Das experiências que produziram muitos sentidos neste ano de 2023, devo destacar a viagem que fiz ao Recife, em novembro, para acompanhar CapiDançaBaribéNois. O rito-instalação, concebido por Ernesto Neto para a Oficina Francisco Brennand, promoveu um espelhamento afetivo do desenho fluvial do rio Capibaribe e teve efeitos de irrigação e agregação sobre a geografia humana e artística da cidade.
Instalada no galpão Estádio, da Oficina Brennand, até meados de 2024, CapiDançaBaribéNois é uma escultura de 47 metros de comprimento, confeccionada em crochê e preenchida de folhas secas, em representação de uma jiboia. Mas é mais que isto. É um objeto permeável, poroso, que passou por uma centena de mãos até chegar ao seu destino final; foi tecida, dançada e carregada coletivamente em cortejo de três dias a partir da foz do Capibaribe. “O processo construtivo é um exercício de alimentação da escultura”, diz Ernesto Neto à seLecT_ceLesTe. “O processo é cheio de poesia, mas vocês sempre recebem a obra de arte pronta. Então, eu comecei a querer trazer esse lugar a público. O rio plantou essa ideia em mim.”

ENCONTRO COM O RIO
Que as cidades brasileiras nasceram nos rios e lhes deram as costas é sabido. Mas em Recife a história é um pouco diferente, porque a cidade, que surgiu como porto de Olinda, nos arrecifes da bacia de três grandes rios – o Capibaribe, o Beberibe e o Tejipió –, tem uma qualidade essencialmente fluvial, que está começando a ser resgatada em projetos públicos. Do tupi, Rio das Capivaras, o Capibaribe é onipresente no estado pernambucano. Nasce no agreste, em Poção, e ao longo de 248 km banha 42 municípios do estado e nove bairros do Recife, até virar mar.
CapiDançaBaribéNois convocou os participantes a molhar os pés nesse rio. Na praça redonda do Marco Zero, o cortejo ritualizou a orixá das águas doces. O Ponto de Oxum foi tocado, dançado e cantado pelos integrantes do Maracatu Real da Várzea, do Coco de Duas e do grupo Rivus, seguido por amigos, artistas, jornalistas e curiosos que, vestindo batas de tiras de chita colorida, tecidas em crochê de dedo, formaram um corpo-jiboia, rodando sob o sol forte de quase dezembro. “A dimensão da coletividade é presente desde sempre na obra de Neto. Ele faz parte de uma geração de artistas que entendeu que a instalação do trabalho é uma ação”, diz Clarissa Diniz, curadora da exposição, à seLecT_ceLesTe. “Em um primeiro momento, é a festa que tem a dimensão de rito, mas a experiência da floresta traz pra ele uma outra dimensão ritualística, menos anárquica, mais litúrgica, que tem um desenho”.


O desenho da escultura é revelado pelos participantes da roda que, depois de desenrolar o crochê, colocaram a jiboia na embarcação. Nas duas horas de navegação até o bairro da Várzea, onde está situada a Oficina Francisco Brennand, a escultura testemunha nas margens o retrato da desigualdade social do país. “O rio Capibaribe é um sujeito social, marcado por populações ribeirinhas”, continua Diniz. “É onde as pessoas encontram seu sustento, sua comida. Mas a poluição dele é fruto de um racismo também ambiental, no modo como essa poluição é organizada racialmente na cidade, com direito ou não ao esgoto, à moradia.”
Navega-se da pobreza extrema dos casarios de palafitas aos metros quadrados mais caros da cidade. “Os prédios aqui têm nomes que edificam a história açucareira, como Maison Casagrande”, diz o jornalista pernambucano Bruno Albertim, meu companheiro de viagem, ao passarmos por um bairro urbano que antes era engenho.
O cortejo é interrompido antes de chegarmos à área rural da cidade, na propriedade que um dia foi o engenho da família Brennand, na Mata da Várzea do Capibaribe, e que hoje é um jardim metafísico. Os convidados são convidados a desembarcar no Cais do Parque do Caiara para seguir de carro, enquanto o artista e a escultura continuam por rio, atravessando uma das áreas mais precarizadas e conflituosas da cidade. A Ilha do Bananal, bairro de Iputinga, vulgo comunidade do Detran, está conflagrada por gangues do tráfico. “Quando a gente começou a transitar pelo rio, ele trouxe um monte de circunstâncias. A circunstância da sujeira, a circunstância social”, diz Neto.

ALIMENTAÇÃO, AGREGAÇÃO E ACOLHIDAS
CapiDançaBaribéNois é uma ação generosa. Tanto no processo de construção coletiva, de assimilar e apresentar outros artistas, quanto em seu deslocamento. Em movimento similar à ação geológica da água do rio, que sedimentou a terra da cidade de Recife, a escultura-rito vem agregando muitas outras vozes do sertão e do agreste pernambucanos e da periferia recifense. Por exemplo, em vez de repisar o canônico “Cão Sem Plumas”, histórico poema de João Cabral de Melo Neto para o Capibaribe, o projeto traz à luz o cordel de Sula Patricio, poeta e agente de saúde da cidade de Vertentes, próxima à nascente do rio, que escreveu na parede os versos de seu cordel S.O.S Rio Capibaribe.


A canção “Paricida”, feita a partir dessa imagem – que depois se desdobra em fruta, jerimum, menino, mato, chão, terra, poeira, cor vermelha, cinza e verde –, me fez ver que CapiDançaBaribéNois também revela muitas Recifes. Ilumina, involuntariamente, outros acontecimentos da cidade, pelos locais onde passa. Como a exposição individual de Jeff Alan, que até 28/1 está em cartaz na Caixa Cultural, um dos edifícios históricos da praça Marco Zero, e que tive conhecimento porque participei na roda de maracatu no primeiro dia. As 57 pinturas da exposição Comigo Ninguém Pode mostram as feições e as texturas de personagens reais da periferia da cidade, “uma urbanidade recifense precariamente construída sob o amargo da cana de açúcar”, segundo o curador Bruno Albertim.
Se a escultura de Neto é, como ressalta Clarissa Diniz, uma estrutura que, como a água, não tem forma fixa – “uma forma em formação, eternamente, uma presença da água enquanto pensamento, um princípio da liquefação e da mudança” – faz todo sentido que este texto extravase suas bordas, se espraie e registre aqui esses outros caminhos aos quais, involuntariamente, ela me levou. Irrigações indiretas.

Paula Alzugaray viajou a convite da Oficina Francisco Brennand
Serviço
CapiDançaBaribéNóis, de Ernesto Neto
Até julho de 2024, Estádio, Oficina Francisco Brennand,
Propriedade Santos Cosme e Damião, Rua Diogo de Vasconcelos, s/n, Várzea, Recife, Pernambuco
ceramicabrennand.com