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Jornal do Commercio de 18 de dezembro de 1960
Postado em 15/05/2024 - 5:21
No nosso passado, um futuro possível
Abre na Fundação Joaquim Nabuco a mostra MUTIRÃO, contando a história do MCP – Movimento de Cultura Popular

Mutirão é mobilização coletiva em benefício de uma comunidade. É forma de fazer o que é preciso e que não pode mais ser adiado. É construção de um tempo que ainda não há. No Recife, em 1960, um grupo heterogêneo de pessoas se juntou com um objetivo comum e principal: combater o analfabetismo que afligia a maioria das crianças e adultos pobres na cidade. Condição que estreitava os futuros possíveis dos mais novos e mantinha os mais velhos presos a empregos mal remunerados, além de impedidos de participar de eleições – à época, somente pessoas alfabetizadas possuíam direito a voto. Uma situação que reproduzia e ampliava desigualdades entre habitantes de um mesmo território. Aliando-se ao recém-eleito prefeito Miguel Arraes – primeiro no Recife a fazer do direito à educação pública uma prioridade –, o Movimento de Cultura Popular (MCP) contribuiu para a transformação radical da paisagem social da cidade. Com colaborações de gentes e instituições diversas, em pouco tempo logrou instituir uma até então inexistente rede municipal de escolas populares e um revolucionário programa de alfabetização de adultos. Mudanças logo atacadas por quem ganhava com a época de antes.

Lição do Livro de Leitura para Adultos (1962), pelas educadoras Josina Maria Lopes de Godoy e Norma Porto Carreiro Coelho [foto: acervo Germano Coelho e Norma Coelho]
As ações do MCP não se restringiram, contudo, à educação formal, ainda que isso já fosse tanto. Desdobrando-as por vários campos, criou galeria de arte e treinou artistas e artesãos; formou grupo experimental de teatro e colocou em palco questões que antes não eram encenadas; contribuiu para a criação de um embrionário cinema popular; aliou letramento e assistência médica; construiu praças e centros de cultura, onde lazer e aprendizado se avizinhavam. Adotou, portanto, ideia de educação integral e comunitária que atravessava disciplinas e que tinha, como objetivo maior, criar condições para a emancipação política de uma população por longo tempo tutelada. A partir de 1963, com a eleição de Miguel Arraes para o Governo de Pernambuco, o MCP foi convocado a irradiar, para todo o estado, a exitosa experiência de atuação na capital. A possibilidade de alfabetizar milhares de trabalhadores rurais – tornando-os, com isso, cidadãos autônomos e com direito a voto – fez também crescer, contudo, a oposição ao Movimento por parte dos que não admitiam mudanças nas excludentes estruturas sociais que vigoravam. Em abril de 1964, o golpe civil-militar poria fim, com violência, a um dos mais originais projetos de educação popular já testados no Brasil.

A exposição Mutirão apresenta uma história possível do MCP apoiada em fotografias, documentos e trabalhos de artistas que dele faziam parte. Oferece testemunho da construção de um futuro partilhado que, por breve momento, parecia ter chegado. E que, justamente por sugerir que outros arranjos sociais de vida eram possíveis, foi forçado a recuar. É história que atualiza, no tempo de agora, desejos de escrever a própria vida que foram frustrados. História que não se pode repetir, mas que inspira a invenção do que é hoje necessário.