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A crítica e pesquisadora Eliane Robert Moraes em sua biblioteca (Foto: Paulo D'Alessandro)
Postado em 03/08/2026 - 7:12
Libertina
A maior especialista em erótica literária do país, Eliane Robert Moraes prepara três novos livros e segue inquieta com o maior patrimônio da pornografia: a liberdade de pensamento

Eliane Robert Moraes é a maior pornógrafa do Brasil. São mais de 40 anos de serviços prestados aos estudos da safadeza. O Que É Pornografia, seu primeiro livro, em co-autoria com Sandra Lapeiz, foi publicado pela Brasiliense em 1984 e já mostrou o cartão de visitas:uma abordagem com objetividade e classe, sem perder de vista a erudição, desses assuntos complicadinhos. O trânsito entre baixo e alto, comunicação ampla e saber enciclopédico tornou-se marca registrada. Ela circula de revistas científicas a jornais e feiras literárias, foi professora de filosofia e jornalismo na PUC-SP e traduziu Marquês de Sade e Georges Bataille. Sua obra se estende com a edição da Antologia da Poesia Erótica Brasileira (Ateliê Editorial), resultado de dez anos de pesquisa, a dupla de volumes O Corpo Desvelado, Antologia de Contos Eróticos Brasileiros (1852-2022), e o recente volume ensaístico A Parte Maldita Brasileira (Tinta-da-china). E três novos livros estão a caminho. Em uma longa conversa em sua casa, em Perdizes, recheada de obras de arte – e de mais livros de putaria que você conseguiria imaginar –, a professora de literatura brasileira de 74 anos, prestes a se aposentar da USP, mas ainda com muita energia e libido, revela as dores e delícias de estudar a erótica literária sem perder de vista seu maior patrimônio – a liberdade total de imaginação. Chamada de Nani pelos amigos, casada com o poeta e editor Fernando Paixão, a pornógrafa é puro amor: generosa e divertida, fala sobre os temas mais devassos com muita elegância, vagar e um enorme sorriso nos lábios – como quem já viu de tudo nesta vida.

Detalhe da biblioteca pessoal de Eliane Robert Moraes (Foto: Paulo D’Alessandro)

 

CELESTE: Você e o Reinaldo Moraes moram na mesma rua. Deviam rebatizar para Alameda dos Imoraes…
ELIANE ROBERT MORAES: [Risos] Acho que a gente se conheceu em 2010, naquele Festival da Mantiqueira. Ele já tinha publicado Pornopopeia. Foi superlegal, tinha uma simpatia por ele e a gente descobriu que tem mil amigos comuns. Na mesa eu pensava: “Será que vai dar certo? Ele é um pornógrafo, eu, uma professora, vai me achar careta”, e ele por sua vez “Vou falar bobagem”. Mas em dez minutos já tinha virado amigo. Fizemos inúmeras coisas juntos, e agora a gente mora na mesma rua. Nos encontramos na feira toda quarta, a gente vive marcando encontrinhos. Ele é muito engraçado, uma figura única. A generosidade, o encanto, é uma máquina de imaginação literária. Tudo o que ele toca vira criação. Outro dia pensei: “Tenho que guardar todos os recados de zap com o Reinaldo, porque qualquer recadinho que ele manda vira uma criação maravilhosa”. Tem um ouvido para a bobagem, né? 

CELESTE: Uma vez eu trabalhava numa revista chamada Alfa e pedi pra ele um texto sobre a Flip, um texto curto, pra caber em duas páginas, coisa de 8 mil caracteres. Aí ele manda um texto de 70 mil caracteres, maravilhoso, incortável. Escrevi pedindo pra ele mesmo baixar pra uns 20 mil. Aí ele me manda um e-mail no dia seguinte que começava assim: “Encontro-me em um dilema”. Ponto. O e-mail continuava “Na verdade, não me encontro num dilema, mas me encontro em uma poltrona de veludo vermelho burgundy, de onde vejo o Atlântico” et cetera, e só o e-mail se estendia por quatro páginas, pra no final dizer “não vou cortar porra nenhuma, se vire”.
ERM: [Risos] Também tive essa experiência numa antologia que eu organizei do conto erótico brasileiro, em que pedi: “Faz alguma coisa para mim”. Aí ele mandou um conto sensacional, só que imenso. Acabou entrando um fragmento do Pornopopeia. Estou curiosa sobre o novo livro dele.

CELESTE: Me ocorre agora que uma das coisas no subtítulo do seu livro é a palavra excesso, e o Reinaldo é excessivo, talvez seja o nosso autor contemporâneo mais barroco. O excesso seria barroquismo? Pensando que a literatura brasileira teria começado com Gregório de Matos, o excesso seria uma marca do erotismo brasileiro ou da própria literatura brasileira?
ERM: É. Você está falando do excesso do ponto de vista formal. O barroquismo, o exagero e a hipérbole são figuras da forma. Mas penso o excesso do erotismo mais no conteúdo. A erótica se assenta em diversas disposições formais, que podem ser desde um haikai, a trilogia do Henry Miller, até a Julieta de Sade… os grandes romances eróticos têm 900 páginas. Ou seja, até os minimalistas tratam do excesso. A erótica literária não tem uma única forma. Penso no excesso como paradigma de uma burla. Há excesso quando um determinado paradigma é burlado, deslocado, sai do lugar. Hilda Hilst é um caso interessante, porque é muito obscena, mas seus livros efetivamente pornográficos são pequenas novelas. A trilogia pornográfica, O Caderno Rosa de Lory Lamb… o excesso ali não é de páginas, e mesmo em textos pequenos ela dá a impressão de uma explosão tão grande. O Roland Barthes fala uma coisa que adoro sobre excesso. Ao analisar uma novela de André Gide, La Sequestrée de Poitiers, escrita a partir de uma história real que rolou na França, uma mulher que foi trancada no quarto pela família a vida inteira, décadas, aí os vizinhos não aguentam o cheiro que sai dessa casa e chamam a polícia, e o Gide ao descrever aquilo tem um excesso quantitativo, comida podre, dejetos, fios de cabelos… Mas não é aí que Barthes encontra o excesso. Os policiais chegam e o cheiro é tão ruim que o comissário de polícia diz aos ajudantes: “Todo mundo pode fumar aqui dentro”. Aqui é que tem o excesso: é proibido um policial fumar em trabalho, mas aquele ambiente é tão fora da casinha que nesse momento o comissário de polícia libera o cigarro. Isto é, o excesso é aquilo que justamente rompe com o paradigma, com a norma dada. O excesso é uma transgressão de certa convenção ou de um conjunto de regras. Essa operação transgressiva pulsa o tempo inteiro na erótica literária. O erótico por si só já está fora de lugar. 

CELESTE: Na orelha da Amara Moira para o seu A Parte Maldita Brasileira, ela diz que vivemos uma época em que aprendemos que o sexo não é fonte de prazer, e sim ameaça à integridade psicológica e física, que a literatura é vista com desconfiança quando explora os tabus da existência e que as aproximações entre literatura e erotismo ou pornografia precisam passar por leituras sensíveis e alertas de gatilho para não ferir suscetibilidades… O que acha disso?
ERM: Moira é uma interlocutora muito amiga, uma pessoa com quem converso muito e acompanho há tempos. A gente tem uma longa amizade. O ano que passou escrevi um texto sobre o livro dela, o Neca. Não dá para dizer que hoje o erotismo é mais reprimido na literatura do que antes. É só ver quão longe foi o Reinaldão. Nos anos 1970/80, a repressão era muito mais forte, era muito mais difícil um autor que escrevia textos eróticos publicar. Mas o paradoxo que a gente vive hoje é que há também um olhar muito cerceador do erotismo. A literatura é contaminada por um olhar de denúncia muito forte. Mesmo se você pegar um romance como o Pornopopeia, de 2008, com aquelas cenas com um macho em ação, seria muito criticado hoje. Hoje há um olho crítico para denúncias que são superprocedentes no campo social, mas que na arte não procedem. Para uma pessoa que trabalha com erotismo, se o erotismo é fantasia, se você diz “isso não pode”, você está usando de censura. Acho que a Amara está pegando isso aí, e gostei quando escreveu isso, porque é uma militante LGBTQIA+, das putas etc., e que também tem esse entendimento de que existe um olhar de censura, de cancelamento, dizer “essa cena não pode”, sobre cenas mais violentas. Outra questão é o casamento entre violência e erotismo, uma situação complexa. Um exemplo que não cessa de pulsar em todos os lugares onde eu vou é O Caderno Rosa de Lori Lamby, um livro de 1990. Ou seja, tem 35 anos, Lori já é uma senhora de 40 e tantos. Todas as vezes que vou falar de Lori alguém fala: “Mas é um livro pedófilo, a Hilda defende a pedofilia”. Quando a Josélia Aguiar foi curadora da Flip na época em que a Hilda foi homenageada, uma professora universitária escreveu que a Flip defende a pedofilia. É chocante. Você tem que burlar paradigmas, abrir o excesso que tem na sua cabeça para entender aquela menininha de 8 anos transando com aqueles tios e adorando, achando ótimo ganhar um dinheirinho e tudo. É por isso que o livro é completamente perturbador. Esse grau de incômodo está muito em xeque para personagens masculinos e autores homens héteros. Sempre falo com as minhas alunas: “Se um homem tivesse escrito O Caderno Rosa, teria sido massacrado. Se um professor for elogiar esse livro, pode ser cancelado. Vocês só gostam de mim porque eu sou mulher”. E a Hilda é aquela potência. Uma mulher falando ainda tem autorização. A Amara está pegando nisso, sabe? A questão que me interessa muito: a liberdade.

CELESTE: Esses dias lembrei de uma cena de Sob o Domínio do Medo, do Sam Peckinpah. O Dustin Hoffman é um professor de matemática meio bunda-mole que se casou com a Susan George, uma inglesa que é demais pro caminhãozinho dele. Quando vão passar férias na cidade em que ela vivia, são cercados por um bando de marginais. Há uma cena de estupro muito controversa, em que Susan parece demonstrar prazer, não sabemos se real ou se encenado. Tenho a impressão de que esta cena não seria filmada hoje…
ERM: Do mesmo modo, você lê Sade, a história da Julieta. De repente, ela vai o Clube dos Amigos do Crime, onde se organiza uma orgia com 400 pessoas… Por falar em excesso, né [risos]. É algo impossível de acontecer. Sade coloca em cena os libertinos dos 120 Dias de Sodoma sendo capazes de tomar 50 garrafas de vinho antes de um mergulho. Complicado. Ele não está falando que aquilo pode acontecer. Está falando do excesso. É impossível acontecer, mas não é impossível de ser imaginado. Como se você pegasse um fio e fosse puxando: “Quando chegar aqui arrebenta”, mas, nesse caso, não, você continua indo, puxa mais um pouco. Se há algo que não acho que seja realista na literatura é a erótica literária. Quando fica realista demais, não é erotismo. Atualmente tem livros muito legais, inclusive, que tratam do tema do estupro, como Vista Chinesa, da Tatiana Salem Levy, mas não é exatamente um livro erótico. A cena que você cita, de Peckinpah, vai nessa complicação: olhar para uma coisa proibida. Você faz o que com aquela personagem? A Clarice Lispector tem um conto muito esperto chamado “Preciosidade”, em que uma moça se inicia na rua, dois caras vêm, dão uma currada nela e tal… Lembrando da Mara, ela me contou: “Nós, transexuais e homossexuais, uns 90 e tantos por cento foram iniciados com abuso”. Entendeu? Isso significa que algo aconteceu com seu erotismo também aí. Houve alguma fruição. E é essa matéria que acho muito difícil abordar pela arte, por que podem chegar as militâncias: “Você gosta dessa cena? Então você é a favor do estupro”. Obviamente, não sou a favor. Mas a matéria erótica é obscura por excelência. Quando vejo muita denúncia e censura, isso pressupõe um erotismo lindinho, bonzinho… 

Detalhe da biblioteca pessoal de Eliane Robert Moraes (Foto: Paulo D’Alessandro)

CELESTE: Glauco Mattoso também conta que o erotismo dele surgiu ao ser vítima de bullying e de violência na escola…
ERM: Pois é, como contar esse tipo de coisa sem querer dizer que você está defendendo o estupro, o bullying, o abuso? Parece que agora as militâncias ficaram cerceando a liberdade artística, a imaginação. Você pode imaginar coisas extremas, como uma criança de 8 anos ter prazer com homens de 40, como Hilda fez. Isso é uma ficção, mas, sim, existem coisas que acontecem. Cansei de assinar petições e dar palestras contra a pornografia infantil, o assédio e a exposição de crianças etc. Mas estamos falando dentro do mundo das coisas que acontecem, e aí acredito piamente na questão da autorização. Já no erotismo a gente está no mundo das coisas que não acontecem. E ele é perigoso. É um campo de sensações incríveis e de perigos incríveis também. Qual é a linha que separa uma coisa da outra? Cada um de nós tem um pouco dessa noção do próprio corpo, tipo se eu tenho mais tesão em ser amarrada ou menos ou em fazer isso ou aquilo. Mas a literatura é um espaço em que a gente pensa a liberdade solta. E talvez seja a partir dessa liberdade absoluta que se lê em livros de erótica literária que a gente vai construir nossa liberdade, um manual do que fazer, um manual de boas maneiras. Que não vai ser exatamente aquele da civilidade do Pierre Loüys, né [risos]? Então a gente não faz um elogio da violência, do estupro, nada disso, mas é importante pensar efetivamente o que é a liberdade. 

CELESTE: Tem aquela definição liberal clássica, “a liberdade de cada um termina onde começa a liberdade do outro”. Mas até onde você não deve influir no desejo do outro? Lembrei de outra frase, atribuída a Sade, mas acho que é da Madonna mesmo, está na canção Justify My Love: “Pobre do homem cujos desejos dependem da permissão de outro”. A Madonna sempre foi uma grande transgressora…
ERM: A frase pode não ser do Sade, mas a atribuição faz sentido, porque é justamente um autor que vai dizer: nascemos sozinhos, estamos no mundo sozinhos, então é nosso direito – em uma espécie de egoísmo constitutivo e radical – achar que o outro não tem o menor interesse a não ser enquanto objeto. Pensando numa resposta para “até onde vai a liberdade?”, Sade nos lembra dessa possibilidade impossível de ter o que não existe, fazer e dizer tudo, uma espécie de nostalgia do poder que temos dentro da gente, um desejo do absoluto que não é realizável. Mas essa vontade de absoluto está na origem de todos os nossos desejos. Tem uma autora que gosto muito, Annie Le Brun, estudiosa de Sade, que diz: “Todo desejo tem algo de criminalidade”. Acho isso superlegal. É tão simples, começa nessa formulação: “Eu quero”. Uma vez fui passear com umas crianças de amigos, levar pra comprar brinquedo, e pra toda vitrine duas menininhas apontavam e falavam: “Eu quero, eu quero, eu quero!”. 

CELESTE: Outra questão é: com tanta acessibilidade ao sexo, como nunca houve na história do mundo, como é que você vai criar ideias de transgressões e limites e restrições num ambiente em que tudo parece realmente permitido, liberado e até estimulado?
ERM: Paradoxalmente, o excesso de estímulo também pode levar a uma… censura pelo excesso. Você está lendo o jornal e aqui tem um mapa dos 400 lugares onde você pode fazer sexo em público no Rio de Janeiro e tem também o depoimento de alguém que transou com cinco homens consecutivamente no mesmo dia… Fico pensando se isso não funciona também como antídoto. Às vezes, ao ver essas coisas com muita pornografia me lembro de um negócio que eu não gosto muito, que é praça de alimentação [risos], o centro dos shoppings onde supostamente você encontraria tudo, você então saciaria todos os seus desejos naquele lugar. Tenho absoluta certeza que o nosso paladar tem o desejo de comer uma coisa um pouco diferente, exótica ou gostosinha, e a praça de alimentação acaba por embotar o paladar. Esse excesso de ofertas, que não é o excesso no sentido que coloquei lá atrás, acaba censurando a possibilidade de você reconhecer uma particularidade do seu desejo, aquilo que você realmente quer comer, seja sexualmente, seja gastronomicamente. No 120 Dias de Sodoma, aquela loucura, aquela vertigem, o Sade apresenta: “Isto aqui é um banquete com 600 pratos. Vai comê-los todos? Claro que não. Escolha aquele que mais te agradar. E deixe o resto, porque aquele resto pode agradar a outra pessoa”. Essa é a busca da singularidade que caracteriza o desejo. Querer não é querer tudo: é aquilo que você quer. Ter o oferecimento de tudo não me parece uma figura da liberdade, assim como a praça de alimentação está longe de ser uma expressão de liberdade gastronômica. 

CELESTE: O desejo tem a ver com a escassez, a carência, a falta, não? Drummond diz “a falta que ama”… Falando de limites, vou ser obrigado a formular a famosa pergunta idiota, que você já deve ter escutado: qual é a diferença entre erotismo e pornografia?
ERM: Essas categorias estão sempre sendo redefinidas. Estou sempre pensando um pouco mais no campo da arte, da literatura. Existe o senso comum, ainda em vigor, que o erotismo é uma coisa velada, em que você não mostra tudo, exige véus. Já a pornografia é o escracho, mostra tudo, perna aberta, exposição de genitais. Acho isso uma bobagem, porque, se você ler os grandes autores eróticos, eles não seguem de jeito nenhum essa delimitação de terreno. Pega um autor como Henry Miller, que usa mil palavrões em um texto erótico e em outro pode não usar nenhum, e ambos podem ser muito eróticos ou até o contrário. Esse senso comum do esconde ou do não esconde, isso é erotismo, isso é pornografia, não faz sentido, porque são termos às vezes quase sinônimos. Freud falava um negócio esperto nesse sentido. Dizia que não gostava da palavra erotismo, porque tinha medo que o termo escondesse o que era verdadeiramente o sexo. Outro que não gostava nada da palavrinha era o Mário de Andrade. Ele só usa a palavra pornografia. Esse senso comum do erotismo é ideológico, “tem que esconder, não pode mostrar”. Se é erotismo ou não, depende da forma como você esconde ou da forma como você mostra. Isso não é uma regra. Vejo também que se usa pornografia para imagens de sexo que são muito comerciais. Essa distinção no fundo é moralista. Em Lolita, por exemplo, não tem um único palavrão. E é tão erótico. E tem livros e poemas eróticos cheios de palavrões. Por exemplo, no Gregório de Matos, às vezes aquela coisa está cheia de palavras obscenas, só que aquilo tudo tem sentido político, ele está sacaneando a reputação de alguém. Me ocorre também que a palavra erotismo, quando é vinculada a um filme, por exemplo, “o filme tem cenas de erotismo”, vai a um campo semântico que você aproxima do bom gosto. E o pornográfico seria de mau gosto. Isso é político, moralista, puritano. O que é bom gosto? O burguês arrumadinho? Então, o sujo seria de mau gosto? Mário fala muito isso, “brasileiro adora falar porcaria”, acho genial. As línguas sexuais são sujas. A Neca da Amara Moira é cheia de palavras sujas, porque está mexendo com a língua sexual. E se a gente ficar cheia de nojos com essa sujeira, se revela que tem nojo do sexo. Você pratica, mas tem nojo ao mesmo tempo? Nesse sentido, o erótico seria asséptico. As palavras vão sendo deslocadas de acordo com seus contextos, né? 

CELESTE: Então a palavra pornografia vai sendo deslocada para o campo do obsceno, o que estaria fora da cena, mostrando aquilo que não poderia, não deveria ser mostrado…
ERM: A palavra pornografia originalmente, no mundo antigo, queria dizer “representações sobre prostitutas”. É um termo ligado ao universo da prostituição. Ou seja, a prostituta é aquela que exibe, que vende. Então é um termo interessante, porque mantém o notável poder de ir ressuscitando ao longo de toda a história. 

Detalhe da biblioteca pessoal de Eliane Robert Moraes (Foto: Paulo D'Alessandro)
Detalhe da biblioteca pessoal de Eliane Robert Moraes (Foto: Paulo D’Alessandro)

CELESTE: Já que estamos falando da história da pornografia, queria saber como é que você se tornou uma das grandes especialistas brasileiras no assunto…
ERM: Fui pesquisar erotismo e pornografia bastante jovem, nos anos 1970, muito motivada pelo feminismo. Tudo a ver com a contracultura, com essa época de libertação sexual. Sou dessa geração. Fui me interessando sobre o imaginário erótico. A gente não pensava em estudos de gênero, mas a coisa no feminismo estava colocada. Fiz ciências sociais, me interessava muito por antropologia. E quem me desviou dessa coisa foi justamente o Marquês de Sade. Escrevi no início dos anos 1980 um daqueles livrinhos da coleção Primeiros Passos, da Editora Brasiliense, O Que É Pornografia. A escrita desse livro me levou a ler esse cara. Quando entrei ali, pirei, falei: “Como é possível alguém escrever isso”? A capacidade que um texto tem de perturbar! Eu entrei pela grande porta, Os 120 Dias de Sodoma. Uma verdadeira loucura. E isso bateu mais ou menos com o final da graduação, já tinha escrito O Que É Pornografia e queria fazer mestrado. Aí fui para a filosofia, com o Renato Janine Ribeiro. Passei anos estudando Sade. Ele me abriu a porta para não trabalhar só literatura francesa, então mexi também com os surrealistas, depois fui para o século 19, aí entrei nesse universo. Fui fazer doutorado e escrevi esse livro chamado Corpo Impossível, que pega o imaginário do modernismo francês, muito Bataille, que me interessei em traduzir. Fiquei muito tempo mexendo com isso e me interessando por esse campo da erótica, é um universo ilimitado. Quem me trouxe para o Brasil foi a Hilda Hilst. Quando ela lançou O Caderno Rosa de Lory Lamby, em 1990, o Humberto Werneck trabalhava no Jornal do Brasil e me pediu uma resenha: “Ela escreveu um livro pornográfico que ninguém quer resenhar”, todos os críticos caíam de pau em cima dela. Foi superlegal, porque, quando publiquei a resenha, ela me telefonou. A gente se gostou muito. Marcamos um encontro, falamos muito sobre pornografia. Ela tava com 60 anos. 

CELESTE: Ela já tinha escrito os outros livros pornográficos, mas quando escreve Lory Lamby é justamente porque se considerava no ostracismo, né?
ERM: Não acredito nisso. Ela mentia sobre esse ostracismo. Ela escreveu aquele livro porque ela estava a fim, pronto. Dizia “Quero ganhar dinheiro, ninguém lê minha literatura, então por isso que eu escrevi pornografia”. Mas ela gostava tanto de pornografia! Como diz o Alcir Pécora, que era amigo dela, a pornografia da Hilda é pra tarado por literatura. Quem que vai entender aquilo? Ele tem toda a razão. Nessa época me aproximei também do José Paulo Paes, que publicou aquele volume Poesia Erótica em Tradução, ele também me estimulava muito a ler literatura brasileira. Aí comecei a ter essa ideia de fazer uma antologia da poesia erótica brasileira, que me deu um baita trabalho mesmo, porque nunca ninguém tinha feito isso, foi um negócio de coletar, pesquisar. E quando entrei no Brasil, descobri o Mário, com o negócio da porcaria, uma riqueza incrível. Uma coisa interessante é que erotismo e pornografia não são questões de gênero. São atravessados, mas são campos de domínios próprios. Conseguem ser uma lente que você usa para ler outras coisas. Um amigo da USP falou: “Tem uns poemas do Castro Alves que conheço tão bem, mas nunca percebi que eram pornográficos”. E atualmente estou preparando um livro para a Editora Autêntica que é uma espécie de coletânea de textos, digamos, mais teóricos sobre pornografia e erotismo, textos de alcance internacional. É o tipo de livro que não tem no Brasil. Depois quero fazer uma antologia só com textos brasileiros. E também estou escrevendo outro livro que vai para a Antiguidade. Nem é para este ano. 

CELESTE: Você lê pornografia contemporânea?
ERM: Sim, costumo dizer que não sou pornográfica 24 horas por dia, só 23 [risos]. Tenho um absoluto encantamento pela erótica literária, então vou pulando de uma literatura para outra, francês, espanhol, americano, russo, esse negócio de erotismo faz a gente pular de galho em galho. 

CELESTE: Para manejar essas literaturas, você se apoia em correntes críticas, teorias específicas? Não tem como não falar da psicanálise, tendo Bataille tão próximo de Lacan, né? Nos surrealistas tem essa conexão direta com Freud…
ERM: Mas não sou tão controlada pela psicanálise porque, como trabalho bastante a ideia de fantasia – e essas teorias sempre dão uma capa, um colete para a fantasia –, eu considero Sade o fundador da erótica moderna. É um autor do século 18, morre no início do 19, mas é completamente clandestino. Então Sade vai aparecer no mesmo momento que é publicada A Interpretação dos Sonhos. São os dois grandes autores que vão colocar o sexo no centro da experiência humana. Agora, tenho uma particularidade que é de não fazer uma demarcação entre teoria e literatura. Para mim, um livro como Lolita é Nabokov pensando o que é o sexo, o que é o desejo. Deve ser por ter um pé forte na filosofia. Por isso, nesse livro que estou organizando, tomo cuidado com a palavra teoria, prefiro pensar que são pensamentos sobre o erotismo. Bataille é muito importante na minha formação. Ele está o tempo todo interessado em pensar o erotismo. Daí traduzir A História do Olho… 

CELESTE: Já tive duas edições desse livro que me roubaram…
ERM: Esse é um livro que se roubava bastante na Biblioteca Nacional da França, né? O próprio Bataille conta nas memórias dele que também roubou Justine, Juliette… 

CELESTE: Com essa sua pesquisa do erotismo nacional, você chegou a perceber por que os brasileiros usam tanto o humor?
ERM: De fato, não temos uma erótica trágica. Quando organizei as antologias, tanto de conto como da poesia, percebi que o temperamento forte é o humor. A gente chora de rir com coisas seriíssimas. Essa vertente do burlesco, do humor, da coisa mais desbragada, é sensacional. 

Detalhe da biblioteca pessoal de Eliane Robert Moraes (Foto: Paulo D’Alessandro)

CELESTE: Será um traço da literatura portuguesa?
ERM: Só se for a antiga, porque Portugal encaretou muito no mundo moderno. Por incrível que pareça, os portugueses são sérios, circunspectos. Mas no Brasil não tem erótica trágica. Talvez só a própria Hilda, que tem poemas mais densos. Também nunca tivemos uma erótica mística, como os espanhóis, os franceses. Mas na linha humorística somos muito bons, essa aposta nossa é muito legal. Agora a gente vai fazer um livraço com esses textos sobre erotismo, porque também é partilhar o meu mundo, as coisas que penso. Cumpre um papel de preencher um vazio. Porque não se fala sobre o assunto. E hoje a teoria está aprisionada pela questão do gênero. 

CELESTE: Essas etiquetas acabam limitando as leituras, né? É uma coisa complicada você circunscrever a literatura erótica, do mesmo modo como dizer literatura de autoria negra, de autoria gay, de autoria feminina. Mesmo o Reinaldo, que é um cara que narra muito o sexo, mas não é só isso, ele está abordando o sujeito contemporâneo na cidade. É um dos primeiros escritores a falar da figura do freelancer, o homem que trabalha sozinho, triturado por forças do trabalho que o expulsaram. Esse tema por si só já o tiraria totalmente de ser lido apenas no contexto do erotismo…
ERM: Falando em Reinaldo, o título do livro vai ser Erótica Teórica. Porque um dia, no celular, chegou uma mensagem dele para mim, “Nane, você já percebeu que erótica e teórica são anagramas?” 

CELESTE: Que mais você tem observado na literatura contemporânea?
ERM: Estou atualizando a antologia de poesia. Talvez a gente faça mais um volume, porque essa antologia vai praticamente até o fim do século 20. Nesses 25 anos, na poesia, sobretudo, apareceu muita coisa. Tem um montão de gente legal. Hoje, eu estava trocando e-mails com a Cris Judar, que gosto muito. Sou muito agradecida à universidade, por ter me apresentado tanta gente. Tô me aposentando agora, né? Vou dar um último curso, Figurações do Corpo na Literatura Brasileira de 1970 a 2020, juntamente com o Bruno Cosentino, de quem participei da banca de doutorado, orientada pelo Eucanaã Ferraz, sobre o erotismo em Vinicius de Moraes. Ele vai trabalhar com Roberto Piva, Valdo Motta, autores mais radicais do mundo gay, na pegada do erótico… quem faz pós-doutorado comigo também, que gosto muito, é a Veronica Stigger. Então, acabei virando um hub dessa literatura. Enfim, não sou de jeito nenhum crítica à questão do gênero, essa coisa do não binário, do trans, só abriu e floresceu o campo do erotismo. 

CELESTE: Só fazer uma pergunta que não tem tanto a ver com o assunto, mas é uma pergunta que sempre termino todas as entrevistas: o que é sorte?
ERM: É o acaso, né? Aquilo que não foi planejado. Uma palavra muito ambígua. A gente tem o sentido da sorte como algo positivo. Mas tem o sentido do destino também, do que acontece inesperadamente. Acho tão poético. Fazendo uma ligação com tudo que a gente conversou, fico pensando que foi a sorte que me fez entrar nesse campo. Não tem uma disciplina que se chama erotismo, um curso. Era uma coisa espalhada no mundo, na minha vida, no meu corpo. Mas se fez um caminho, organizou minha vida. Foi inesperado, nunca foi “quero ser crítica literária, trabalhar com literatura” Foi sorte no sentido positivo, que é de ter descoberto uma coisa de que gosto tanto e que me dá tanto prazer e que tanto me alegra e que acho tão desafiante pensar… Estou há décadas fazendo esse trabalho e ainda tem um montão de coisas novas, mesmo que eu esteja trabalhando com referências antigas. Então penso na sorte como uma navegação, em que que você está lá navegando e de repente encontra terra. Eu tive a sorte de descobrir um continente.

RONALDO BRESSANE é escritor, jornalista, professor de escrita, editor da revista de literatura e artes visuais Morel e autor de Escalpo (Reformatório, 2017), entre outros títulos.

Freud dizia que não gostava da palavra erotismo, porque tinha medo que o termo escondesse o que era verdadeiramente o sexo. outro que não gostava nada da palavrinha era Mário de Andrade. Ele só usa a palavra pornografia.
Detalhe da biblioteca pessoal de Eliane Robert Moraes (Foto: Paulo D'Alessandro)