Terra, o pavilhão brasileiro que recebeu o Leão de Ouro na 18ª Bienal de Arquitetura de Veneza, parte do presente para pensar o passado e projetar o futuro, utilizando a temática da terra como elemento poético e concreto. Trata-se de um trabalho que, segundo os curadores Gabriela de Matos e Paulo Tavares, é um convite para que o público reconheça o Brasil e o mundo enquanto solo, território e sistema integrados com todas as formas de vida, humanas e não humanas.
A terra, de fato, aparece como elemento marcante e que assenta o público no discurso reflexivo e sensorial proposto pela curadoria. O piso do pavilhão, completamente revestido com barro, remete às tradições indígenas e afro-brasileiras do chão de terra batida presente nas habitações, nas casas cerimoniais e nos terreiros de Norte ao Sul do país. O pavilhão brasileiro é um reflexo do programa estabelecido pela mostra internacional, que tem curadoria da arquiteta, professora e escritora de origem ganense e escocesa Lesley Lokko, e intitula-se Laboratório para o Futuro, tendo como temas a África e a diáspora dos povos africanos para as Américas.
Abordando temáticas emergenciais, não apenas em nível local, mas também global, é a primeira vez que o Pavilhão Brasil é premiado na Bienal de Veneza. Igualmente inédita era a presença indígena e afro-brasileira nas exposições apresentadas pelo país em seu espaço expositivo em uma das principais mostras internacionais de arquitetura. Utilizando todas as salas do pavilhão brasileiro, Terra é uma instalação do tipo site-specific dividida em três partes: Sankofa; De-colonizando o Cânone; e Galeria: Lugares de Origem, Arqueologias do Futuro.
MUDAR A ORDEM DAS COISAS
O projeto tem início do lado de fora do pavilhão. Em contraste com a fachada de linhas retas modernistas, foram fixados dois gradis de ferro típicos da arquitetura urbana brasileira. A intervenção, intitulada Sankofa, traça a linhagem desse elemento popular com o conjunto de ideogramas Adinkra pertencente aos povos Akan, de Gana. Sankofa é um desses signos e seu significado remete à ideia de voltar atrás e buscar o que ficou esquecido.
Projetado pelo arquiteto Henrique Mindlin, em 1959, o pavilhão foi construído em um período de afirmação de uma suposta identidade brasileira em âmbito internacional e segue o padrão da arquitetura modernista com materiais e elementos que caracterizam esse estilo. A sala De-colonizando o Cânone, composta de um vídeo e imagens de arquivo da construção de Brasília, propõe uma reflexão sobre o discurso que estabelece o modernismo como padrão da identidade arquitetônica brasileira. Colocando-se como uma contranarrativa, a exposição centra foco em uma disputa por terra pouco debatida no Brasil, na longuíssima desapropriação sofrida por povos indígenas e nas comunidades quilombolas do território no qual foi erguida Brasília.
A região era habitada por povos indígenas que foram obrigados a se deslocar para o oeste e para o norte, na medida em que a colonização portuguesa avançou para o interior. Atualmente, a capital faz fronteira com duas comunidades quilombolas: ao sul com o Quilombo Mesquita, com uma história de 300 anos; e ao norte com a maior comunidade quilombola do país, o Território Kalunga. Membros de ambas as coletividades trabalharam na construção da cidade.
TERRAS TRADICIONAIS E ANCESTRAIS
A sala Galeria: Lugares de Origem, Arqueologias do Futuro busca dar voz às populações indígenas e afro-brasileiras e sugerir novas chaves de leitura para a definição de bem cultural. Ao público é apresentado um conjunto de marcos de memória que, exatamente por serem considerados referências fundamentais para essas populações, foram tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Brasileiro (Iphan).
Lugares e práticas como o Cais do Valongo, a Cachoeira do Iauaretê dos povos Tukano, Arawak e Maku e o Terreiro da Casa Branca (Ilê Axé Iyá Nassô Oká) são compartilhados como instrumentos que podem ajudar a enfrentar os amplos desafios ecológicos e materiais que se apresentam para o futuro e para a sustentabilidade em bases culturalmente diferenciadas, tanto em âmbito local quanto global.
Terra
Até 26/11
Pavilhão do Brasil na 18a Mostra Internacional de Arquitetura – La Biennale di Venezia
Veneza, Itália
