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O objetivo de quem usa linguagem inclusiva é falar e escrever escolhendo palavras que demonstrem respeito a todas as pessoas, sem privilegiar umas em detrimento de outras (Foto: Octavian Dan)
Postado em 11/08/2020 - 12:18
Linguagem inclusiva: hackeando a norma padrão sexista
Autor propõe desconstrução de uso sexista e racista da língua portuguesa, como o que envolveu em polêmica o curador da Bienal de São Paulo
André Fischer

Homens podem ser feministas? Sinceramente, acho, devem. Da mesma maneira que pessoas brancas com um mínimo de consciência devem ser antirracistas.

Antes mesmo de passar à ação é preciso rever o que falamos e escrevemos evitando palavras e expressões racistas como “denegrir” ou que reforçam preconceitos raciais, como associar termos “negro” e “preto” a algo nocivo. Em polêmica recente, o uso da expressão “a coisa está preta” pelo curador da 34ª Bienal de São Paulo, Jacopo Crivelli Visconti, para justificar a escolha do título Faz Escuro Mas Eu Canto, não passou batido pela opinião pública. Embora o curador tenha emitido nota de desculpas pelo cunho racista de sua fala, o fato reforça o debate em torno do racismo estrutural não apenas na linguagem, mas nos mecanismos das instituições artísticas.

Mas se já estamos mais alertas para discursos e manifestações racistas, sequer nos damos conta do profundo machismo presente na linguagem do cotidiano. Reproduzimos hostilidades múltiplas vezes por dia, simplesmente ao falar e escrever da maneira como fomos alfabetizados. Sim, o português corrente é um instrumento de opressão e invisibilização de mulheres, pessoas trans e não-binárias.

“Assim como todas as línguas latinas,
a marcação binária de gênero é base
do português e está estável há muitos
séculos”

Muitos dos nossos valores foram estabelecidos tendo como referência um sistema patriarcal, inegavelmente construído a partir dos interesses dos homens. A comunicação e a linguagem são a tradução mais óbvia e explícita dessa realidade. Assim como todas as línguas latinas, a marcação binária de gênero é base do português, está estável há muitos séculos e praticamente todas as palavras estão no masculino ou no feminino. E é fato que o masculino escolhido para ser usado como genérico serve também para ocultar o feminino. Até a própria construção de frases e uso trivial de determinadas palavras reforça e perpetua estereótipos do que um dia foram considerados “papéis adequados” para mulheres e homens na sociedade. 

Vejamos alguns exemplos básicos
A forma como agradecemos e damos boas vindas. Poucos são os idiomas que fazem uma distinção de gênero na forma de demonstrar gratidão e a nossa forma padrão é no masculino. Em cada “obrigado” sinalizado, está implícito um homem agradecendo em nome de todas as pessoas. O “bem-vindo” está acolhendo uma pessoa do gênero masculino.

A palavra “homem” é usada correntemente para se referir a toda a humanidade. “O homem foi à lua” evidencia a intenção de que não foi uma conquista de toda humanidade.

Há vários termos em que são conferidos aspectos positivos ou superiores no masculino e negativos ou inferiores no feminino (mundano x mundana, governante x governanta).

Além do decantado masculino genérico que nos faz dizer “os políticos” e “os professores”, apagando a existência de mulheres na política e na educação. Sem contar que sempre empregamos “eles”, pronomes e advérbios no masculino como “todos”, “muitos” e “os seus” para nos referirmos a pessoas em geral.

Enfatizamos o tempo todo identidades de gênero binárias, inclusive ao usar dispensáveis artigos definidos para nos referirmos a alguém (a Paula, o André).

Uma questão de cidadania
É para desconstruir o uso sexista da língua que reforça relações assimétricas de gênero, que tem sido proposto o uso de linguagem inclusiva. O objetivo é falar e escrever sem privilegiar pessoas em detrimento de outras. A busca por substituir marcadores de gênero no discurso é um processo que explicita respeito e empatia. Assim como as técnicas de linguagem simples, que procura dar acesso universal à compreensão das informações contidas em textos, a linguagem inclusiva também é uma questão de cidadania. Ela é distinta, mas não exclui o conceito de linguagem neutra, que envida solucionar a exclusão de pessoas trans, não-binárias e gênero fluido causada pelo binarismo dos pronomes pessoais. 

Para isso, não basta usar X ou @. Na verdade, nem são recursos inclusivos pois criam problemas de leitura para deficientes visuais que utilizam programas leitores de texto, pessoas com dislexia, alfabetismo elementar, ou que não tenham sido informadas sobre o significado desse código.

Você já deve ter ouvido “amigues” e “sejam todes bem-vindes”, onde “e” aparece fazendo o papel de gênero neutro. Uma maneira simpática de saudar pessoas e fazê-las se sentirem incluídas, mas que não se sustenta nem por um parágrafo. Não existem regras previstas para pronomes, artigos e adjetivos e sequer há unanimidade entre os grupos que a advogam – alguns chamariam a terceira pessoa do singular neutra de “ile” outros de “ilu”. Ainda que faça sentido como afirmação identitária, está muito longe de ser usado em larga escala a ponto de se tornar uma realidade.

O feminino tomado como genérico e a versão feminina de palavras no masculino como “corpa” e “gênera” podem sublinhar uma intenção ou tonificar a fala. Contudo, deve ser levado em consideração que, dependendo de quem lê ou ouve, pode gerar uma dissonância cognitiva e reduzir a sintonia com a mensagem que está sendo transmitida. 

“O caminho mais rápido e direto
para escrever e falar de maneira
mais  inclusiva é
hackear a própria
norma padrão da língua portuguesa”

O caminho mais rápido e direto para escrever e falar de maneira mais inclusiva é hackear a própria norma padrão da língua portuguesa. Encontrar construções alternativas existentes dentro da gramática vigente para dizer e redigir amenizando marcadores de gênero, mas mantendo o mesmo significado. Faz parte desse processo sair da zona de conforto cognitivo, ampliar a percepção sobre como e o que comunicamos e empenhar-se um pouco para acessar um vocabulário mais amplo que o corriqueiro. 

No mundo hispanoblante é vigorosa a discussão sobre “lenguaje inclusivo” e já foram publicados vários artigos e propostas de reforma. Por aqui, ainda há poucas referências. Para contribuir com essa discussão, publiquei em junho com download gratuito o Manual Prático de Linguagem Inclusiva, onde apresento técnicas simples e estratégias semânticas em uma leitura de 20 minutos. 

Download gratuito em www.tecidas.com.br

André Fischer é fundador e diretor do Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade e do Centro Cultural da Diversidade de São Paulo. Foi colunista da Folha de S.Paulo e MTV, redator e apresentador de programas na CBN e Canal Brasil, editor de revistas e autor de seis livros, entre eles Crônicas Sobre a Nova Ordem Sexual e Manual Prático de Linguagem Inclusiva.

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