Mutirão é mobilização coletiva em benefício de uma comunidade. É forma de fazer o que é preciso e que não pode mais ser adiado. É construção de um tempo que ainda não há. No Recife, em 1960, um grupo heterogêneo de pessoas se juntou com um objetivo comum e principal: combater o analfabetismo que afligia a maioria das crianças e adultos pobres na cidade. Condição que estreitava os futuros possíveis dos mais novos e mantinha os mais velhos presos a empregos mal remunerados, além de impedidos de participar de eleições – à época, somente pessoas alfabetizadas possuíam direito a voto. Uma situação que reproduzia e ampliava desigualdades entre habitantes de um mesmo território. Aliando-se ao recém-eleito prefeito Miguel Arraes – primeiro no Recife a fazer do direito à educação pública uma prioridade –, o Movimento de Cultura Popular (MCP) contribuiu para a transformação radical da paisagem social da cidade. Com colaborações de gentes e instituições diversas, em pouco tempo logrou instituir uma até então inexistente rede municipal de escolas populares e um revolucionário programa de alfabetização de adultos. Mudanças logo atacadas por quem ganhava com a época de antes.

A exposição Mutirão apresenta uma história possível do MCP apoiada em fotografias, documentos e trabalhos de artistas que dele faziam parte. Oferece testemunho da construção de um futuro partilhado que, por breve momento, parecia ter chegado. E que, justamente por sugerir que outros arranjos sociais de vida eram possíveis, foi forçado a recuar. É história que atualiza, no tempo de agora, desejos de escrever a própria vida que foram frustrados. História que não se pode repetir, mas que inspira a invenção do que é hoje necessário.