icon-plus
Postado em 21/12/2023 - 2:43
Museu como Quilombo?
Um passo em direção à reparação, outro ao reposicionamento ético do Inhotim em relação ao território que ocupa: um balanço dos 4 Atos do Programa Abdias Nascimento

Está em cartaz o quarto e último ato do Programa Abdias Nascimento no Inhotim. O projeto curatorial, iniciado em 2021, em parceria com o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) caminha para seu encerramento com ares de continuidade: a exposição Direito à Forma, na Galeria Mata, curada por Igor Simões, e a instalação Giro, da artista Luana Vitra, na Galeria Marcenaria, duas mostras de longa duração no instituto em Brumadinho, Minas Gerais.

Os Doadores da Tecnologia: Ogum e Xangô (1975), de Abdias Nascimento [Foto: Icaro Moreno / Divulgação]

Assim como os três primeiros atos, cada qual organizado a partir dos orixás Exu, Oxossi e Oxum, o Quarto Ato é regido por Xangô. Sua força, de forma muito resumida, é associada à justiça: “Xangô é orixá do so, do trovão, e do fogo. Suas cores são o vermelho e o branco; quarta-feira é seu dia. Patrono da justiça, mora numa pedra. Seu duplo machado é feito de um meteorito”, descreve Abdias Nascimento no livro Orixá: Os Deus Vivos da África.  Entre documentos históricos do Ipeafro, pinturas de Nascimento e obras de artistas contemporâneos, como Marcel Diogo e Mulambö, a exposição se desenha também em torno do conceito de Quilombismo, cunhado por Abdias Nascimento no livro homônimo, publicado pela primeira vez em 1980, e com terceira edição publicada em 2019 pela Perspectiva. A exposição sintetiza um olhar para tudo o que se passou nos outros atos e para o conceito de Quilombismo, de acordo com o curador Douglas de Freitas, em fala durante a abertura da exposição.

 

 

O ano encerra em Inhotim com a conclusão do processo que trouxe ao público, ao longo de 3 anos, o acervo do Ipeafro. ”Um passo em direção à reparação”, considera Elisa Larkin, presidente e fundadora do instituto, durante a coletiva de imprensa na ocasião da abertura. O ciclo completo de três anos marca o também inédito feito da exposição de obras de arte realizadas por artistas negres, negras e negros – motivo ao qual se atribui o “reposicionamento ético do Inhotim em relação ao território que ocupa”, afirma a curadora-chefe, Júlia Rebouças.


Território
O instituto está localizado na cidade de Brumadinho, na zona de maior riqueza mineral do Brasil, o quadrilátero ferrífero. A cidade é marcada na terra e na memória pelo crime ambiental cometido pela Vale em janeiro de 2019. Mas a memória do lugar remonta à sua construção por escravizados, cujos descendentes vivem no Quilombo Sapé, que, junto às comunidades quilombolas de Marinhos, Ribeirão e Rodrigues, estão instalados nos arredores da Fazenda que dá origem ao município, como aponta a pesquisadora Thais Mendes Alves em sua pesquisa de mestrado, Brumadinho-MG e Inhotim: Entre a Memória, O Museu e o Turismo. No mais, as notícias sobre lavagem de dinheiro, trabalho escravo e infantil envolvendo o fundador do museu demarcam quanto o território que Inhotim ocupa é político, além de artístico, um território que pode ser estendido para as cidades vizinhas de São Joaquim de Bicas e Igarapé, onde se estendem os efeitos sociais e estruturais da criação do Instituto.

 

Galeria Mata, do arquiteto Paulo Orsini (2002) [Foto: Eduardo Eckenfels / Divulgação]

O território do parque, em si, é deslumbrante. Não por acaso o artista Maxwell Alexandre declarou, em 2022, que só teria uma obra lá com um pavilhão exclusivamente seu. Para quem não conhece o espaço ao vivo, a descrição de uma miragem não seria um exagero. Na enorme Galeria Mata, entre paredes de vidro, o conjunto escolhido pela curadoria mantém a costura feita nos últimos atos. Documentos pessoais, cartas, notícias de jornal, pinturas dedicadas aos Orixás, obras de artistas contemporâneos estão no ponto de vista do público que passeia entre bromélias e lagos espelhados. 

Pela diversidade dos materiais e objetos, a expografia foi pensada de modo sintético e usual. Num roteiro de galerias interativas, com múltiplos recursos sonoros e visuais, o público talvez se decepcione pelo caráter tradicional da exposição. A inovação trazida pela parceria com o Ipeafro surge tímida na escala material. 

A construção que antes dava abrigo à marcenaria do instituto foi transformada em galeria para mostras individuais temporárias e de longa duração. Antes do Giro de Vitra estavam La Intimidad de la Luz de St. Ives (1997), de Victor Grippo, e De Lama Lâmina (2004), de Matthew Barney. Mais incisiva, Giro toma a sala em vetores de cobre, cerâmicas e telas azuis, utilizadas na construção civil. A linguagem visual é próxima de Pulmão da Mina (2023), exposta na 35a Bienal de São Paulo: os tons brancos, terracota, anil e dourado revestem setas que estão ou indicando acima ou abaixo; cruzes, pássaros e telas azuis. Todo o imaginário criado por Vitra nas duas instalações remetem simbolicamente, com seus materiais, aos pólos de energia e à condutividade dos elementos.

Paz e Poder (1970), de Abdias Nascimento [Foto: Icaro Moreno / Divulgação]

 Plano Simbólico

A obra de Vitra fala abertamente dos ‘sulcos da terra’. Os diagramas ou circuitos, interligados por fios de cobre, ligam as pedras brutas de ferro à terra vermelha. Luana Vitra é também parte da história do território do Inhotim. Aos 28 anos, ela é a primeira artista não branca a receber um espaço individual no parque.

A “urgente necessidade do negro brasileiro em recuperar sua memória”, sinalizada no prefácio do pesquisador Kabengele Munanga da terceira edição do Quilombismo, de Abdias Nascimento, parece refletir nas obras escolhidas para a exposição. O conceito desenhado por Nascimento no conjunto de dez ensaios produzidos em “espaços-tempos diferentes” trata da “luta de resistência em defesa da liberdade e da dignidade humana que caracterizam todos os movimentos diaspóricos africanos no mundo”, conclui Munanga. Abdias Nascimento define o quilombo como “reunião fraterna e livre, solidariedade, convivência, comunhão existencial”, seja ele livre ou dominado, exemplificando as reuniões afro centradas aceitas pela branquitude dominante. Se um museu não pode ser decolonial, ele jamais seria um quilombo, tomando o pensamento de Françoise Verges em Decolonizar o Museu, Programa de Desordem Absoluta (2023, Ubu).

O Quilombo é, portanto, uma comunhão não só de fortalecimento interno como de toda uma rede. A lógica produtivista é contrária ao adestramento (ou colonização) como desenha Nego Bispo, em a Terra Dá, a Terra Quer (2023, Ubu). A atitude expositiva é, por si só, adestradora e colonizadora, em certo limite. Num cenário de promessas e planos para mudanças estruturais da instituição, inclusive nas relações de trabalho, de acordo com Júlio Menezes, coordenador do projeto Museu de Arte Negra do Ipeafro no ambiente virtual, o brilho surge aos olhos. 

Ecoar as passagens institucionais e sociais para que o projeto seja concluído é reforçar o exercício crítico da desconfiança – incluindo a certeza branca de que esse é o único modelo que resta para compartilhar arte. Para o próximo ano, o Instituto dobra as arrecadações e patrocinadores, firma parceria com a Vale e retoma as obras do sonhado resort pelos turistas.