrativos independente, gerida por um conselho de patronos e representantes da sociedade civil.

A diretora artística da instituição, Júlia Rebouças, afirma que Contraplano sintetiza a “dimensão política que queremos trabalhar no Inhotim agora, o deslocamento de um eixo do Norte em todos os sentidos”. Essa ideia norteadora (suleadora?) foi determinante na escolha da geolocalização da obra de Lais Myrrha, próxima de esculturas permanentes de Chris Burden, Robert Irwin e Giuseppe Penone, homens brancos naturais do Hemisfério Norte. Vizinha de Beam Drop Inhotim (2008), de Burden, instalação feita com guindastes que despejaram de uma altura de 45 metros 70 vigas de ferro em uma piscina de cimento, a obra de Myrrha horizontaliza a percepção e a experiência do corpo.

Vista de Contraplano (2026), de Lais Myrrha. Foto: Ícaro Moreno/ Inhotim

“A escala é uma coisa relacional. Quando você olha de fora, parece um edifício, mas chegando aqui dentro, é acolhedor”, comenta a artista na apresentação do trabalho para a imprensa, no final de abril. Myrrha destaca que levou em consideração no projeto que poucas obras no Inhotim têm vista da área externa, e poucas são as que dão a possibilidade de se deixar ficar. Baseada na forma trapezóide orgânica [para os mais jovens, formato de fidget spinner original] do Edifício Niemeyer (1954), projeto do arquiteto modernista para o centro de Belo Horizonte, a instalação é feita de camadas de concreto armado estruturadas por pilares de aço. A escultura desaparece quando adentrada, assim como o calor vertiginoso de Brumadinho. Dali, vemos a paisagem circundante emoldurada por uma arquitetura arejada e sinuosa. 

“Contraplano faz parte de uma série que eu venho chamando Estudo de Caso, em que investigo o deslocamento de elementos da arquitetura. Aqui me interessou pensar a forma da cava de mineração e a da planta topográfica”, explica a artista. O conceito de “forma livre”, pilar da arquitetura modernista, e a ideia de ver do topo, fortemente vinculada com o mundo moderno, foram as “tecnologias modernas” contempladas na obra. Conhecida pela análise crítica do legado modernista no Brasil, Lais Myrrha está habituada a lidar com escalas monumentais, vide a sua instalação na 32ª Bienal de São Paulo, Dois Pesos, Duas Medidas (2016), ou o site specific para o Octógono da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Condensador de Futuros (2021).

Vista de Contraplano (2026), de Lais Myrrha. Foto: Ícaro Moreno/ Inhotim

Não se trata de escalar o tamanho das obras por desejo de monumentalizar, mas sim de impactar o espectador fisicamente, abarcando uma experiência que é do corpo e não apenas do olho. O oposto da violência de fazer despencar vigas do céu para ficarem perenemente fincadas na terra, zombando da natureza ao redor, como a sugerir que a vontade humana impera sobre o resto dos seres viventes. Chris Burden ficou datado, assim como a macho art em geral. O antimonumento de Lais Myrrha se integra à paisagem de forma sublime. E, com delicadeza, aponta ainda na montanha lá adiante, emoldurada pela obra, uma cava de mineração que desbastou o topo do morro. “Fica a dica para quem um dia quiser reflorestar a montanha”, comenta a artista. 

Juntamente com a obra de Lais Myrrha, foram inauguradas duas exposições no Inhotim: uma mostra panorâmica de Dalton Paula e uma instalação imersiva de davi de jesus do nascimento.

Lais Myrrha na inuração de Contraplano (2026). Foto: Marcela Christo/ Inhotim
CHRIS BURDEN FICOU DATADO, ASSIM COMO A MACHO ART EM GERAL. O ANTIMONUMENTO DE LAIS MYRRHA SE INTEGRA À PAISAGEM DE FORMA SUBLIME
Vista de Contraplano (2026), de Lais Myrrha. Foto: Ícaro Moreno/ Inhotim

SERVIÇO

Dalton Paula, na Galeria Mata (G1), Lais Myrrha, Contraplano (A33), e davi de jesus do nascimento, na Galeria Nascente (G14)
Instituto Inhotim, Brumadinho (MG)


A jornalista viajou a Belo Horizonte e Brumadinho a convite do Inhotim.