“O que as pessoas estão vendo quando olham para você?”. É o que Zanele Muholi questiona nas paredes de sua exposição Beleza Valente, curadoria de Daniele Queiroz, Thyago Nogueira e Ana Paula Vitorio, no Instituto Moreira Salles Paulista. A primeira individual no Brasil reúne a produção dos anos 2000 até hoje, em séries de fotografias em construção que refletem a luta pelos direitos da população negra e LGBTQIAP+ na África do Sul. A expografia é assinada pelo escritório de arquitetura de Gabriela de Matos.
A fotografia como mecanismo de afirmação de existência e identidade é a premissa da obra de Muholi, cuja trajetória começou no campo da reportagem, documentando episódios de violência contra mulheres negras lésbicas. À medida em que aprofundava seus estudos da linguagem fotográfica, o fator central a impulsionar sua entrada no universo do retrato foi a ausência de representações de indivíduos com características semelhantes às suas.
Muholi diz que não fotografa estranhos. A confiança e o vínculo que estabelece com as pessoas retratadas são elementos essenciais de seu trabalho, que carrega uma profunda camada de intimidade e histórias únicas. A série Faces and Phases (2006–até o presente) reúne centenas de imagens de pessoas negras lésbicas, não binárias e homens transgêneros, muitas delas fotografadas em diferentes momentos ao longo dos anos. Esses registros capturam não apenas a passagem do tempo, mas também os processos de transição e afirmação de gênero.

Já Somnyama Ngonyama (2012–em andamento) surgiu como resposta a um episódio de racismo sofrido por Muholi durante uma residência artística na Itália. A série é composta por autorretratos, em diversas cidades do mundo, utilizando objetos do cotidiano. Compõe a série Bester I, Mayotte (2015), instalada no formato de um grande painel no centro da parede de retratos. Nesta imagem, o olhar de Muholi é penetrante e seus lábios são acentuados por uma camada de pasta de dente; veste um tapete de tear de 5 euros preso com prendedor de roupa de madeira, que também adorna o seu cabelo e serve como brincos. “Sou só eu […] falando sobre a minha mãe”, disse Muholi durante coletiva de imprensa no IMS. No título da série, Muholi saúda sua mãe – que trabalhou durante toda a vida como empregada doméstica para famílias brancas sul-africanas – como a rainha dos animais. Em zulu, sua língua materna, “Ngonyama” significa “leão/leoa”. A palavra também nomeia o clã de sua mãe, Bester.
ATIVISTA VISUAL
“Nós viramos a moeda. Pegamos essas narrativas difíceis e as levamos adiante da melhor forma que sabemos. […] Quando entro em um espaço como este [o IMS], quero lembrar da minha mãe, quero me imaginar como a minha mãe, porque ela nunca teve tempo de ir ao museu.”
Nanini (2025) é o mais recente retrato da série. Levou 4h30 para ser produzido no bairro do Rio Vermelho em Salvador, Bahia, logo após o Dia de Iemanjá. O objeto rotineiro escolhido foi o alfinete (no inglês, safety pin), utilizado como uma ferramenta para falar de segurança emocional e física, que materializa um sentimento coletivo em um único e ínfimo elemento. “A união entre as pessoas e o senso de comunidade me comoveu. [A cerimônia] me levou para casa de alguma forma, embora eu não estivesse em casa. […] Foi um sentimento de acolhimento sem necessariamente entender a língua falada pelas pessoas. E eu precisava expressar como me sentia quando estava no oceano”, continuou na entrevista.

Outras fotos e vídeos feitos no Brasil também poderão ser vistos na mostra Beleza Valente. Em 2024, Muholi realizou uma residência artística no país durante o Festival Zum, período em que visitou organizações, artistas e ativistas em São Paulo, como a Casa1 e a Ocupação 9 de Julho. Os registros resultam desse envolvimento com as instituições e seguem o princípio central de seu trabalho: desconstruir o olhar objetificante sobre a comunidade negra LGBTQIAP+. “Há muito mais numa pessoa do que aquilo que se vê. […] Essa beleza, para mim, fala sobre a dignidade”.
SERVIÇO
Zanele Muholi: Beleza valente
Visitação: até 22 de junho
6º andar do IMS Paulista (Avenida Paulista, 2424)
Entrada gratuita