A cuia é o fruto da cuieira (Crescentia cujete), árvore originária da América Central, introduzida na América do Sul através da Amazônia. Por essa trajetória, a cuia é um símbolo perfeito da Bienal das Amazonias, que nasce em 2023 do desejo de criar uma plataforma de diálogos artísticos entre territórios Pan-Amazônicos e Caribe.
Diz-se que nas várzeas amazônicas é raro encontrar uma casa sem dois pés de cuieira no quintal. “Ela varre a Amazônia do Atlântico ao Pacífico e é o elemento de encontro de tradições indígenas e afro-descendentes”, diz Sara Garzón, historiadora da arte colombiana, curadora adjunta da segunda edição do evento, Verde-distância, que tem curadoria geral da equatoriana Manuela Moscoso e inaugura nesta quarta 27, em Belém.
A cuia é elemento central da pesquisa de Roberto Evangelista (1946-2019), artista homenageado pela mostra. Em seu filme Mater Dolorosa In Memoriam II (1978), ela é a representação do círculo, origem de todas as formas. Gravado no Rio Negro e produzido pela TVE Amazônas, o filme aborda a geometria da cuia e de outras “formas prototípicas”. Como o quadrado, que surge da intersecção de paus na estrutura das casas de pau a pique; o triângulo, que faz a mediação entre os seres do céu e da terra; e a linha, que está nos traços das populações indígenas e ribeirinhas.
O círculo e o triângulo também estruturam a instalação Nike Uiikana (1989/2025), que Evangelista realizou em colaboração com Regina Vater. “Sobre as cuias de Roberto eu fiz uma chuva de penas”, diz Vater à celeste. “Conheci o Roberto em 1984, quando editei uma edição da revista Flue, com trabalhos de artistas experimentais latinoamericanos e depois colaboramos em vários projetos”.
Evangelista, a quem a curadoria de Verde-distância confere o devido lugar entre as pioneiras da experimentação com vídeo no Brasil – ao lado de Regina Vater, Letícia Parente, Sonia Andrade, Regina Silveira, entre outros – tem três obras apresentadas na bienal. Uma delas é a performance coletiva Resgate (1992), que será reencenada no sábado, 30, em colaboração com a família do artista.
Do tukano, o título Nike Uiikana pode ser traduzido por “união dos povos”. Composta por centenas de cuias pousadas no chão, de onde se projetam feixes de penas de pássaros, formando um triângulo, a obra é uma homenagem a Chico Mendes, seringueiro e ativista ambiental acreano assassinado em 1988. Mas também aponta para futuros compartilhados.
