icon-plus
Detalhe de Aqui Tudo Parece que É Ainda Paraiso e já É Inferno 6 (2017), de Marcel Diogo (foto: cortesia Diáspora)
Postado em 22/09/2026 - 6:15
MEMÓRIA E PODER POR MEIO DAS IMAGENS
Em exposição na Diáspora Galeria, jovens artistas apresentam uma história brasileira contemporânea a partir de suas histórias individuais

A infância, que pode parecer algo desde sempre dado, é uma invenção da modernidade. Não foi especialidade historiográfica antes de 1960, até que a Escola dos Annales propusesse os  contornos de uma primeira história da infância. E, no entanto, as imagens do tempo perdido de criança povoam o imaginário geral. Artistas frequentemente revisitam suas fotos de família com o propósito de fazer trabalhos sobre memória, contexto social ou geográfico, pertencimento.

A mostra coletiva Minhas Fronteiras Não São Linhas Retas, em cartaz na Diáspora Galeria, em São Paulo, coloca essas temáticas em evidência de maneira contundente. A exposição reúne  obras de Albarte, Cristina Rovesse, Gabriel Ussami, Marcel Diogo, Pamela Zorn e Tetê Lian. Na  visita que fiz à galeria, no dia do vernissage, tive a oportunidade de conversar com alguns dos artistas, que discorreram sobre a importância da imagem como índice de memória pessoal,  familiar ou não, e de afirmação de identidades políticas.

Vista geral do segundo andar da exposição (foto: cortesia Diáspora Galeria)

O propósito da Diáspora Galeria ao reunir jovens artistas que compartilham o interesse por temas atravessados por raça, gênero, classe, território e história é investigar a “experiência  contemporânea brasileira e os modos como nos relacionamos com nossas histórias e com as  histórias dos outros”, de acordo com o texto de apresentação, de Alex Tso, que assina a curadoria com Amanda Nari. O ponto de partida dos curadores foi a pergunta “Quem controla o poder da memória controla o poder da política?”. Pamela Zorn e Marcel Diogo respondem com pinturas que revisitam suas respectivas fotos de infância. Enquando as telas de Zorn nos apresentam o cotidiano de uma família interracial, a obra Falha Nº 6 (2015), de Diogo, se foca nos erros e glitches da prática fotográfica amadora da época de pais e avós que nasceram antes da internet. Nos dois casos, somos confrontados também pela reflexão sobre o privilégio de quem possui diversos álbuns de fotos de família e, por isso, pode rastrear as próprias origens.

“A exposição propõe pensar quais histórias são preservadas, quais são apagadas e como o presente atua na construção dos futuros possíveis”, prossegue Tso em seu ensaio. As obras de  Albarte respondem diretamente ao desafio de construir outros futuros para os jovens periféricos do Rio de Janeiro. As duas telas apresentadas retratam o cotidiano de famílias negras em comunidades como a do próprio Albarte, evidenciando os momentos de alegria e realização, como a prática de descolorir o cabelo antes das festas de Carnaval, Páscoa ou Natal. “Retrato as pessoas sem individualizar as feições faciais, para que mais gente possa se identificar”, diz.

Gabriel Ussami também mobiliza identidades coletivas para contar a própria história, de forma a abarcar mais pessoas na narrativa proposta. O artista aciona signos da cultura japonesa, que  instala em estruturas metálicas em forma de grid. O objetivo é que as obras tenham uma presença de escala próxima à urbana, assim como certa impessoalidade, conferida pelo alumínio que as mantêm suspensas sem o apoio da parede. Entre outros trabalhos de Assami, destaca-se Passando por… (2024), citação de uma performance do grupo Gutai, com o qual o artista elege seus ancestrais.

Passando por… (2024), de Gabriel Ussami (foto: cortesia da galeria)

Minhas Fronteiras Não São Linhas Retas
Diáspora Galeria
Avenida Rebouças, 2915, Pinheiros, São Paulo, SP
Qui e sex, 12h às 18h; sáb, 11h às 15h (demais dias sob agendamento)
Até 26/9

Aqui Tudo Parece que É Ainda Paraiso e já É Inferno 6 (2017), de Marcel Diogo (foto: cortesia Diáspora)
Tags  
Diáspora Galeria