O fechamento da última fábrica de máquinas de escrever põe fim a uma era
Em maio deste ano encerrou as atividades a última fábrica de máquinas de escrever do mundo. Localizada na cidade de Shirwal, na Índia, a empresa passou a se dedicar ao mercado de geladeiras. O choque diante do objeto obsoleto parece ser maior para os mais jovens. Não são poucos os que já se encantaram com essa espécie de computador, que imprime enquanto escreve. Mal sabem eles que essa engenhoca não admitia o erro. Rios de líquido corretor correram entre suas teclas e afogaram muitas páginas da literatura.
Charles Bukowski (1920-1994) não se separava de sua máquina de escrever portátil Royal Modelo HH. T.S. Eliot (1888-1965) era devoto de sua Smith e a Corona de Ernest Hemingway (1899-1961) foi cúmplice de algumas de suas mais belas histórias.
Tiranas das datilógrafas, foram grandes coadjuvantes em cenas memoráveis de cinema, em que os escritores, ao errar ou hesitar, durante a criação do texto, rasgavam dramaticamente o papel e faziam tilintar o rolo, deslizando-o raivosamente para lá e para cá . Algumas cenas inesquecíveis: Jack Nicholson em O Iluminado; William Holden, interpretando um escritor no filme Quando Paris Alucina, fazendo a datilógrafa Gabrielle (Audrey Hepburn) rasgar as páginas e recomeçar um sem-número de vezes.
Peça de museu desde que os PCs passaram a ser eletrodomésticos indispensáveis em qualquer domicílio, deixou como herança o QWERTY, layout do teclado criado pelo engenheiro mecânico Cristopher Sholes, em 1868. Para agilizar a escrita e evitar o travamento do teclado, Sholes dividiu as teclas em pares de letras usadas com maior frequência na língua inglesa. O sistema tornou-se universal e migrou, sem nenhuma necessidade estrutural, para o computador e depois para os celulares, sobrevivendo à morte da musa, que se foi sem deixar muita saudade.
*Publicado originalmente na edição impressa #3.