icon-plus
Frank Walter, Dipsomaniac, s.d. (detalhe). Foto: Eduardo Ortega / © The Frank Walter Family. cortesia Frank Walter Family, David Zwirner e Fortes D'Aloia & Gabriel
Postado em 29/09/2026 - 7:50
O sublime polifônico em Frank Walter
Obra do artista caribenho, no MAC_Bahia e pela primeira vez no Brasil, propõe a superação do binarismo ocidental

Há algo de explosivamente subversivo no trabalho de Frank Walter (Antígua, 1926–2009). A coexistência de forças em aparente contradição em prol de certa liberdade é uma das poucas premissas que se pode estabelecer na discussão sobre suas obras. Ainda que realizadas com interesses e em momentos diversos, as pinturas apresentadas na exposição Frank Walter: Filosofia da Cor, curada por Barbara Paca e Daniel Rangel, no MAC_Bahia, coincidem em demonstrar sua destreza com cor, forma e figura. Isso nos remete a uma busca supostamente moderna pela expressão artística própria aos seus meios, com obras de forte afirmação formal e abstrações de dimensão rítmica. Mas engana-se quem acredita que uma só categoria ou “chave” será suficiente para contemplar a produção do artista.   

Presente na exposição, a obra Better Be Ugly than Bad Beautiful (sem data) é um depoimento evidentemente avesso aos termos da discussão sobre estética (sempre acompanhada de uma ética) proposta pelo Ocidente. Lembremos a reflexão socrática do duo belo e bom. O enunciado de Walter nessa obra – e não só nessa – indica algo alardeado pela arte contemporânea: o declínio dos regimes filosóficos universalistas, iniciado no século 20. A formulação do artista, contudo, opera uma trama opaca e esplêndida, tornando-se ainda mais instigante quando lembramos de Edmund Burke (1729–1797), autor de Investigação Filosófica Sobre a Origem de Nossas Ideias do Sublime e da Beleza, livro de ​referência ​​para ​Kant.  

Segundo Burke, algo, ainda que seja considerado feio, aterrorizante e com formas desproporcionais, pode ser dotado de uma qualidade estética superior à beleza: o sublime. Isto é, aquilo cuja vastidão devora as estáticas noções e experiências humanas. Devemos lembrar que Longino (aprox. 205–273 a.E.C.) descreveu o sublime como a luz de um relâmpago que a tudo atravessa – inclusive o feio, se houver nele qualidades elevadas. Mas nunca atravessa o belo​, ​em razão de suas funções aprazíveis e apaziguadoras​​, como reafirma o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, na atualidade​. Em ​muitas obras de Frank Walter, sobretudo nas paisagens, o sublime faz-se presente, operando a superação de paradigmas.  

Frank Walter, Untitled [Better Be Ugly Than Bad Beautiful], s.d.
Pintura quase escultórica
Fato curioso é que, a partir da arte “primeva” realizada pelos povos nativos africanos, ameríndios e oceânicos, o sublime é perseguido pela arte moderna. O crítico de arte britânico Herbert Read (1893–1968) informa que, a partir de 1889, quando pela primeira vez foi exibida na Europa tal arte, “a totalidade do chamado movimento moderno abandonou o conceito tradicional de beleza”. Igualmente, seja na pintura abstrata ou na figurativa, de diferentes gêneros, Frank Walter supera a busca pela forma tradicional, cuja função seria aprazível, boa e bela, para perseguir a ampliação do repertório pictórico.  

A exemplo da primeira obra da exposição, ​​​​Carib Assassinating an Arawak (s.d.), percebemos nas paisagens de Walter uma tendência a formas curvilíneas com aspectos quase escultóricos. São volumes cilíndricos, cônicos e ovais, dispostos a figurar conchas do mar ou pés e mãos de um corpo humano. O mesmo padrão construtivo é observado nas obras Cricket Player (s.d.) e Enslaved Woman (s.d.).

Polifônico, Walter não pode ter a análise de sua obra restrita ao formalismo. Sua produção também estabelece um diálogo com a fotografia, que é uma de suas linguagens de expressão. Entre as obras figurativas, há certa distinção na composição das paisagens, dos retratos e das cenas. Nas primeiras categorias, repetem-se ângulos comuns à fotografia dos mesmos gêneros, com figuras humanas apresentadas de perfil ou de frente. Nas paisagens, a amplitude do horizonte contrasta com a figura em primeiro plano. Já nas cenas – religiosas, cotidianas, históricas e mitológicas –, como Jesus in Antigua (s.d.), Dancing Man (s.d.), Colonial Judge (s.d.), Dictator (s.d.) e Neptune and His Sea Horse (s.d.), observamos que a dinâmica das forças e presenças é mobilizada pela linha diagonal, expressando movimento e temporalidade.

​​​​Barbara Paca, curadora da exposição ao lado de Daniel Rangel, então diretor do MAC_Bahia, apresenta uma resumida cronologia da vida de Walter e nos informa que o artista se tornou a primeira pessoa negra em Antígua a receber o cargo de ​manager​​, que ocupou ​entre 1948 e 1953. ​​​“Ironicamente, esse título lhe foi concedido como administrador de uma série de plantações de cana-de-açúcar pertencentes a seus antepassados escravocratas”, afirma Paca. Esse fato não é apenas irônico, mas complexo e sofisticado, não pelas atualizações nos métodos de violência colonial, mas sobretudo pelo esguio poder das formas de vida e dos sujeitos que as confundem. A produção visual e poética do artista esbanja, com sofisticação ilimitada, a sua liberdade. Sua obra é exemplar de como proposições estéticas, filosóficas, poéticas e políticas convergem em uma polifonia de linguagens que dialogam com a arte moderna, o que a torna, ao mesmo tempo, posterior e anterior a esta. ​​ 

​​​​Trata-se de um artista contemporâneo não só pelo período histórico em que viveu, mas pela insistência com que nos lega o valor da justaposição dos diferentes e contraditórios, valor a partir do qual se faz possível​​ Introducing the New Breed ​​(s.d.). A “nova raça” não é simplesmente uma etnia ou uma nova categoria racial, mas a abolição radical de regimes de exclusão. Isso, sim, torna possível introduzir o que antes era inexistente ou imperceptível. Dominando, desde a infância, o grego e o latim, o menino prodígio se tornou um adulto revolucionário ao propor a superação do binarismo ocidental e incluindo diversos valores por meio de suas ferramentas. ​​​