Garimpo, o Carvão e o Ouro, mostra inédita de Siron Franco, é inaugurada hoje em São Paulo. No edifício projetado por Eduardo Almeida para abrigar a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Cidade Universitária da USP, o artista goiano tomou de assalto os espaços expositivos, estabelecendo diálogos entre suas esculturas e instalações e o vasto arquivo de conhecimentos sobre o Brasil catalogados e editados em volumes que a coleção Mindlin reúne zelosamente.
As obras foram selecionadas pelo artista, em comum acordo com os curadores Luiz Armando Bagolin e Fabricio Reiner. No vão central da biblioteca, Siron Franco expõe um móbile construído com braços de manequins cujas conexões foram revestidas com folhas de falso ouro, suspenso no espaço, aludindo à forma poliédrica dos minerais que se encontram no subsolo amazônico, tão cobiçados pelo capitalismo. Na praça central do edifício, o artista exibe uma grande instalação site especific – Carvão e Ouro (2019-2023) – composta por toneladas de toras de madeira crestada, folhas de ouro (falso) e superfícies espelhadas.
“O ouro, dentro da terra, é condutor de energia; é como as artérias da Terra, junto com o carvão”, explica Siron Franco. Conhecido por suas obras que exploram temas sociais, políticos e culturais, muitas vezes abordando questões relacionadas à opressão, à desigualdade e à injustiça, a marca registrada da arte de Franco é a variedade de estilos e linguagens, oscilando com igual entusiasmo entre a pintura, a escultura e as instalações. No começo de 2022, manequins de loja foram utilizados por Siron Franco para criar uma obra em memória das vítimas de Covid-19. Exposta no jardim da Casa das Rosas, na Avenida Paulista, ainda em meio à pandemia, a instalação causou assombro e comoção: os 365 “corpos” suspensos, em sua maioria encapuzados, representavam os mortos, que naquele momento já contabilizavam 600 mil.
“É exemplar das direções apontadas [por Siron Franco em seus trabalhos] a série Césio (também chamada Rua 57), de 1987, que comentava o acidente nuclear envolvendo a abertura de uma cápsula contendo Césio-137, ocorrido em Goiânia em outubro daquele ano”, destaca Luiz Armando Bagolin no texto de apresentação da mostra. Para Charles Cosac, a série Césio (1987) “converge para inúmeros fatores que nos ajudam a entender a obra de Siron dos anos 1990 até hoje. A série rompe com a obra palatável dos anos 1978-87, que o público/mercado tanto apreciam. Como não havia nada de pitoresco a se retratar, o artista lança mão da sua obra ‘pronta’ realizada até o acidente, nos anos supramencionados e introduz uma série de elementos, a saber, o uso marcante da cor prata, anteriormente usada por ele, em acrílico, sem grande resultado; o uso da terra e suas matizes, introdução de grafismos; flúor; veladuras e, sobretudo, composições mais soltas, como se fossem inacabadas […] a série Césio, seja como tema, seja como resultado pictórico, reinventa a relação do artista com a tela, descentraliza os elementos temáticos de outrora, dando espaço a uma pintura mais livre, como o all over“.
A exposição na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, de obras inéditas, estabelece uma relação de afinidade temática com Césio, voltando-se aqui para a insensatez da contínua agressão à Amazônia, a destruição dos recursos naturais pela extração ilegal de madeira, pelo garimpo que envenena as águas dos rios e igarapés, pelo tráfico e pela violência contra os povos originários, os povos ribeirinhos e os moradores locais. Uma das obras consiste de três grandes mesas de concreto (que comentam os colchões de cimento da série Césio), nas quais veios impregnados de folhas de falso ouro percorrem superfícies das quais emergem objetos variados, pedaços de artefatos indígenas, mãos de manequins, balas de carabina, entre outros.
SERVIÇO
Garimpo, o Carvão e o Ouro, de Siron Franco
Curadoria: Luiz Armando Bagolin (IEB/USP)
Curadoria adjunta: Fabrício Reiner
Apoio cultural: Almeida & Dale
Complexo Brasiliana USP (Rua da Biblioteca, 21 – Cidade Universitária)
Abertura: 31/8, às 18h; visitação de segunda a sexta, das 8h às 18h; até 3/11