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Seus Olhos de Avenca, colagem apresentada na pág. 89 do livro (Foto: Divulgação)
Postado em 11/04/2023 - 12:00
NADJA, AS MULHERES E A FICÇÃO
Escrito na primeira pessoa, clássico surrealista de André Breton chama atenção para o lugar que a mulher ocupa na arte e na literatura

Em outubro de 1928, Virginia Woolf foi convidada a dar uma palestra na Arts Society, do Newnham College, faculdade frequentada por mulheres dentro da Universidade de Cambridge. O tema: as mulheres e a ficção. “‘Eu’ é apenas um termo prático para alguém que não tem existência real”, começava a autora, afirmando poder ser chamada de Mary Beton, Mary Seton, Mary Carmichael, “ou qualquer outro nome que lhes agrade – pouco importa”. Com essa proposta, a autora britânica não estava apenas assumindo a condição de anonimato que cabia às escritoras, mas vestindo uma identidade coletiva e afirmando que a literatura produzida pelas mulheres de classe média que haviam começado a escrever no fim do século 19 não surgiu como evento isolado e solitário, e sim como resultado de muitos anos de “pensamento comum”.

Pode-se entender a palestra de Woolf, editada posteriormente na forma do ensaio Um Teto Todo Seu (1929), como um antecedente, na literatura, do que o coletivo Guerilla Girls faria no campo das artes visuais a partir dos anos 1980 (Do Women Have to Be Naked to Get into the Museum?): ousar contabilizar a diferença da atividade criativa entre mulheres e homens. Em uma rápida pesquisa nas bibliotecas de Oxford e Cambridge, as duas universidades mais prestigiadas do Reino Unido, Woolf concluiu que mulheres não escreviam livros sobre homens, que as mulheres eram muito mais interessantes para os homens do que o contrário. “Vocês têm ciência de que são, talvez, o animal mais debatido do universo?”, perguntou para a plateia feminina.

No mesmo ano em que Virginia Woolf palestrava acerca da posição que a mulher ocupava na sociedade patriarcal britânica, do outro lado do Canal da Mancha, André Breton publicava na França Nadja (1928-1963), obra central do projeto surrealista de desafiar os paradigmas da racionalidade, implantando como método o sonho, a sexualidade, o acaso objetivo. No momento de sua publicação – e mesmo a reedição, revista pelo autor, em 1963 –, a obra revolucionou por uma linguagem multifacetada que incorporava ao mesmo tempo as qualidades de diário confessional, crônica, poesia e romance. Breton escreve na primeira pessoa e estabelece com sua protagonista um jogo especular, projetando nela uma dimensão abstrata do próprio eu. O fundador do movimento surrealista começa sua narrativa com a pergunta “Quem sou?” Adiante, ao relembrar seu primeiro encontro com a jovem que se apresenta como Nadja e caminha “pobremente vestida” pelas ruas de Paris, “tão frágil que mal toca o solo ao pisar”, ele indagaria: “Quem vem lá? Serei eu apenas? Serei eu mesmo?”

Hoje, em 2023, cabe ler Nadja – um lançamento da 100/cabeças, editora, criada em 2020 para irradiar o pensamento de autores ligados ao surrealismo – em contraste com As Mulheres e a Ficção, de Woolf. A obra de fato poderia estar entre os livros estudados pela escritora britânica em sua reflexão sobre a desproporcionalidade das condições de trabalho entre artistas mulheres e homens, confirmando sua tese de que “as mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro do tamanho natural”.

Um Retrato Simbólico Dela e Meu (1926), desenho atribuído a Nadja por Breton (Foto: Divulgação)

Após um longo preâmbulo em que o narrador deambula por Paris, atravessando acontecimentos fortuitos, Nadja é introduzida como a revelação do sentido de vida, a ideia-limite surrealista, “o evento que cada um de nós está no direito de esperar”. Ela surge em uma aparição digna de sonho e cinema, sob uma explosão de plumas de pombas, que caem como a neve e, ao tocar o chão de cacos de telhas, ganha a cor do sangue. Nesse sentido, a poesia de Breton busca a mulher mítica pré-patriarcado e se alinha com os antigos europeus que, segundo James Frazer, em The Golden Bough (1890), acreditavam que havia algo de sagrado nas mulheres e, portanto, consultavam-nas como a oráculos.

Mas a crítica de Woolf sobre a parcialidade do conhecimento que um escritor homem tem da mulher – apesar de esta estar entre seus temas de preferência – é incontornável durante a leitura de Breton. Ela revela-se na sequência de descrições redutoras que o poeta surrealista faz de sua musa, detendo-se em problemas menores como a maquiagem mal-acabada dos olhos, ou reduzindo-a a uma “verdadeira esfinge sob as formas de uma jovem encantadora”. Também chamam atenção as similitudes entre as fragilidades de Nadja – a jovem doentia que o escritor se sente impelido a proteger – e de Virginia – antes de 1918, quando recebeu uma herança que lhe permitiu ter um teto todo seu para se dedicar à literatura com dignidade –, que sobrevivia “mendigando trabalhos ocasionais nos jornais, lendo cartas para senhoras idosas ou fazendo flores artificiais”. Nadja, ou Virginia Léona Camille Ghislaine Delcourt, não teve a mesma sorte que a autora de Orlando e não conheceu a artista que poderia ter sido. Em março de 1927, foi enclausurada em um manicômio, onde ficaria até o fim de seus dias, em 1941. Talvez o aspecto atemporal e realmente transcendente do livro de Breton seja a experiência urbana do narrador, que, ao deambular ao longo de 150 páginas, se relaciona com a Paris do passado – explorada pelo flâneur de Baudelaire – e do futuro – experimentada na deriva situacionista e na crítica anticapitalista que Guy Debord faria nos anos 1950-60. Nesse sentido, chama atenção o debate que o poeta surrealista trava com a sua “jovem encantadora”, em uma esquina da cidade, manifestando seu repúdio pelas “sinistras obrigações da vida”, a meritocracia e o trabalho cooptado pelo capital.

Nadja
de André Breton
Edições 100/cabeças
184 págs.
R$ 82

No Museu Grévin (1959), de Pablo Volta (Foto: Divulgação)