icon-plus
Roda de Conversa durante Me Empresta ø Dragãø, colaboração entre o artista Mulambö e a marca .PØRMENØR, em abril de 2024 na Lado B [Foto: Drean Moraes/ cortesia Lado B]
Postado em 27/08/2024 - 7:11
LADO B, A PÓS-GALERIA
Galeria carioca pensa saúde e permanência dos artistas além da trajetória individual

Há muito que se pensar sobre a permanência. As demandas mercadológicas, como os fluxos de capital, ascendem e declinam, e tal variação serve bem a projetos econômicos. Porém, tratando-se de projetos artísticos, culturais, políticos, espirituais e históricos, projetos de vida, faz-se necessário permanecer, apesar da constante tempestade marítima à qual o mercado de arte nos submete. Criam-se novas naus, monstros em terra e alto-mar, e ouvimos sempre as mesmas pessoas a bravejar: terra à vista. Uma terra invariavelmente invadida e transformada em sítio de fantasias exploratórias. Mesmo os que “vencem” no mercado da arte vivem em constante tempestade na travessia para o “novo mundo” – a maravilha do reconhecimento, da estabilidade, da segurança. Contudo, esse espaço-momento cheio de oportunidades segue sendo delimitado e explorado por indivíduos cujas práticas não são tão distintas das coloniais.

Há alguns anos, acompanhamos a escalada do interesse público, mercadológico e cultural por artistas e obras que representam perspectivas não hegemônicas. No cenário internacional, percebe-se um movimento de transferências de grandes potências e hegemonias. A presença da China como mantenedora de discursos, ferramentas e políticas contrárias ao imperialismo estadunidense é uma realidade também na arte. Além disso, há as revoluções mobilizadas pelos movimentos negro, LGBTQIAPN+, feminista, indígena, operário e de pessoas com deficiência. No entanto, a tais movimentos não são facilitadas condições para que, sozinhos, alcancem os altos postos, seja no sistema da arte ou em qualquer outro. Os avanços nas artes visuais estão geralmente submetidos às demandas mercadológicas, que, ao sabor dos ventos e das tendências, tende a conferir a alguns movimentos mais destaque que outros.

O Pavilhão Hãhãwpuá, na 60ª Bienal de Veneza, por exemplo, dá especial destaque à arte indígena. A partir disso, inúmeras ações são promovidas, exposições são financiadas e artistas são convidados. No entanto, tal destaque não parte apenas de demandas do campo da arte, mas é também fruto de contingências sociais, culturais e, sobretudo, econômicas.

“O regime neoliberal, fiel à sua economia extrativista, promoveu uma política do visual e da experiência estética que, expondo o reconhecimento do erro e do crime pelo Estado, vem explorando um novo filão: a representação ‘positiva’ dos/as negros/as e racializados/as”, afirma a autora Françoise Vergès no epílogo do livro Decolonizar o Museu – Programa de Desordem Absoluta. Após explorar tal filão, o liberalismo vai explorar a arte indígena e, depois disso, alguma outra.

A questão que se coloca pertinente agora é: como permanecer além e apesar da demanda mercadológica, o bel-prazer de um Sistema-Circo? Como fornecer segurança, garantir a saúde, promover permanências de artistas negros, periféricos, indígenas, com deficiência, mulheres e LGBTQIAPN+?

Não podemos nos iludir de que inexistam possibilidades de resposta a essa questão. São infinitas as iniciativas que, mesmo desassistidas, seguem bem-sucedidas.

RESPOSTAS AO SISTEMA-CIRCO
Um exemplo entre tais iniciativas é a Galeria Lado B, localizada no Centro do Rio de Janeiro, que desempenha um papel fundamental para que artistas das periferias da capital fluminense possam exercitar encontros, diálogos, práticas e construções que vão para além da venda. O espaço é literalmente o lado B de uma galeria, pois funciona como um centro cultural que realiza shows, desfiles de moda, exposições de artes visuais, residências, rodas de conversa e demais atividades que promovam saúde, pertencimento, prazer, alegria, reflexão e respeito às perspectivas periféricas.

Formada por Drean Moraes, Vinicius Nobre e Osvaldo Eugênio, a Lado B surgiu em 2022, inicialmente como um espaço para arte no meio digital em razão da maior acessibilidade da sua produção. Afinal, nas palavras de Osvaldo Eugênio, diretor de tecnologia e inovação do espaço, para pintar uma tela podem ser necessárias centenas de reais, mas a arte produzida com o celular apresenta possibilidades mais acessíveis.

O artista e filósofo carioca Celo Moreira, em sua primeira individual realizada na Lado B, em 2024, também provoca uma contundente elaboração sobre a posição que a arte ocupa no imaginário das pessoas. As obras apresentadas, a presença de fantasias para serem vestidas e, sobretudo, o texto de apresentação da exposição escrito à mão pelo próprio artista apresentam uma espécie de mapa mental forjado com imagens capazes de simbolizar noções fortemente presentes nas contradições da Cidade-Maravilhosa, Império-Irreal, Belo-Acidente-Geográfico-e-Grave-Desastre-Civilizatório que é o Rio de Janeiro.

No texto, Moreira afirma que “o exercício de observação (um dos principais fundamentos para se obter uma resposta racional ou irracional de determinada obra) pode ser uma das sentenças mais cruéis para o espectador, seja ele um operador de cargas pesadas, um crítico de arte ou um vagabundo. A prática de pensar em arte dentro do contexto carioca pode soar pedante e arrogante, visto que estamos postos num emaranhado cru e intragável dos imediatismos funcionais de uma sociedade exaurida e anestesiada pela ordem do senso comum”.

As obras de Moreira fazem referência ao que a academia denominou “memética”. A lógica dos memes se faz muito presente em seu trabalho. São imagens cujas técnica e composição, bem como o teor narrativo, levam a uma comunicação direta acerca de questões comuns a determinados grupos. Por meio de certa ironia e comicidade, sua dimensão memética se revela na síntese das narrativas, na construção de imagens cuja camada visual superficial pode ser amplamente compreendida por qualquer um. Mas sua camada discursiva talvez mais bem compreendida por quem partilha das mesmas referências, memórias, vivências.

Modelos Thainara Matias e Emanuel Lima exibem peças na Me Empresta ø Dragãø, com direção criativa de Bernardo Cordeiro e Mulambö [Foto: Pepe Rodrigues/ cortesia Lado B]
AGIR COMO TERREIRO
Muito além de atender às expectativas do Sistema-Mercado, artistas negros, periféricos, indígenas e LGBTQIAPN+ precisam ter oportunidades para consolidar ou iniciar suas pesquisas, expandir suas práticas, discutir e refletir em conjunto sobre a forma como querem que seus corpos e suas obras transitem pelo Sistema-Circo, trocar informações e experimentar. É uma questão de saúde.

Para isso, faz-se necessário que um espaço possibilite sentimentos de pertença, conforto e segurança. Além de unir diferentes manifestações artísticas, artistas, agentes e trabalhadores das culturas periféricas fluminenses, a Lado B foca não apenas na representação dos/das artistas, mas na criação de um espaço de desenvolvimento, proposições e realizações. Para tanto, sem contar apenas com a representação, os/as gestores/as da instituição precisam hackear o sistema financeiro, aceitando projetos enquanto indivíduos para reverter recursos, visibilidade e apoios para um objetivo coletivo. Ou seja, é necessário sair da lógica individualista e promover uma nova política. Embora conte com o suporte de uma marca de cerveja que disponibiliza produtos e apoia o essencial para a manutenção do espaço físico, a Lado B precisa de outros investimentos para realizar o que se propõe. A ausência de participação e apoio de políticas públicas não é uma novidade. As condições reafirmam que é necessário agir como um terreiro.

É preciso permitir que artistas negros não se preocupem apenas em atender às demandas do sistema financeiro, que pouco a pouco ferem sua subjetividade – porque determinam o que deve ser produzido, cerceando a criatividade em favor das tempestades do mercado. Esse é o modo de agir de um terreiro. Não permitir que o sistema abale a saúde física, espiritual, mental e criativa dos artistas negros é um movimento em prol da saúde.