icon-plus
Le Lézard aux Plumes d'Or, de Joan Miró e Josep Royo (1989-1991) Foto: cortesia Fundació Pilar i Joan Miró a Mallorca, depósito colección particular)
Postado em 04/09/2026 - 7:07
Miró de olhos bem fechados
A maior exposição do artista catalão no Brasil traz 140 obras, 14 delas inéditas e outras em suportes pouco conhecidos do público, como assemblages e tapeçaria

Para ser o surrealista pelo qual se tornou conhecido, o catalão Joan Miró (1893-1983) foi instigado a se desligar do que via. “Seu professor, Francesc Galí (1880-1965), pôs uma venda em seus olhos e disse para pintar olhando para dentro de si. A partir daí, Miró se tornou o artista que conhecemos”, disse o organizador da exposição, Roberto Souza Leão, à celeste. 

O CEO do Instituto Totex sabe o que fala. Amigo de Joan Punyet Miró, neto do artista e gestor da Fundació Miró, há cerca de 13 anos, Leão era diretor executivo do Instituto Tomie Ohtake quando lá esteve em cartaz Joan Miró – A Força da Matéria –, grande exposição com cem obras. Por que então trazer outra mostra do mesmo ícone? “Eu queria algo maior, com mais trabalhos. Queria que tivesse gravuras, que é o que o público mais conhece, mas também queria obras raras”, conta Leão. 

Vista da exposição Miró: Mestre das Formas (foto: Jessica Lane / Persona Comunicação)

O resultado é uma exposição com muitas obras pela primeira vez emprestadas pela família e também multifacetada, mostrando a versatilidade e a permanente reinvenção do artista ao longo de sua carreira. “Miró queria assassinar a pintura clássica. Ele dizia que, se você se prende aos padrões, fica um escravo do seu próprio trabalho e das estéticas da época. Ele estava sempre destruindo a própria estética, porque dizia que não podia se acomodar nunca”, conta Leão.

De inéditas, figuram 14 pinturas em grandes formatos e cores vivíssimas (principalmente as cores primárias com verde, branco e preto), muitas delas trazendo a tríade Mulher – Pássaro – Estrela nas representações gráficas e viscerais características de Miró.

Essa fase surge na mostra logo após um começo denso e quase monocromático da produção do artista. “Miró passou por duas grandes guerras, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial. Eram obras muito escuras, sem cor, porque ele queria representar o terror desses períodos”, afirma Leão. Uma das poucas cores que usou no entreguerras foi o vermelho, em referência à violência física, aos fantasmas e monstros. “Ele deu o quadro à filha e disse para ela guardá-lo com muito zelo, para que nunca esquecesse os horrores da guerra”, conta.

Personage y Pájaro (Personagem e Pássaro, 1937), de Miró, que deu a obra a sua filha para lembrar os horrores da guerra (Foto: celeste)

Esculturas de brinquedo
Em suas esculturas, Miró brincava com diferentes materiais e cores. Nas cerâmicas, usava as próprias mãos para imprimir seu gesto a formas soltas. Os bronzes, que incorporavam materiais

Girl Escaping (Garota Fugindo, 1967), um dos bronzes pintados presentes na mostra (Foto: cortesia Fundació Joan Miró, Barcelona)

cotidianos (assemblages), como caixas de ovos (e os próprios ovos), manequins e tampas de latas de solvente, surgem em sua coloração natural ou cobertos por tons fortes, em dois exemplares presentes na mostra, entre eles Girl Escaping (Garota Fugindo, 1967).

“Quando eu era criança, às vezes dava falta de um brinquedo e ficava dias chorando, para descobrir tempos depois que ele estava em uma obra de meu avô”, contou Punyet Miró em evento no hotel Rosewood para promoção da exposição.

A mostra contém ainda 15 tapeçarias feitas a partir de 1969, em parceria com o então jovem artista e tapeceiro Josep Royo (1945-). “Meu avô tomou um susto quando viu o rapaz, cabeludo e de calça boca de sino, pensou que o artista seria o pai dele”, contou o neto. 

Quando começou a experimentar a linguagem da tapeçaria, Miró já estava em idade avançada, tanto que, na exposição, apenas dois trabalhos têxteis foram feitos pelas mãos do catalão. Os demais foram executados por Royo, a partir de projetos, após a morte de Miró, em 1983. Ainda assim, impressionam o desenho, o tamanho e a exímia tradução dos desenhos à técnica.

Gravuras com doce de leite
Uma série lúdica, tanto pela técnica usada quanto pelo título e o resultado, é apresentada mais adiante no percurso dividido em fases temáticas pelo curador, o espanhol Jordi J. Clavero. São grandes gravuras com chapas de metal que Miró cobria com uma mistura de limalha de ferro e doce de leite para fazer reagir o papel, dando um efeito levemente dourado ao fundo, que serviria de base à pintura. Enquanto as chapas estavam sobre o papel, os cachorros do artista invadiram o ateliê para lamber o doce. Foi assim que essa se tornou a série Cachorros (1979) , com traços em preto que incluem as pegadas dos animais. 

Contextualizando a história do artista, há um vídeo num grande telão e, nas paredes, trechos de sua correspondência com a família e amigos, muitos deles escritores, com quem Miró teve uma longa história de colaborações. Inclusive João Cabral de Melo, que foi cônsul na Espanha durante o franquismo e acabou por se tornar muito próximo do artista, sobre quem escreveu um ensaio, Joan Miró, ilustrado pelo próprio e com tiragem limitada de 125 exemplares (este não figura na exposição).

Escultura de cacto que Miró criou em seu ateliê de Montroig, fotografada por Joaquín Gomis (Foto: cortesia herdeiros de Joaquín Gomis / Fundació Miró, Barcelona)

Mas é na série de fotos feitas pelo também amigo Joaquín Gomis (que foi o primeiro presidente da Fundació Joan Miró) que a vida íntima de Miró ganha uma face pública. Cenas cotidianas em 1946, no ateliê em Montroig del Camp, pequeno município no interior da Catalunha – hoje com pouco mais de 12 mil habitantes –, mostram a “humanidade” e simplicidade do gênio, um homem ligado à natureza e ao meio ambiente. “Se meu avô fosse vivo hoje, ele certamente estaria conectado à arte indígena, a todo esse movimento”, disse seu neto quando esteve no Brasil. 

Serviço:
Miró: Mestre das Formas
MAB-Faap
Rua Alagoas, 903, Higienópolis, São Paulo, SP
Até 12/10
Livre

“Se meu avô fosse vivo hoje, ele certamente estaria conectado à arte indígena, a todo esse movimento” Joan Punyet Miró
Centenary of the Mourlot Print Studio (Centenário do Estúdio de Impressão Mourlot, 1953), de Miró (Foto: cortesia Fundació Joan Miró, Barcelona)
Miró em Montroig em 1946, em foto de Joaquín Gomis (Foto: cortesia herdeiros de Joaquín Gomis / Fundació Miró, Barcelona)
Tags  
joan miró   surrealismo