“(…) quando desenho, sou mais livre – nos temas, na forma, na técnica. O desenho é mais fácil de lidar, posso jogá-lo fora se deu errado, libertar-me dele. De uma xilogravura, não. Feita, ela permanece nos sulcos da madeira.”
[Wilma Martins em entrevista no Diário de Notícias, 1967]
Gravadora, desenhista, pintora, ilustradora, figurinista e diagramadora, Wilma Martins nasceu em Belo Horizonte, em 1934, e faleceu no Rio de Janeiro, no ano passado. Há alguns anos, um projeto de exposição de suas gravuras vinha sendo planejado, mas foi interrompido pela pandemia de Covid-19. Retomado como homenagem, tornou-se a primeira mostra da obra da artista após a sua morte. Wilma Martins: Território da Memória inaugurou ontem, dia 28/6, no Paço Imperial, Rio de Janeiro.
Com curadoria de seu marido, Frederico Morais, cuja grandeza dispensa apresentações, e da historiadora da arte Stefania Paiva, grande amiga e pesquisadora da obra de Wilma, a mostra recebe o público com o visual impactante da xilogravura. Entre o preto e o branco dominantes, somente tons de vermelho têm vez. Ao passo em que nos aproximamos, o volume aumenta e a obra vai construindo a sua gravidade, exigindo que cheguemos mais perto e silenciemos a mente para nos concentrarmos em seus mundos perturbadores.
Mais que gravadora, Wilma Martins foi uma xilogravadora. Entre 1953 e 1956, a mineira frequentou a Escola Guignard, onde estudou esta técnica com Misabel Pedroza, além de desenho e pintura, com o próprio Alberto da Veiga Guignard. Em 1960, aproximou-se brevemente da gravura em metal, em um curso intensivo com Anna Letycia, que chegou a lhe escrever, em uma carta, que gostaria de tê-la convencido a continuar nesta outra técnica.
VEIA POPULAR PULSANTE
Para nossa sorte, a imprevisibilidade da ação do ácido sobre a placa de metal não agradou Martins, que dizia ter preferência pela ação direta e pela independência proporcionada pela xilo. No embate com a madeira, sua formação foi decisiva para a obra que construiu. Com Misabel Pedroza – artista com a qual a história da arte brasileira está em dívida –, pôde conhecer uma xilogravura particular. Misabel foi introduzida à arte por sua mãe, a pintora Olga Mary que, por sua vez, teve como professores Henrique Bernardelli e Eliseu Visconti. Sua veia familiar acadêmica mesclou-se à paixão pelo folclore, que se tornou uma referência não apenas temática, mas, também, técnica, por meio das xilogravuras que compõem a literatura de cordel.
Ao estudar esta técnica com Misabel, Wilmar Martins pôde acessar a xilogravura de veia popular pulsante, que sobrepujava a genealogia industrial das artes gráficas. A este aprendizado, somou-se o desenho disciplinado de Guignard que, na xilo, podia ser gravado sem riscos de insubordinação. Toda a rebeldia de Martins ficou reservada à temática, uma subversão sofisticada que passou incólume pela ditadura militar, mas não pela censura da crítica.
Vejamos, por exemplo, o conjunto exibido na 9ª Bienal de São Paulo, em 1967, que recebeu o Prêmio Itamarati. Três, das quatro obras, integram a atual exposição: O Poço, Carne e Medo, todas de 1967. O acentuado teor erótico do trio é uma armadilha no jogo visual da artista. Não há qualquer sensualidade. Os corpos nus, por vezes, podem ser vistos, ao mesmo tempo, por dentro e por fora. Têm falos nem sempre eretos, seios com não mais tanto colágeno e ossos aparentes. Os rostos expressivos demonstram desconforto, medo, indiferença, mas, jamais, prazer. E os corpos, apesar das várias correspondências humanas, são híbridos, seres fantasiados por Wilma Martins, com partes e posturas de animais. Eles são engolidos entre insetos, aracnídeos, dragões e tantos outros “bichos”, que não caberia listar aqui.
BARROCO MINEIRO E FEBRE POP
Apesar do explícito desconforto diante da cobrança por explicar o próprio trabalho – em certa ocasião, declarou: “Se eu gostasse de dar entrevistas, não precisava pintar” –, a artista já atribuiu seu repertório à mitologia cristã e ao imaginário medieval. Frederico Morais adiciona o peso do barroco mineiro. Aqui, respeitosamente, ouso incluir o folclore e a cultura popular. Certa sempre esteve Martins, pois as palavras são mesmo uma bobagem. Em O Poço (1967), os anjos barrocos dividem espaço com a febre pop da época, que tem lugar com um super-herói mascarado, com direito a capa, sunga e um sorriso simpático, raríssimo entre as emoções gerais.
A crítica não perdoou e não haveria prêmio capaz de salvar uma artista mulher que investe em temáticas fantásticas e, muito menos, recheadas de erotismo – como outra Martins imperdoável, a Maria. Wilma pagou, ainda, o preço por desenvolver seu trabalho sobre papel, em gravura e em preto, branco e raros vermelhos. Se ainda tivesse cor, talvez, tivesse sido colocada ao lado de Tarsila. Imaginem esses seres, super detalhados, sobre tela e ultra coloridos? Ia ser sucesso de público – e de crítica. Wilma Martins seguiu fiel a si mesma, como diversos amigos não cansaram de admirar, ao longo de sua trajetória.
Em 1974, a Galeria Graffiti foi inaugurada, no bairro de Ipanema, Rio de Janeiro, com uma nova fase da obra da artista, que se tornou a série Cotidiano: desenhos que têm delicados ambientes domésticos, insossos e sem cor, como cenários, e animais coloridos como protagonistas. Sem hibridismos, trata-se, realmente, de jacarés, tigres, bodes, ursos, entre outros animais, que invadem casas, sobem em camas, tomam banho na banheira, bisbilhotam arquivos etc.
PARASSURREALISMO
Para Francisco Bittencourt, a mudança foi radical. Em sua coluna, na Tribuna da Imprensa, avaliou que a artista teria deixado “uma gravura de forte acentuação dramática” para “um clima de invocação da vida selvagem” e “uma alegria vibrante”. A mostra foi considerada uma das melhores de 1974 por diversos críticos de arte, como Olívio Tavares Araújo, que justificou sua escolha, na revista Veja: “Inesperado e excitante retorno da gravadora mineira Wilma Martins, após uma fase de ausência. Sobretudo nos desenhos, Wilma surpreende com trabalho de um insólito clima parassurrealista e de uma limpidez admirável”. No texto “Retrato-autorretrato da artista” (em Wilma Martins – Retrospectiva, editora Tamanduá, 2014), Frederico Morais recorda o interesse instantâneo e constrangedor pela obra da artista. O pudor ou o medo de antes deram lugar à uma corrida para conseguir uma entrevista: “De repente, todos queriam saber mais de Wilma, de sua vida, de seu habitat, do que pensava e do que fazia além de desenhar e pintar”.
Sem negociar a timidez e a aversão às boas maneiras para se tornar uma artista de sucesso, casada com um dos críticos de arte mais importantes do país, a mineira seguiu trabalhando. No presente texto, optei por destacar sua xilogravura, mas há outras fases que estão presentes em Wilma Martins: Território da Memória, como a história pictórica de amor, tão fantástica quanto a sua xilogravura, entre ela e a sua casa-ateliê-obra. Wilma Martins merece muito mais e o momento é oportuno para a arte brasileira se redimir, diante da imensidão dessa grande artista. Um bom começo é ir prestigiar a exposição, que fica em cartaz até 20 de agosto de 2023.
Daniele Machado é historiadora da arte.