Ainda que tenha argumentado o contrário, Marcel Duchamp reafirmou seu comprometimento com a arte por meio do jogo de xadrez. O jogo foi um procedimento readymade, que deu continuidade ao seu projeto de provocação à institucionalização da arte e ganhou centralidade na prática artística de muitas gerações seguintes, do situacionismo ao conceitualismo. Até hoje, o jogo dá as cartas. A.R., individual de Ana Kawajiri na OMA Galeria, é um desses exercícios lúdicos de revisitação metalinguística da arte conceitual por meio do jogo. Aqui, Duchamp, Nelson Leirner, Paulo Bruscky, Tristan Tzara e Yves Klein estão atuantes e são convidados a interagir com os trabalhos da artista paranaense, residente em São Paulo.
O jogo da memória de Ana Kawajiri começa em um gaveteiro enigmaticamente instalado no centro da galeria. À medida que são abertas, as gavetas revelam a densidade das camadas poéticas de Kawajiri. Além de mostrar-se uma artista arquivista, que investe em processos de categorização de objetos de uso cotidiano – especialmente papéis –, Kawajiri compartilha com o público sua metodologia de trabalho em rede. É por meio da poesia visual e da arte postal – o principal meio de colaboração entre artistas nos anos 1970-80, sob ditaduras e quando ainda não havia internet – que ela faz suas experimentações de linguagem com texto, desenho, colagem e pintura. Nascida em 1982, Kawajiri, há 20 anos integra fóruns de criação e discussão de arte postal.
F for fake
Abrimos a gaveta 3, que guarda um conjunto de obras em papel: um diálogo postal, real e ficcional entre Kawajiri, Nelson Leirner e Duchamp. A conversa parte de Fake Nelson Leirner (2002), cartão postal que falseia as colagens com stickers infantis da série Assim é se lhe Parece (2002-2003), de Leirner. No verso do cartão, enviado a dezenas de pessoas, uma mensagem sugere que se o destinatário convencesse Leirner a assinar o trabalho, este se tornaria uma obra original. Uma proposta em parentesco direto com o mestre iconoclasta. Esse projeto dá origem a outro, que parte de um experimento de desconstrução do título de Leirner, gerando a frase A.SIM.S.T.PAR.S, em paródia ao truque fonético no cartão postal da Mona Lisa com bigode, de Duchamp: L.H.O.O.Q (Elle a Chaud au Cul).
Por meio do humor, de jogos de palavras e do convite à colaboração, os trabalhos em A.R. (título que se refere tanto à sigla postal “aviso de recebimento” quanto a trabalhos de Duchamp – Air de Paris [1919-1964] –, de Klein e de Rubens Gerchman), ela replica e provoca os artistas de sua rede de referências. Nos trabalhos engavetados, como Operações Aleatórias, ela importa métodos alegóricos de movimentos como Dada e Fluxus. Procedimentos de rasura, desgaste e desaparecimento de originais são aplicados às pinturas das séries recentes Composições (2026) e De Composições (2026), que estão nas paredes da galeria. Com o uso de refugos de jogos de tabuleiro convertidos em stencils para a pintura, Ana constrói composições geométricas e mnemônicas. Seu trabalho, como uma esfinge, impõe enigmas aos visitantes.