Yiftah Peled é um artista caminhante. Tanto no sentido da arte ambiental, do encontro com a paisagem e de sua alteração com fins artísticos, como na acepção situacionista da deriva urbana e da afetação que a cidade imprime sobre a subjetividade artística. A exposição Se Encruzilham os Destinos?, que esteve em cartaz entre 10/6 e 17/8 deste ano na Galeria OÁ, em Vitória (ES), e celebrou 35 anos de trajetória de Peled, apresentou vários dos caminhos e caminhadas que constituem a pesquisa do artista.
Bem disse Nêgo Bispo que quem nunca passou por uma encruzilhada não aprendeu a escolher caminhos. O nomadismo de Yiftah, que nasceu em Israel, morou no interior do Paraná logo que chegou ao Brasil, depois em Curitiba, em Florianópolis e há 15 anos vivendo em Vitória, explica porque ele fez da encruzilhada um verbo. Quis o destino que se encruzilhassem na galeria OÁ o percurso em uma praia, um trajeto recorrente pela Avenida Vitória, o encontro com o meridiano de Greenwich desenhado em metal parafusado ao chão na Inglaterra, uma série de percursos registrados em marcas no solo deixadas pelos caminhantes, a linha da vida, as arestas de um quadrado.

Os seis trabalhos aqui descritos ganham visualidade na exposição por meio de fotografias, vídeo, escultura e desenhos na parede. O que têm em comum é o traçado de uma linha, seja ela real, simbólica ou fictícia: Sombras Brancas (2021) é um vídeo que registra o traçado na areia da praia feito pela roda de uma bicicleta, vista como sombra no chão; Fígaros (2026) é um conjunto de registros fotográficos de correntes entrelaçadas dispostas ao longo da Avenida Vitória, em montagem de acrílico sobre estruturas de madeira que formam outra linha no espaço da galeria; Meridia/nós (2020-25) é uma instalação composta da imagem de um fragmento da linha reta fixada ao chão no Museu de Greenwich e de um acréscimo em bronze na borda da fotografia; Encruzilhadas (2010-25) é uma montagem em linha de fotos das marcas no solo de percursos sinuosos que subvertem as linhas racionais do traçado urbano; Linhas do Destino (2023) são esculturas que reproduzem as mãos de ativistas alimentares, das quais a continuidade da linha da vida é desenhada na parede; e Quadrado/Gordura (2026) são quatro linhas ortogonais traçadas sobre a parede.
ANOMALIA GEOMÉTRICA
Um elemento perturba a racionalidade das quatro arestas do quadrado. Enganchado a uma protuberância que se projeta da planaridade da parede, um adipômetro (instrumento de medição da gordura no corpo) chama a atenção do visitante para a anomalia naquela figura geométrica. O que poderia significar essa “gordurinha” no quadrado? Considerando que as convenções matemáticas possibilitam calcular com objetividade todas as variáveis de um espaço poligonal, um volume insurgente ali representa desordem. Ao evidenciar os excessos que transbordam da lógica, e porque manifestamente a gordura presentifica o corpo, Peled denuncia duplamente a violência da racionalidade. Foi essa razão abstrata, descorporificada, que embasou o projeto colonial.

Outras convenções são alvo da denúncia de Peled sobre a presença de um corpo oculto sob a abstração matemática: Metro/Gordura (2021) e Cubo/Gordura (2010-20) são esculturas exibidas sobre pedestais supostamente neutros, cada qual com o seu adipômetro. Vemos o instrumento de medição destacando uma saliência de um paralelepípedo de um metro. O cubo é o epítome da razão geométrica. Tomemos como parâmetro as obras Cubo de Condensação (1963-1968), de Hans Haacke; Quatro Cubos Espelhados (1972), de Robert Morris; e Taj Mahal e a Possibilidade do Amor na Era do Cubo Epistemológico (2001), de Gustavo Rezende. Do minimalismo desenhado para excluir o corpo e a subjetividade ao encaixe de blocos de mármore brancos e pretos com uma caixa de Prozac no meio, lemos um percurso emblemático que
desemboca nas obras de Yiftah Peled.
