“Há mais coisas entre o céu e a Terra, Horácio, do que sonha sua vã filosofia”, diz Hamlet num dos textos mais famosos de Shakespeare. A curadoria de Catalina Bergues para a nova coletiva da Galeria Lica Pedrosa propõe visões artísticas dessa afirmação pelas obras de Ary Perez, Marcos Cardoso e Michele Milan. Utopias para Céu e Terra está em cartaz até 1/7 na sede da galeria, no Jardim Europa, e até quarta, 17/6, no Taller Zaragoza, a poucos metros do endereço principal.
“A Lica Pedrosa já havia escolhido os três artistas, coube a mim pesquisar relações entre seus trabalhos”, explica Catalina Bergues, que integra a equipe curatorial do Instituto Tomie Ohtake. Para fazer a seleção de obras, ela tomou como premissa a afirmação do convidado Ary Perez de que a distopia é coletiva, mas as utopias são individuais. “A visão de distopia é algo compartilhado, mas cada um tem uma visão própria do que seria um mundo ideal”, opina Bergues.
O que visivelmente conecta as obras da exposição é a vibração de formas geométricas que tendem à circularidade e a circuitos espirais, o que poderia sugerir uma certa visão cosmogônica. Mas cada artista parte de materiais, organizações e poéticas bem diferentes.
A cerâmica é a matéria-prima das obras do engenheiro, arquiteto e artista visual Ary Perez, que se projetam espacial e verticalmente ou são sintetizadas em formas geométricas puras bidimensionais, como o triângulo e o círculo. Conhecido por coordenar, juntamente com Nelson Brissac, a edição Zona Leste do projeto Arte/Cidade (2002), Perez define sua produção como a “transição das utopias coletivas do passado para a construção de uma linguagem própria, que resulta numa utopia individual”.
É o caso de Amor Fati (2026), uma coluna robusta, composta de peças sobrepostas, que ascende em espiral na base e diversifica em múltiplas formas à medida que ganha altura. A peça faz valer a ocupação da grande sala do ateliê do pintor e publicitário José Zaragoza, que acolhe parte da mostra por tempo limitado. “Como eu já fazia grandes exposições antes de abrir a galeria, tinha essa vontade de retomar a exibição de peças de grande escala, por isso fizemos essa abertura dupla na sede e no anexo”, conta Lica Pedrosa.
Sobre Amor Fati, título que se apropria do conceito nietzscheano, Perez diz: “Todos os erros e falhas do passado não foram erros, foram as melhores escolhas para cada momento. Você passa de uma utopia coletiva, que é essa base, que desmorona, trinca, não se sustenta, construindo parte por parte até chegar ao topo, que é essa utopia individual. Esse é o mesmo processo da arte: aceitar os caminhos que você percorreu, com tropeços e afins”.
CÚMULO-NIMBOS DE MEMÓRIAS
Ao longo do espaço expositivo, a vocação arquitetural de Perez dá lugar ao rigor geométrico e à investigação de materiais nas composições de Marcos Cardoso, artista representado pela Galeria Lica Pedrosa e dono de uma trajetória artística singular.
Nascido em Maricá (RJ), aos 6 anos mudou-se com os pais para Paraty, onde tornou-se pescador. Foi para a capital fluminense cursar licenciatura em Desenho Geométrico, com planos de voltar a Paraty para dar aula depois de formado. Mas a arte falou mais alto. Em 1980, Cardoso foi “descoberto” pela artista Lygia Pape, que se interessou por um trabalho feito com bitucas de cigarro, exibido numa exposição na faculdade de Belas Artes do Rio de Janeiro. “Foi ela quem me falou que eu precisava fazer arte, que aquele trabalho era arte”, diz Marcos Cardoso à celeste. A partir de então, expôs sua pesquisa artística no Brasil e exterior, ao mesmo tempo em que atuava como artesão na confecção de alegorias para desfiles de escolas de samba, trabalhando com grandes mestres, como o carnavalesco Joãosinho Trinta.

A geometria livre e orgânica ganha vez no trabalho de Michele Milan, cuja evolução artística trouxe a mudança de matéria-prima. “Comecei minha trajetória fazendo trabalhos em papel. Com o passar do tempo, essas obras foram flutuando, formando móbiles, como esse que a curadora selecionou para mostrar”, conta Milan. Quando sentiu que tinha chegado ao limite do uso do papel, direcionou sua pesquisa para o material que dava estrutura aos móbiles, o metal.
Em outras esculturas e objetos expostos, fios metálicos retorcidos sugerem nuvens de memórias, em que se acumulam esferas, pingentes, botões e pequenos objetos das mais variadas origens. Agrupadas em cascata, pequenas esferas formadas por fios retorcidos são interpretadas por Catalina Bergues como “casulos que gestam novos mundos possíveis”.
Fortemente ligados pela geometria e a circularidade, mas diferenciados em técnicas e estéticas, os trabalhos de Utopias para Céu e Terra conduzem o observador a uma divagação visual ao longo de universos subjetivos e infinitos particulares.
Serviço:
Utopias para Céu e Terra
Galeria Lica Pedrosa
Rua Padre Manuel Chaves, 44, São Paulo
Até 1/7