Frequentemente associada ao cérebro, a racionalidade ainda é considerada responsável por guiar a civilização e o bom comportamento. Um papo-cabeça, uma pessoa cabeça, todos sinônimos de seriedade que elegem a cabeça como centro. Tomada como medida de proporção do corpo humano a sinal de morte nas vanitas: a cabeça sem pele, sem rosto, apenas o osso. O carro-chefe na virada moderna das representações renascentistas também é a cabeça.
A cabeça é poder. Judith quando decapitou o general Holorfenes, João Batista quando foi degolado a pedido de Salomé, as cabeças de Lampião, Maria Bonita e seu bando putrefatas em exibição. Mais recentes, os vídeos do Estado Islâmico (Isis) que registram em alta definição as decapitações de prisioneiros. Cortem-lhe a cabeça! Ordena a Rainha de Copas em Alice no País das Maravilhas.
O grotesco e infinito potencial destrutivo está acima do pescoço e o racional é uma falência anunciada. Tão visceral quanto outras partes do corpo, é na cabeça que estão lábios, saliva, língua, miolos, dentes e couro cabeludo, além dos desejos ambíguos que nos mobilizam. Hoje, mais que nunca, a cabeça é fracionada em peças e imagens e seria um equívoco pensá-las sem um eco coletivo: da saúde mental em frangalhos à verdade em jogo diariamente na exaustão cotidiana pelo excesso de informações.
Nesta edição, abrimos a pergunta do Fogo Cruzado para os leitores de seLecT_ceLesTe. Queremos o Fogo Cruzado na boca do povo. Afinal, a cabeça também é o espaço da imaginação e do sonho. Da criação materializada em filmes, pinturas e objetos às direções discursivas que ocupam a cabeça, as respostas dos entrevistados atestam a infinitude dos caminhos da mente.
MALU PESSOA LOEB
ARTISTA E PSICANALISTA
Ando descabeçada, virando o corpo, atenta ao “efeito do orvalho” no corpo e no entre corpos. Não quero ser mais uma cabeça patriarcal, fálica e masculina. Não mais apenas nessa posição. Sigo construindo um corpo feminino e poético. Me parece que esta é a única possibilidade de se fazer política, uma política de afetos onde prevaleçam o laço e a presença, e que faça da singularidade um lugar das diferenças na coletividade. Aposto que, assim, poderemos adiar o fim do mundo ou ainda “a queda do céu”. É no decolonial como novo paradigma de mundo, não mais a cabeça do branco, neoliberal e europeu. Então é um corpo único que sustente o céu, sem mais dicotomia cultura e natureza, um corpo que resgate e promova um saber próprio e local. A ancestralidade é no agora e no corpo feminino. Orvalho.
CARLOS NUNES
ARTISTA VISUAL
A UTOPIA PIA? Gosto da sonoridade da frase e gosto da pergunta sobre uma utopia. Vivemos num momento distópico. Gosto de que pareça uma questão tropicalista, que é pensar na utopia como sendo uma utopia animal, natural, parece que ela está no meio de uma mata, em cima de um galho a chamar. E o piar, por sua vez, pode ser um canto, uma conversa, um grito, um rito de acasalamento ou som faminto. Acho lindo que seja uma utopia que nasça de um ovo, que tenha sido gestada por um tempo e um dia quebre a casca e saia. A frase também é um chamamento para que façamos algo, é um “truco!” sobre nossas crenças, um grito quase desesperado para que façamos algo genuíno. E gosto também da pureza de ser um jogo de palavras com um final repetido, redundante e ingênuo como um trocadilho. E que seja uma pergunta impossível, porque as afirmações e as certezas já não me interessam.
MAIRA
DESIGNER
Insatisfeita e agoniada com o agora. Buscando alternativas para desembaraçar um futuro que me faça sentido.
RICARDO COSTA MENDONÇA
ARTISTA VISUAL
Quicando aqui e acolá, entre o presente e o passado, para inventar futuros impossíveis. Comendo acarajé sempre que aparece uma oportunidade. Ouvindo Belchior, Rainha Quelé e DakhaBrakha. Farejando a Mata Atlântica. Querendo sempre olhar tudo com o espanto da primeira vez.
ANDREA BRAZIL
ARTISTA VISUAL
Na maior parte do tempo, anda elaborando o que vejo, desde as notícias até paisagens e pessoas que me atravessam. Em alguns momentos, nos filhos, na família e nos amigos.
NARA
ARTISTA
Só não esqueço a cabeça porque ela anda grudada no pescoço. A cabeça anda no pé, o pé no pulmão, o pulmão no coração, o coração na boca, a boca no intestino, intestino na coxa. E eu sigo um corpo com órgãos sem saber agenciar. Quem souber que diga seu valor, porque tem muita gente que pode comprar. Eu só não sou uma dessas pessoas.
KLEBER MARCELLINO
ARTISTA PLÁSTICO
A cabeça está no corpo. Mas ela retorna a caminhos já pisados pelos pés. Às vezes, ela reinventa memórias, ou planeja “minuciosamente” acontecimentos que não vão acontecer. Mas a cabeça acaba se perdendo no ocre da folha desbotada no terreno atrás de casa, uma vez que a folha já se desfez na última chuva. Tentando encontrar lugares para rabiscar ideias, a cabeça sempre retorna a coisas banais de lugares que o corpo se encontrou. É a busca de uma idealização, sendo a própria vida a inspiração.

IATÃ CANNABRAVA
FOTÓGRAFO E CURADOR
País complicado. Difícil olhar para o futuro tentando entender o presente. Duas a três vezes por semana, em minhas insônias, procuro no meu arquivo imagens que possam me acalmar do “noticiário”. O Brasil anda espinhoso, como se o mandacaru pusesse a boiada para correr.
HUGO HOUAYEK
ARTISTA VISUAL E PROFESSOR
O sucesso constante das séries e filmes de zumbis acontece por identificação e espelhamento pelo espectador. Identificamo-nos com o entorpecimento, a apatia e o comportamento em massa dos zumbis. Acontece um espelhamento entre a conduta dos zumbis e o nosso cotidiano de espectadores, mas queremos imaginar outro momento, não entorpecido, em que poderíamos viver uma vida que sempre sonhamos. Sonhamos em deixar de contemplar, passivos, as divertidas imagens que nos entretêm. Nós somos os próprios zumbis, entorpecidos pelas imagens e pelos aparelhos que nos divertem e entretêm, e mesmo assim alcançamos o tédio.
Talvez andar com a cabeça na arte contemporânea seja uma maneira de sonhar com outras possibilidades. Passear com a produção artística pode ser uma tentativa de destruir o estado zumbi e eliminar o entorpecimento. Tornar imaginável uma situação na qual a arte pode servir de mediação para a troca de informação e trampolim para relações entre humanos. Destruir zumbis numa sociedade do espetáculo é uma das possíveis opções, quando o entretenimento fica tedioso.