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I. Mirror (2007), de Cao Fei (Foto: Reprodução)
Postado em 04/12/2023 - 5:32
METARREAL EXERCÍCIOS PARA ESCAPAR DA ROTINA (E DA PRECARIEDADE)
Leia o manifesto editorial da edição #60

A revista é uma cápsula do tempo. Não me lembro se já escrevi isso anteriormente em outro editorial, mas a condição periódica da publicação permite que este seja um espaço para pensar sobre e se relacionar de modo contínuo com um contexto. Com seu contexto espaço-temporal. A revista é um documento sobre a vida, o pensamento, as práticas de uma época. Sua função é acompanhar (e produzir) mudanças de pensamento.

A seLecT realizou, ao longo de 12 contínuos anos, a documentação de um tempo. Em se tratando – a seLecT – de uma revista de jornalismo cultural e de crítica de arte, por documentação entenda-se produção de conhecimento. Outro papel incontornável deste veículo é o de se colocar como uma plataforma de reflexão sobre pautas sociais e institucionais urgentes – papel que, como sempre ressalta nossa redatora-chefe Juliana Monachesi, é uma função social fundante do jornalismo em contextos democráticos, conferindo transparência às polêmicas e contribuindo para o debate saudável de ideias.

Os temas das pesquisas trimestrais e anuais da seLecT foram sempre escolhidos a partir da percepção de um zeitgeist, coletivamente, pelos membros da redação. É significativo, então, que esta edição #60 que você tem em mãos (se comprou a revista impressa sob demanda!) ou diante dos olhos, na tela; esta edição que representa um final de ciclo, um divisor de águas; seja um veículo de investigação do campo das metarrealidades.

Meta, do grego, além. Posição posterior. Mudança. Transcendência.

Metarreal: além, depois da realidade.

A realidade depois da seLecT será a já anunciada ceLesTe. Na edição #57 – A Virada (março/abril/maio 2023), celebramos uma virada de página, adotando como nome o feminino e descolonial ceLesTe, refletindo uma vontade transbordante e incontível de ampliação, vibração, ressonância, inclusão, cooperação. E então, em 2023, operamos com o nome composto seLecT_ceLesTe, sinalizando essa mudança, essa transcendência por vir.

Em outubro último, participei do lançamento do livro Emergências Culturais: Instituições, Criadores e Comunidades no Brasil e no México, de Néstor García Canclini, Juan Ignacio Brizuela, Sharine Machado C. Melo e Mariana Martínez Matadamas. Coordenador de pesquisa realizada ao longo de três anos na Cátedra Olavo Setubal de Arte, Cultura e Ciência, no Instituto de Estudos Avançados (IEB USP), o antropólogo cultural argentino, radicado no México, García Canclini desenha na introdução do livro um quadro de precariedade e emergência compartilhado entre Brasil, Chile, Argentina, México e Colômbia.

O estudo mostra que, no atual cenário de completa precarização das condições do trabalho com cultura, nem mesmo as chamadas indústrias criativas chegam de fato a agregar valor à vida cultural. Sem dúvida, uma das grandes contribuições da pesquisa é a revisão das noções de comunidade, participação, instituição, criatividade e movimentos de insurreição crítica, entre outros conceitos, conferindo-lhes sentidos ampliados, flexibilizados, reelaborados. Assim, movida pelo fato de essas revisões se aplicarem perfeitamente às nossas preocupações cotidianas enquanto jornalistas, editores e trabalhadores da arte, contribui com a discussão na roda de conversa com uma brevíssima pensata acerca da situação do jornalismo cultural no Brasil; e dos desafios e contradições de se manter uma revista de arte neste contexto.

Ao contrário do mundo digital que, como Canclini afirma, “fomenta, em vez da continuidade, a inovação e a intermitência de comportamentos”, o periódico cultural é um organismo ancorado no princípio da periodicidade, portanto, da duração e da regularidade – e quem sabe, até, no intento de realizar a “reprodução da sociedade”, o que o aproximaria de uma das definições de instituição cultural delineadas pelo autor. Mas duração e continuidade são condições inviáveis no nosso contexto, fazendo com que uma revista de arte muito dificilmente ultrapasse a publicação de uma dezena de edições. As publicações que o fazem dependem de exímia destreza malabarista.

A_s queridxs leitores da seLecT_ceLesTe que ainda encontram desejo e sentido para enfrentar textos de mais de um parágrafo, compartilho que, em 2024, ceLesTe assumirá a sua realidade de projeto cultural com temporalidade limitada (e não mais periódica, que determinaria nosso trabalho como periódico). Mudança de paradigma.

Assim, remontando à psicogeografia, exercício situacionista para escapar da rotina (neste caso, da rotina de precariedade a que a economia cultural e o meio artístico nos impuseram como produtores de conhecimento), em um primeiro momento, ceLesTe será menos uma revista do que um espaço digital de pesquisa sobre as relações entre arte, crítica e jornalismo.

Mais por vir.