A décima celeste começa há um ano atrás, em agosto de 2025, durante a 2ª Bienal das Amazônias, quando me demoro diante das pinturas de Joseca Yanomami, ouvindo-o falar sobre o que está por trás – ou em algum lugar além da superfície – das suas imagens desenhadas no papel. Em língua yanomami, com tradução simultânea de Daniel Jabra, seu amigo e studio manager, ele lê para mim as imagens. Ele diz muitas coisas, assim como os títulos de seus trabalhos se prolongam em frases ou parágrafos, contando histórias. Guardo uma coisa que ele diz: quando dormimos profundamente, nossas imagens alcançam lugares distantes. Na resenha da exposição, em meu retorno a São Paulo, escrevo que talvez a experiência de estar diante de obra de arte nos leve a lugares quase tão distantes quanto aqueles que alcançamos quando dormimos bem.
Mas em que imagens nos convertemos quando dormimos? O que acontece quando a imagem deixa de ser representação e passa a ser realidade? Essas perguntas, reincidentes em conversas com Daniel Jabra desde que nos encontramos em Belém, determinam o campo de investigação desta edição. Convido-o a continuar convertendo imagens em palavras. Seu ensaio “Tornar-se imagem” expressa a radicalidade da contribuição do pensamento yanomami para uma reflexão sobre a imagem. Ao escrever sobre a arte de matriz iorubá e o fato de que um orixá nunca pode ser representado, o artista e babalorixá Vieira de Xangô também amplia o campo semântico da palavra para além da visualidade e fala de espaços que não podem ser visibilizados. Com ambos os ensaios, damos os primeiros passos na exploração de uma imagem que não se atém ao mundo retiniano. E fechamos a edição com a nova coluna IMAGEM, assinada pela diretora de arte Nina Lins.
Outra ampliação de campo desta celeste #10 (a segunda edição do ano do nosso 15º aniversário) é a criação do Círculo celeste de Amigos. Uma modalidade de apoio que possibilita à revista exercer seu papel de produção de conhecimento, memória, documentação, análise e reflexão crítica sobre a arte contemporânea brasileira. Com a visão e a parceria desse importante grupo de galeristas, colecionadores e integrantes da cadeia produtiva das artes que valorizam a cobertura jornalística de qualidade, você, querido leitor, tem em mãos uma revista – que é também o retrato e a leitura da programação dos circuitos da arte – com 40 páginas de resenhas críticas e outras 40 páginas ensaísticas. Conheça, na página 8, quem faz o Círculo girar. E seja feliz por poder ler imagens em uma revista de arte.
