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Alfredo Jaar, Eu e Você e os Outros, 2020. Foto: Marília Camelo / cortesia Pinacoteca do Ceará
Postado em 01/09/2026 - 5:23
O corpo coletivo de Jaar
Em exposições em Fortaleza e São Paulo, obras do artista chileno transcorrem dos desastres da guerra e da violência ditatorial até a beleza imperceptível da luz

Cinco anos depois de Lamento das Imagens, a exposição que reuniu a pesquisa de Alfredo Jaar sobre a construção e a obstrução política da imagem, no Sesc Pompeia, São Paulo, o curador Moacir dos Anjos volta a dialogar com o artista chileno, desta vez usando como chave de entrada à obra o olhar empático sobre o outro. Você e Eu e os Outros, na Pinacoteca do Ceará, toma emprestado o título de uma obra realizada em 2020 para propor um trajeto ao longo de 16 obras de Jaar.

Três cubos recepcionam o público: um de vidro translúcido, outro construído com espelhos e o terceiro composto de camadas vítreas. Este último remete a outro cubo, de tamanho ínfimo e seccionado em dez partes, que não está em Fortaleza, mas em uma grande sala de iluminação vermelha, no Arsenale da 61ª Bienal de Veneza, até novembro de 2026. Não fui à Veneza, mas comento com o artista que, nas fotografias do livro do projeto The End of the World, que ele me mandou, a obra nunca está isolada, mas cercada por pessoas atentas, intrigadas, que interagem com ela. Comento que, nesse trabalho, os “outros” que estão em relação no espaço são parte da obra. Por isso, associo The End of the Word à Você e Eu e os Outros. “Sim, o cubo é a obra principal, mas está dentro de um espaço que também comunica”, diz Jaar à celeste. A entrevista que sucedeu esse diálogo será publicado na celeste #11.

Voltamos a Você e Eu e os Outros, o trabalho escolhido como lente de contato para a postura ética de Alfredo Jaar em relação à dor do outro. Curador e artista me explicam que os cubos podem ser vistos tanto como um autorretrato quanto como metáforas de diversos ângulos de visão sobre si mesmo e os demais. Por mais enigmáticas que essas geometrias possam ser à primeira vista, elas falam sobre formas de olhar. Com Jaar, afinal, estamos sempre nos campos do visível e do invisível: do que podemos ver, do que somos privados de ver ou do que não conseguimos ver.

 

Maravilho-me do que Consegui não Ver (2026), a frase roubada do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, composta na forma de um néon e posicionada sobre uma janela no hall de entrada do belo edifício da Pinacoteca, é uma espécie de declaração de amor às belezas imperceptíveis. Do outro lado da janela, no pátio interno, A Luz do Nosso Céu (2026), realizada especificamente para Fortaleza, é um grande objeto especular para observar o céu. Reflete o azul, o branco, o preto estrelado, a velocidade do vento que sopra as nuvens. É um cinema celeste. “Aqui está o otimismo que não está no Fim do Mundo”, me diz Jaar.

Nem no Fim do Mundo, nem em muitas outras de suas obras icônicas, de fato. Como Buscando pela África em Life (1996), instalação composta pela reprodução de todas as capas da revista semanal Life entre 1936 e 1996. A obra que está na segunda sala da exposição exibe na parede todas as 2.128 capas dessa revista – das quais, apenas cinco referem-se ao continente africano e todas exibindo imagens de animais ou paisagens.

“Essa revista é uma demonstração do racismo da imprensa ocidental em relação ao continente africano. Foi criada por um grande editor norte-americano chamado Henry Luce, que depois criou outras grandes revistas e praticamente inventou o fotojornalismo. Ele enviava a fotógrafos a Cuba, China, Vietnã, a trazer imagens para que o norte-americano fosse informado do que ocorria no mundo”, conta Jaar, que tem as imagens da imprensa como uma das linhas centrais de sua pesquisa artística. “As pessoas cresceram com essa revista que por 60 anos chegou semanalmente em suas casas, sem se darem conta de como ela talhou sua concepção ideológica de mundo. Desumanizaram completamente um continente inteiro. Então, quando ocorreu o genocídio em Ruanda, não fizeram nada, porque a África não existia para eles”.

Definitivamente, não há nenhum otimismo em Buscando pela África em Life (1996), mas há realismo crítico. No entanto, algo aconteceu na montagem desta exposição que impactou diretamente o trabalho: ele foi colocado ao lado do neón Amílcar, Patrice, Franz e Fela (2016), homenagem de Jaar a pensadores negros que foram decisivos para movimentos de libertação e descolonização da África e muitas outras partes do mundo. Esses trabalhos foram realizados com 20 anos de diferença e nunca haviam sido colocados lado a lado. “A obra sobre a obscuridade que cobria o mundo sem mostrar a realidade agora está diante de outra que ilumina grandes intelectuais africanos. Nunca tinha me ocorrido, mas elas poderiam ser um díptico!”, diz Jaar.

Desastres da guerra

As quatro obras presentes na apelidada “sala de África” tecem relações importantes entre si. Seis Segundos (2000) é o último trabalho de uma longa série que consumiu coração e mente de Alfredo Jaar. O Projeto Ruanda (1994-2010) foi uma resposta do artista ao silêncio e à indiferença do mundo em relação aos desastres de uma guerra civil-militar africana. Ele passou seis anos em trabalhos de campo e pesquisas remotas sobre um confronto entre etnias que resultou na morte de 1 milhão de pessoas em 100 dias. Muita documentação fotográfica foi produzida pelo artista, mas nos 25 trabalhos realizados, nenhuma imagem foi utilizada. Nenhuma pessoa ferida ou morta, nenhum corpo mutilado foi exposto. Apenas uma fotografia foi utilizada: uma menina. Uma menina de costas, fora de foco.

O texto por trás da imagem importa. O texto da legenda da obra e da fala do artista, durante a visita guiada me diz: a menina que está na única fotografia utilizada no Projeto Ruanda havia sido abordada pelo artista. Mas antes que ele pudesse registrar seu nome, ela lhe deu as costas e se afastou bruscamente, procurando os pais, que haviam sido mortos no conflito. Seis segundos foi o tempo do encontro entre artista e menina. O registro que ele conseguiu fazer, ao apertar instintivamente o botão de uma pequena câmera pendurada no pescoço, saiu desfocado. “É a metáfora da impossibilidade de representar a dor do outro”, diz Jaar. “Me dei conta da minha incapacidade, como artista chileno que vive em Nova York e mostra o Projeto Ruanda em Paris para franceses, de contar essa história como testemunha”.

Momentos de violenta lucidez como este fazem da exposição de Alfredo Jaar um lugar de reflexão e aprendizado. Seis Segundos revela o Jaar fotógrafo diante do dilema ético e moral de outro fotógrafo: o sul-africano Kevin Carter, o autor da fotografia de uma criança faminta, vítima de outra guerra civil africana, para a qual Jaar construiu uma instalação. Sobre esse trabalho, conversei longamente com ele no documentário Alfredo Jaar: A Imagem Única, que realizei em 2023. O episódio da série Metareal: Fato, Farsa e Ficção na Arte acompanha o artista durante uma semana de estadia em São Paulo, para as montagens de uma instalação na Bienal de São Paulo e da exposição no Sesc Pompeia. Eu e o co-diretor Ricardo van Steen propusemos um jogo: Jaar deveria analisar o noticiário nacional e internacional ao longo de sete dias e escolher apenas uma imagem que representasse o momento geopolítico e social daquele momento.

Vidas que importam

A terceira sala da exposição, apelidada por Jaar de “sala da América Latina”, apresenta trabalhos sobre a(s) América(s), realizados desde 1982, ano em que se instalou na cidade de Nova York. Estão ali trabalhos críticos que abordam questões de fronteira, imigração, linguagem e relações de poder internacionais desiguais, como, por exemplo, Um Logo para a América (1987), vídeo transmitido em um telão do Times Square contra-argumentando o senso comum local de que Estados Unidos é a América. O mapa dos EUA com a frase This is not America é a imagem mais apropriada e reproduzida entre todas as obras de Jaar, que afirma ter perdido completamente o controle sobre essa obra e os contextos aos quais ela é associada.

A individual do artista na galeria Luisa Strina, O Lado Escuro da Lua, se articula aos trabalhos da América Latina expostos em Fortaleza. Em São Paulo, Jaar expõe uma seleção contundente dos trabalhos da juventude, realizados em Santiago do Chile, à sombra de Pinochet. São projetos que desvendam os impactos da ditadura militar (1973-1990), como September, 11thStudies of Happiness, trabalho de linhagem conceitual e sociológica, em espaço público, em que o artista abre o microfone para recolher depoimentos sobre a vida no Chile e mostrando que o compromisso com o próximo é constitutivo do trabalho de Jaar desde a página um de sua trajetória artística.

Vista da exposição O Lado Escuro da Lua, de Alfredo Jaar, na galeria Luisa Strina, em São Paulo. Foto: Julia Thompson/cortesia Luisa Strina
Alfredo Jaar, Public Interventions (Studies on Happiness: 1979-1981), 1981. Foto: cortesia Luisa Strina

A instalação multimídia 06.01.2020 18.39 (2022) é um ponto final surpreendente de Você e Eu e os Outros. O título reproduz a data e a hora de uma intervenção policial violenta sobre uma manifestação pública pacífica ocorrida, em Washington, em repúdio ao assassinato de George Floyd, homem negro de 46 anos assassinado por policial branco em Minneapolis, após ser imobilizado no chão e ter o pescoço pressionado por nove minutos. Por meio de imagens, sons e vento, a instalação cria um ambiente para que os visitantes sintam, em seus corpos, algo que os manifestantes também sentiram.

O filme projetado nesse cinema de vento foi montado a partir de oito diferentes fontes de imagens: oito câmeras de telefone celular de oito manifestantes. Oito cidadãos indignados, amedrontados, insultados pela violência do poder público. Ao produzir esse cinema-montagem a partir dos olhares dos outros, transformando-os em um só filme, uma só estética, um só grito, Jaar dá um corpo coletivo a Você e Eu e os Outros.

Alfredo Jaar, 06.01.2020 18.39, 2022. Foto: site do artista