No final de 2023, uma exposição importante foi inaugurada no Museu Paranaense (MUPA), situado em um prédio histórico, rodeado por um agradável e bem cuidado jardim com flores, árvores frutíferas, casas de abelhas sem ferrão, onde o canto dos pássaros nos faz esquecer que estamos em Curitiba.
O coletivo curatorial da mostra Objeto Sujeito é formado por Pollyana Quintella, curadora convidada, Felipe Vilas Bôas e Richard Romanini — respectivamente, curador e diretor artístico do MUPA — sob a batuta de Gabriela Bettega, diretora-geral. Os curadores convidaram 12 artistas brasileiros para dialogar com o acervo de 500 mil peças, sendo o foco da mostra o núcleo de história.
O MUPA E SEU PÚBLICO
Inaugurado em 1876, por meio da parceria de um advogado com um médico, já contando com 600 peças na coleção, voltadas para as áreas da indústria e da ciência, mas não das artes visuais, o museu recebeu o nome Paranaense seis meses após sua inauguração, quando passou para a alçada do governo do Estado do Paraná. Entre os anos de 1950 e 1970, muitas peças do acervo foram cedidas para a criação de outras instituições, ação que permitiu ao museu focar o seu eixo curatorial na antropologia, arqueologia e história.
Desde 2019, o museu revisa o seu acervo de forma contínua, crítica, colaborativa e compartilhada, para melhor compreendê-lo, e também expandir o olhar da população para a riqueza desse significativo patrimônio, além do desejo de agregar uma contemporaneidade por meio de novos eixos, como arquitetura, design e design gráfico. Durante esse processo, ganha o nome de MUPA, nomenclatura mais curta, seguindo a tendência dos museus mundo afora, para facilitar a comunicação com seu público.
COMEÇAR PELA EXPOGRAFIA
Dentre as obras expostas há produções feitas especialmente para a exposição Objeto Sujeito, outras que já pertenciam ao acervo e ganharam uma nova configuração, e algumas selecionadas pelos curadores e compradas pelo museu. Todos os trabalhos foram comissionados e, portanto, serão incorporados à coleção do MUPA.
A mostra ocupa o Anexo, construído como parte do projeto de expansão do espaço expositivo, porque o prédio principal, tombado pelo patrimônio histórico, não permite intervenções e ampliações. Esse dado é essencial porque a fruição possível no Anexo propicia uma experiência estética intensa e vibrante, a começar pela expografia: planejada com inteligência, acessibilidade, acolhimento, e com planos visuais que se criam dentro da exposição, permitindo, assim, ter várias exposições dentro de uma só, em vez de obras lado a lado na parede.
ARQUIPÉLAGO EXPOSITIVO
Para atingir esse resultado, ilhas expositivas foram construídas com estruturas de alumínio e blocos de concreto e têm o tamanho padrão de 60x30x10cm. No total, foram feitos 13 mil cortes no conjunto dos blocos para criar as paredes das ilhas, ressignificando esse material. Outro exemplo é a tábua, um tampo de mesa destinada a acomodar objetos, que mudou de função e virou tableau (quadro). Todo o processo foi guiado pela atenção com a devida conservação das obras – por ser uma mostra de longa duração –, com o aconchego da iluminação, com a ergonomia e com a mobilidade acessível e confortável para todos.
Essas ilhas expositivas foram construídas pela Sr. Valcir Pinheiro, responsável por toda a parte de alvenaria, serralheria e vidraçaria do núcleo de montagem da instituição, agregando muito valor ao belíssimo resultado final.
Após o impacto com o desenho da expografia, traçar a rota para iniciar a visita não é tarefa fácil, porque o visitante é invadido por uma deliciosa sensação de estar dentro de um livro, ou de vários livros. Por exemplo, O Jogo da Amarelinha, do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) ou O Dicionário Kazar, do autor sérvio Milorad Pavitch (1929-2009). Ambos permitem percursos diversos de leitura – linear, intercalados, guiados pelos autores, criados pelo próprio leitor – e a exposição Objeto Sujeito também, abrindo mil possibilidades de fruição e conexões através de forma, cor, movimento, textura, cheiro e som.

Íria Correia é a primeira mulher a dedicar-se profissionalmente à pintura, sendo pioneira das artes plásticas no Paraná. Teve formação em pintura, que lhe possibilitou construir uma carreira como artista quando as mulheres não tinham visibilidade nesse ofício, e até sustentou sua família com a venda de obras, após o falecimento do pai. Pintava leques e quadros usando tinta óleo. Iniciou com naturezas mortas, temas religiosos, miniaturas e, finalmente, os retratos. Dois deles, que pertencem ao acervo do MUPA, estão expostos, e fizeram parte da exposição Histórias das Mulheres: Artistas até 1900, no Museu de Arte de São Paulo (Masp) entre agosto e novembro de 2019.
Clara Moreira, nascida, criada e residente no Recife, diz que o desenho foi aprendido, não desenvolvido. Aprendeu a desenhar com o pai, que aprendeu a desenhar com a mãe, mas nunca tiveram uma instrução formal. Ninguém da família vivenciou uma experiência profissional remunerada antes de Clara. O lápis de cor é o seu instrumento de criação e trabalho. O seu desenho, como ela mesmo afirma, nunca saiu de dentro do seu braço e ele, no seu corpo, é o vínculo da coisa artística. O trabalho exposto Promessas da Casa II (2022) chancela a afirmação.
O encontro dessas duas mulheres artistas, com diferenças e semelhanças nas suas narrativas, nos mostra o quão inevitável é o destino de ser artista.

Dando meia-volta, ao fundo da sala, a segunda ilha à esquerda acolhe trabalhos desenvolvidos especialmente para essa exposição por Isis Gasparini (São Paulo, 1989), artista multidisciplinar com formação em dança, artes visuais e especialização em fotografia. Gasparini fez uma imersão no MUPA nas áreas de acesso público, e também onde o público não acessa, como a reserva técnica, além de um mapeamento da vizinhança, chegando até a enviar cartas para os moradores para conhecê-los, mas infelizmente não obteve respostas.
Trecho da carta:
“Caro vizinho/vizinha,
Meu nome é Isis Gasparini, sou uma artista de São Paulo. Estou realizando um trabalho artístico no Museu Paranaense (MUPA: Museu de Antropologia, Arqueologia e História), seu vizinho. (…)
Gostaria de te fazer um convite para participar desse trabalho, que prevê uma aproximação com as pessoas do entorno. A ideia é saber se há em sua casa algum objeto que você goste muito de olhar (como uma obra de arte) ou que você ache importante preservar (porque guarda uma história coletiva). Queria pensar junto com você o que o Museu pode ter a ver com isso que você, no seu dia a dia, chama de arte e de história. (…)”.
No trabalho Vizinhança (2023), a artista traz alguns objetos do acervo sem identificação histórica (quem doou, quando, quem produziu), que se perdem por não ter uma memória, mas podem se reencontrar quando há corpo, luz e um trajeto que nesse caso rumou para a feira de artesanato, um importante evento do cenário turístico de Curitiba, que acontece aos domingos, na praça na frente do museu.
Isis Gasparini construiu um jogo poético entre os objetos anônimos do acervo, assim que ela os denominou, e as peças que garimpou na feira de artesanato. É um convite para o visitante entrar no jogo, tentar identificar o que é do acervo, o que é oriundo da feira, e refletir sobre esse paralelo entre as peças, com semelhanças, e por qual razão algumas tornam-se relíquias e vão para o museu, e outras não.
Em outro trabalho, Véu (2023), um díptico, com imagens feitas durante diferentes visitas da artista ao acervo, torna o invisível visível através da criação de uma coreografia dessas imagens compondo o espaço a partir do corpo, possibilitando ao público adentrar por um caminho que não lhe é permitido.

Depois dessa viagem no tempo, uma última sugestão, antes de você, leitor, criar os seus próprios percursos, é seguir em direção ao andar inferior do anexo pela rampa. Importante ter foco no caminho, não desviar o olhar, mesmo atravessando outras interessantes exposições em cartaz. No fim da rampa, mantenha-se à direita e aproxime-se da janela. Levante vagarosamente a cabeça. Deixe-se seduzir pela instabilidade e pelo desassossego do fragmento de uma coluna falsa sob a escada de emergência, simulando um aspecto de ruína, na instalação Pilar (2023), de C. L. Salvaro (Curitiba, 1980).
Fica aqui o convite para quem for passar ou estiver em Curitiba não perder a oportunidade de construir muitos percursos para desfrutar e desvendar a exposição Objeto Sujeito, pois é e está imperdível!
Serviço
Objeto Sujeito (exposição de longa duração)
Museu Paranaense (MUPA) @museuparanaense
Rua Kellers, 289 – Alto São Francisco – Curitiba
Telefone: (41) 3304-3300
Visitação de terça a domingo das 10h às 17h30
Entrada gratuita
Acessibilidade:
Rampas de acesso, elevadores e banheiros adaptados.
Não há mapas táteis.
Não há videoguia em Libras (Língua Brasileira de Sinais).