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Capa do livro Pequena Coreografia do Adeus (2021), de Aline Bei [Foto: Arte de Nina Lins sobre imagem cortesia da Companhia das Letras]
Postado em 23/02/2026 - 4:41
Literatura como coreografia de gestos
Em pesquisa sobre o trabalho da escrita como o de um corpo que escreve, entrevistadora e entrevistada colocam o diálogo em movimento

Envolver o corpo na escrita sobre o corpo. Como está o corpo que escreve? Como fica o corpo que entrevista? Como é o corpo que cria?

Cecilia Almeida Salles formulou o conceito de criação como uma rede que, resumidamente, descreve o processo de criação como um movimento contínuo de interconexões, sem início nem fim definidos, sustentado pela lógica da incerteza. Nesse processo, sempre aberto à intervenção do acaso e à introdução de novas ideias, todas as ações se relacionam entre si e geram nós de inte­ração em um percurso não linear e sem hierarquias. 

Relaciono esse conceito da rede de criação com os gestos do corpo, seus estados, ritmos e sabedoria próprios, observando o corpo enquanto agente criador. Para isso, além de partir da minha própria criação, entrevistei, no contexto da minha pesquisa de mestrado, outras escritoras e outros escritores que ativamente associam corpo e escrita.

Para não apenas falar do corpo, mas envolvê-lo nas perguntas e respostas, elaborei uma entrevista em movimento, com posições e movimentações pensadas para cada pergunta. Procurei respeitar também o ritmo de cada entrevista, as direções que as perguntas iam tomando e os movimentos das pessoas entrevistadas. Apesar de ter um roteiro de perguntas e posições, deixei as entrevistas fluírem de acordo com o que cada corpo pedia a cada instante.

Uma das pessoas generosas que aceitaram participar desse formato de entrevista foi a escritora Aline Bei. Formada em Letras e em Artes Cênicas, com especialização em Escritas Performáticas, Aline Bei estreou na literatura em 2017 com o romance O Peso do Pássaro Morto. Em seguida publicou Pequena Coreografia do Adeus (2021), finalista do Prêmio Jabuti. Lançou, neste ano de 2025, Uma Delicada Coleção de Ausências, completando uma espécie de trilogia temática. Sua prosa é intimista e poética, marcada por temas como a dor, a solidão, a perda e a experiência feminina. 

Nossa entrevista quase se transformou em uma dança. Estávamos, as duas, completamente presentes e entregues ao momento. Despertar o corpo ajuda a diminuir o protagonismo do raciocínio lógico e seus julgamentos. A lógica do corpo é a da presença e tem esse poder de nos trazer de volta ao espaço-tempo em que nos encontramos. Ativar o corpo gera uma conexão mais íntima com a outra pessoa, um ambiente de abertura que resulta em uma troca mais honesta e lúdica. Um tipo de disponibilidade que só o jogo do instante em movimento pode promover. Ao final da entrevista, Aline até brincou: imagina se as conversas em feiras e congressos fossem todas assim? 

Retrato de Aline Bei [Foto: Isadora Arruda/ cortesia da autora]
Capa do livro Pequena Coreografia do Adeus (2021), de Aline Bei [Foto: Arte de Nina Lins sobre imagem cortesia da Companhia das Letras]

A ideia é que para cada pergunta façamos uma posição. Talvez surjam outras perguntas e outros movimentos, vamos vendo e sentindo. Você pode tomar o tempo que quiser para respondê-las. Foram pensadas posições para cada pergunta, mas se você sentir vontade de levantar e sair correndo ou fazer qualquer outra coisa, fique à vontade. 

Vamos começar então no chão, de pernas cruzadas. 

[as duas se sentam no chão e cruzam as pernas]

Qual era a relação da pequena Aline com a palavra? 

Eu não era de falar muito, era tímida. Quando falava, eu sentia uma grande alegria de expressividade, e me sentia bem, mas também me assustava a força do discurso, da fluência, e eu voltava, então, para uma espécie de silêncio. Sempre foi mais fácil falar com as pessoas que eram minhas pessoas. Diante das pessoas que não eram, as palavras eram bem mais escassas. 

Até hoje o que guardo da minha menina é a escuta. Não é tão simples para mim entrar num fluxo, apesar de parecer, porque, quando eu entro, é prazeroso e vem aquela alegria. Então a relação com a palavra é quase secreta, de algum poder misterioso que ela carrega e que desde pequena eu já tinha consciência desse peso, dessa presença que ela tem. E também o veículo voz, que é uma coisa que sempre me interessou, da textura do que se diz. 

E com a palavra escrita? 

[Aline se senta sobre os calcanhares, eu estico as minhas pernas]

Lembro dos meus cadernos, que não eram bonitos, e isso era um problema na escola e em casa. Minha letra nunca foi “legível” e até hoje é assim. Eu sei torná-la legível, mas, se ela se mantém fiel à sua natureza, guarda o que ela forma plasticamente. Sempre foi assim. Uma letra também que nunca foi muito fiel ao alfabeto, as vogais, meus s, meus is, eram um problema. Um problema pros outros, porque pra mim sempre foi um prazer. 

A escrita literária, a escrita de histórias, poesia, a minha escrita veio muito depois, parece uma eternidade pra mim. Mas, antes de ter, não fazia falta. Eu não ficava na expectativa de alguma outra coisa que surgiria na minha vida, eu usava a palavra escrita como obediência, ouvia as proposições na escola e obedecia. Eu nunca usei de um modo particular, como forma de elaboração de qualquer coisa que pudesse ser difícil, nunca tive diário. Eu escrevia cartas, mas também não me interessava como estavam escritas, me interessava o papel de carta. Então demorou muito para a palavra literária como é hoje para mim chegar na minha vida.

[Levanto e convido Aline a se levantar também. Com as mãos no quadril, começamos a girá-lo] 

Capa do livro Peso do Pássaro Morto (2017), de Aline Bei [Foto: Arte de Nina Lins sobre imagem cortesia da Companhia das Letras]

E o que você faz quando faz poesia, quando faz literatura?

Geralmente, eu acordo e vou. Esse é o tempo, meu tempo é manhã. Quando o texto já existe de uma forma a ponto de impor a mim os desejos que ele tem, aí atravesso o dia todo escrevendo. Mas, quando ainda não sei o texto, quando estou numa escuta muito nebulosa, é manhã. Então eu vou e costumo ir cada vez mais com um companheiro, que é o café. E agora tenho uma xícara muito bonita que ganhei de uma escritora que fez um seminário comigo, e ela é uma peça especial. Tem uns tamanhos desproporcionais, tem sido uma companheira muito interessante. Ela acabou de chegar, mas a gente já criou uma conexão. 

Eu me sento também. Já escrevi em pé, coisas rápidas, mas só anotações. 

[soltamos os braços e começamos a alongá-los livremente, parando de rodar o quadril] 

Também prefiro os espaços íntimos para escrever. Para leitura, às vezes os espaços públicos. Para a escrita, lá em casa, meu ateliê. Hoje tenho um espaço específico. A Pequena e o Pássaro [O Peso do Pássaro Morto (2017) e Pequena Coreografia do Adeus (2021)] foram escritos no meu quarto, na casa dos meus pais. Era um quarto muito pequeno, onde tudo o que era meu, objetos, discos, livros, tudo ficava naquele espaço. Hoje não consigo entender como cabia tanta coisa lá. Porque tudo o que existe na casa onde moro de alguma forma estava no meu quarto, era muita coisa. E eu escrevia tudo lá. Era um espaço-estufa. 

Hoje tenho esse lugar mais espalhado, de vidro, que também mudou a minha relação com a escrita, porque antes era uma espécie de toca, e agora é um aquário. Não pensei que fosse me incomodar tanto, quando a arquiteta sugeriu, eu achei bonito, e é, mas fico com a impressão de que tem alguém espreitando – e às vezes tem mesmo, meu companheiro –, mas a sensação do vidro é essa, de que você está sendo observada. Então incorporei esse olhar. No novo livro está lá, em algum lugar do livro isso está lá. 

[andamos um pouco pela sala e paramos em pé uma de frente para a outra]

Quando você escreve, como ficam as suas pernas?

[eu me acocoro e Aline fica mexendo suas pernas em pé mesmo, trocando o apoio do corpo de um lado para o outro, apoiando as mãos sobre as coxas e depois passando as mãos pelas pernas]

Elas ficam dobradas, um pouco amassadas e suadas na cadeira. A cadeira vai ficando um pouco suja do trabalho, da angústia, do desejo. E a cadeira não é uma cama de que se troca o lençol. Então, tudo isso vai marcando o objeto de uma maneira bastante interessante. As minhas pernas ficam amassadas, angustiadas, pesadas, perdem um pouco a infância que elas têm. Minhas pernas não envelheceram ainda, mas, quando escrevem, são pernas de senhora. E os pés geralmente ficam descalços se não estiver frio, o chinelo ao lado, o contato com o chão. Às vezes, muito raramente, um pé sobe na cadeira, formando um quatro. 

[Aline, ainda em pé, apoia o pé direito sobre a coxa esquerda, eu me sento no chão apoiando o pé direito sobre a coxa esquerda, imitando seu movimento, mas sentada]

E você fica muitas horas escrevendo ou faz muitas pausas, se levanta? Como é sua relação com o sentar?

Depende muito – eu posso pegar a cadeira? 

[Aline pega uma cadeira, a coloca com o encosto virado para o lado, se senta na lateral esquerda da cadeira, apoiando o braço esquerdo sobre o encosto] 

Depende do momento em que o livro está. Se o livro está num ponto em que ele já existe e se impõe, como eu te contei, geralmente eu não consigo fugir, escapar. Então, eu fico muitas, mas muitas horas escrevendo, umas 13/14 horas. Foi o caso de Uma Delicada Coleção de Ausências. Quando estou no começo, as coisas não são assim. Porque aí tem muito silêncio, muita nebulosidade, então eu consigo escrever por umas 2/3 horas, o que são minutos perto do processo de intensidade quando o livro vai se acumulando em si. Então varia. Mas, às vezes, eu me lembro de que preciso, por exemplo, comer alguma coisa, preciso fazer xixi; às vezes, eu me inquieto diante de um problema linguístico, me inquieto diante do esquecimento de uma palavra, às vezes não encontro a palavra que fico pressentindo, aí eu vou nos meus livros tentar encontrar alguma coisa. Vou repor o café, água também é uma companheira. Água e café. Água e café. Até o ponto em que eu preciso sair, fazer outra coisa e me levanto. E esse levantar-se é uma espécie de libertação do corpo. Porque agora os desejos dele serão priorizados. Quando se escreve, o corpo é domado nos seus desejos mais primitivos, para que o texto possa acontecer. 

[proponho que apoiemos o topo da cabeça na parede e fiquemos a um ângulo de 90 graus em relação à parede, como mesas; as duas se posicionam]

“MINHAS PERNAS NÃO ENVELHECERAM AINDA, MAS, QUANDO ESCREVEM, SÃO PERNAS DE SENHORA”
Capa do livro Uma Delicada Coleção de Ausências (2025), de Aline Bei [Foto: Arte de Nina Lins sobre imagem cortesia da Companhia das Letras]

Você estava falando de um esquecimento de palavras. Quando elas lhe escapam, onde você as busca? 

Às vezes, elas não vêm. É uma tragédia. Às vezes, o livro é publicado sem elas. Eu encontro outra, mas sei que não é aquela palavra. E não adianta. Às vezes, eu encontro na boca, falando as outras, que são parentes, que são próximas, que têm temperaturas parecidas. E aí vêm vindo memórias de quando usei a palavra… e, de repente, ela chega com uma intensidade, como um soluço mesmo. E fico muito grata. Claro que tudo isso é temporário, porque não é que essa busca oficializa a presença dessa palavra no livro, no estado em que ele se transforma depois de publicado, que é um objeto outro. Às vezes, ela vai embora, mas ela é importante para o processo. 

[soltamos as mãos e a cabeça da parede e apoiamos as mãos no chão, com as pernas esticadas]

E tem um momento que a escrita trava, não vai pra frente… como você lida com essa sensação?

A minha escrita não vai pra frente mesmo. Ela é cíclica, ela vai pro fundo. Mas, quando ela não quer afundar, o que eu costumo fazer, em dias difíceis, é tentar. Tive dias muito difíceis com a Delicada [Uma Delicada Coleção de Ausências (2025)], eu tive com a Pequena, eu não lembro de ter tido dias tão difíceis com o Pássaro, mas tive com as duas dias muito difíceis mesmo. Dias de enlouquecer. Porque eu não conseguia, de maneira alguma, entrar. Mas também não abandono, eu fico ali, diante. E, geralmente, no dia seguinte, depois de um dia tão difícil, são dias maravilhosos, epifânicos. Aconteceu toda vez. No geral, são dias de trabalho, como um farmacêutico, um marceneiro, uma atriz. Mas esses dias de clímax são muito importantes, e o que eu faço é tentar. Tento, tento, tento. Pego muito Clarice Lispector nesses dias. Pego Hilda, pego James Baldwin, pego Fernando Pessoa. Pego os meus mestres bruxos, para pelo menos usar de buraco numa coisa que eu possa descobrir. É assim que eu atravesso os meus dias difíceis. 

[desenrolamos lentamente]

Tudo bem para você se pularmos um pouco? 

[começamos a pular] 

Como você acredita que o seu corpo influencia sua palavra, sua escrita?

Sinto que cada vez que escrevo, eu tenho um lugar, uma região principal. Como a gente costuma fazer com a voz. Se a gente projeta a voz em determinado lugar, ela sai diferente. Então, eu sinto que o Pássaro foi um livro de estômago, a Pequena foi um livro de seios e a Delicada é um livro de garganta. E é dessa forma que sinto o meu corpo, a partir de um chacra principal, de onde surgem as sombras e todas as coisas, é a buceta do livro. Ainda não escrevi um livro com a buceta, mas vai acontecer. 

[paramos de pular e começamos a andar pelo espaço, andamos por alguns segundos em silêncio]

O que não te deixa parar?

Minhas obsessões, elas me perturbam. Se eu não fizer alguma coisa a respeito, não sei o que pode acontecer com o meu corpo. Quando faço alguma coisa, o meu corpo é meu. Se não faço, eu o perco. 

[continuamos caminhando em silêncio, deixando nossos corpos ocuparem o espaço em diferentes direções, velocidades, ritmos. paramos]

E o que você faz, quando não faz poesia?

[Aline começa a improvisar com as pernas, repito seus movimentos]

Eu escolho uma roupa, 

eu viajo, 

eu visito meus pais, 

eu sinto medo, 

eu lembro de coisas, 

eu aceito entrevistas [sorrimos uma para a outra], 

eu escovo os dentes, 

eu olho as crianças, 

eu abraço cães, 

[silêncio. me aproximo de Aline e me ajoelho no chão, sentando sobre os calcanhares, apoiando a cabeça no chão e deixando os braços para trás, na posição da criança do Yoga]

“ÀS VEZES, EU ENCONTRO NA BOCA [A PALAVRA], FALANDO AS OUTRAS, QUE SÃO PARENTES, QUE SÃO PRÓXIMAS, QUE TÊM TEMPERATURAS PARECIDAS”
Capa do livro Pequena Coreografia do Adeus (2021), de Aline Bei [Foto: Arte de Nina Lins sobre imagem cortesia da Companhia das Letras]

Como a sua formação como atriz afeta sua escrita?

[Aline se senta no chão com as pernas esticadas e os braços esticados, apoiados atrás]

As personagens. O que acontece com as personagens é que são entidades. Talvez alguns escritores pensem que eles criaram uma personagem ou que a personagem é eles, ou que a personagem é alguém que eles conhecem. Mas a personagem já existe, personagem é alguma coisa que você escuta. E, quando a gente faz teatro, a gente sabe disso com uma claridade muito grande. É uma visão. Então, para mim, o teatro me dá mobilidade de alma, para que eu possa recuar e os meus personagens possam existir. E, além de tudo, eu sinto muita saudade de fazer teatro [Aline se vira de barriga para baixo, com o peito levantado e os cotovelos apoiados no chão. Eu me viro e me deito sobre meu lado direito em posição fetal]. Então, a minha escrita acaba se tornando uma grande nostalgia da cena. Uma nostalgia de objetos. E isso transforma a minha palavra em uma busca muito melancólica que parece estar vinculada com a minha trama. Mas não está. É essa saudade que eu sinto do teatro.

[Aline estica os braços no chão, à sua frente, se deitando com a cabeça apoiada sobre o braço esquerdo. silêncio]

Você pensa em voltar pro teatro?

Eu acho que estou voltando agora, com você aqui. Tem alguns momentos que são assim. Mas voltar do jeito que era, não tem como [Aline sobe, passa pelos quatro apoios e se senta sobre seus calcanhares e apoia a cabeça no chão. Começa a desenhar com as mãos no chão, a cabeça virada para o lado esquerdo, me olhando]. Esse é o problema. Você ser retirada de um lugar que você queria estar e depois, mesmo que volte, você não volta para o ponto em que estava. Porque a interrupção é um gesto definitivo. Então, às vezes, eu prefiro não voltar. Voltar do jeito que tenho voltado, que é um jeito mais metafórico, mais que esse, ninguém me tira.

[Aline levanta o tronco, se sentando sobre as pernas. Eu me viro, deitada de barriga para cima. silêncio]

Apesar de eu querer continuar aqui com essa troca gostosa, uma última pergunta. Como o seu corpo escreve?

[silêncio]

Com a mão. 

[começo a brincar com as duas mãos no ar] 

A mão canaliza toda a imaginação do corpo. 

[Aline começa a brincar com a mão esquerda no ar] 

Sempre foi assim, não só para os escritores. 

[nossas mãos se encontram e criam juntas sua própria coreografia] 

As pessoas acham que são os olhos, mas são as mãos. 

[minha mão direita e sua mão esquerda se seguram. olhamos para nossas mãos, olhamos fundo nos olhos uma da outra. naquele instante, apenas nossas mãos importavam. apenas o calor que trocávamos. sem deveres, sem máscaras, sem pressa ou perguntas. naqueles segundos em silêncio, estávamos ouvindo a existência uma da outra. deixamos nossos corpos construírem uma atmosfera de confiança e agora estávamos entregues ao momento, de peitos abertos e mãos dadas]

Nos recolhemos, Aline sentada sobre os calcanhares e eu deitada no chão. Deixamos as palavras e os gestos decantarem por mais alguns segundos em silêncio. Nos levantamos e nos abraçamos.