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Vista da exposição Vozes Tecidas, com obras da série Coágulos (2026), de Ilka Lemos [Foto: Antonio van Moorsel / cortesia Galpão 556]
Postado em 21/07/2026 - 4:32
O fio da linguagem
Ao reunir obras que tem o tecido como matéria prima principal, Vozes Tecidas mostra como o gesto de tecer cruza a história e a produção de mulheres

Torcer, cruzar, trançar, tensionar, rasgar, costurar, remendar. Durante séculos, esses gestos foram naturalizados como extensões do corpo feminino, convertendo o trabalho têxtil em uma prática simultaneamente doméstica, produtiva e invisível. Na mitologia, Penélope suspende o tempo ao tecer e desfazer seu tecido; Ariadne transforma um novelo em dispositivo de orientação; Moiras fazem da fibra a própria matéria do destino.

Mesmo na Bauhaus, a escola alemã fundada por Walter Gropius em 1919 que revolucionou o ensino da arte ao integrar arte, design e arquitetura, muitas artistas foram direcionadas à oficina de tecelagem. Classificada como arte aplicada, a técnica permanecia abaixo da pintura e da escultura na hierarquia artística da época. É essa longa tradição que Vozes Tecidas, exposição em cartaz no Galpão 556, com curadoria de Kátia Salvany, recupera ao reunir o trabalho de 12 artistas, que trabalham sobretudo com tecido.

Essa perspectiva torna-se evidente já na pintura mural de Raquel Fayad, que ocupa as paredes da galeria com longas pinceladas vermelhas que remetem a fios. Entre elas surgem frases como “o amor nos move”, “amar dá trabalho” e “achou que o mundo estava evoluindo?”. Mais do que um elemento cenográfico, o mural estabelece uma trama discursiva para toda a exposição. Não por acaso, essas palavras compõem um texto – do latim textus, tecido – que oferece uma chave de leitura para as obras.

O vermelho da pintura de Fayad também destaca a paleta de cores escolhida pelas artistas. O tom predomina nos trabalhos de Karine de Souza, Ilka Lemos e na toalha bordada por Alessandra Vetorazzi, cujas bordas são preenchidas por milhares de pequenos pontos vermelhos, enquanto o centro da peça se dissolve. Mesmo frágeis e destramados, os fios continuam sustentando a obra suspensa no espaço.

Se ali, entre as linhas, instala-se um vazio, as obras de Lilian Grunenbaum seguem em direção oposta. Tranças dão origem a estruturas únicas e sólidas. Desse gesto emergem formas circulares e relevos orgânicos, nos quais a trança deixa de ser apenas técnica para tornar-se linguagem.

Nem todo fio, porém, precisa de costura. Alguns precisam se sedimentar. Beatriz Mazer sobrepõe as massas de fibras que se unem por meio da feltragem. Com essa técnica, cria superfícies espessas sobre as quais esculpe relevos orgânicos que evocam folhas, corais e outros elementos da natureza.

Dedeia Meirelles também parte do acúmulo. Suas esculturas macias são compostas por tecidos descartados, reunidos para ganhar novas vidas. Sobre tecidos já ornamentados, a artista acrescenta novas camadas de bordado e volumes, tornando visível o contraste entre o gesto manual e a produção industrial.

Quem também insiste em tornar visível a gestualidade da linha é Jussi Szilágyi. Formada inicialmente como pintora, a artista substitui a tinta pela linha para construir composições que embaralham as fronteiras entre pintura e arte têxtil. Cada obra constitui um nó distinto dessa trama maior, em que o fio deixa de ser apenas matéria para tornar-se linguagem.