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Capa dO Livro dos Juntós, de Ayrson Heráclito (cortesia Familia Editions)
Postado em 14/08/2026 - 6:46
Palavras para acordar mundos 
Com monografia, livro de artista e individual, Ayrson Heráclito quer abolir o estigma de que a arte afro não é conceitual

Ao adotar como título a palavra Òye, que em yorùbá se relaciona com entendimento e compreensão, a primeira monografia sobre a obra de Ayrson Heráclito (Cobogó, 2026) é uma abertura de caminho. Um guia para a travessia por uma obra artística construída a partir de uma grande inquietação: Como construir um regime de visibilidade para falar do segredo e do sagrado?  

As chaves do livro são sete palavras-conceitos, em torno das quais se encontram, sem obedecer a uma ordem cronológica, trabalhos realizados pelo artista e Ogã baiano entre os anos 2000 e 2025. A organização é conceitual. “A palavra não evoca, a palavra age”, diz Heráclito, que também está em cartaz com a individual Ojú-Inú na Simões de Assis Galeria de Arte até 12/9. Pela mesma lógica, ele afirma que “o objeto da cultura africana não é uma representação, é uma apresentação, ele é”.  

A entrada para a apresentação da obra se faz por meio da palavra Èkó: ensinar e aprender ao mesmo tempo, em yorubá. Este é o princípio regente de trabalhos performáticos e ritualísticos que atualizam as relações entre arte e comida, como Falando e Fazendo Comida de Santo (2019). Como aponta Marcelo Campos, organizador do livro e autor dos textos, o princípio regente de Èkó pode ser comparado à pedagogia de Paulo Freire.  

Depois vem Ódára, a incrível capacidade que faz com que algo possa ser belo e ser útil ao mesmo tempo. Ódára abarca todos os trabalhos feitos à base de dendê, entre eles, As Mãos do Epó: Oxum (2004) e Regresso à Pintura Baiana (2002-2021), em que Heráclito bezunta de óleo paredes de galerias de arte.  

Em cada palavra, uma revelação. Ebo – oferenda, tecnologia de conexão entre o mundo visível e o invisível – é a palavra que deflagra uma das mais famosas e poderosas séries de Ayrson Heráclito: Sacudimento (2015). Outro projeto de grande impacto visual e magnetismo, Bori (2008-2011) é regido pelo conceito do seré (algo como um devir-ritual).


Até que chegamos a Oríkí, palavra que se refere a composições verbais que não apenas comunicam, mas têm o poder de intervir no real. O capítulo dedicado a Oríkí, na monografia Òye, faz a ponte para o também recém-lançado O Livro dos Juntós (Familia Editions, 2026), edição de 500 livros de artista trilíngues em iorubá, português e inglês. No candomblé, o termo “juntó” descreve a união entre dois orixás – energias da natureza –, um principal e um complementar, que juntos regem a personalidade e o destino das pessoas. 

O livro é composto por 222 desenhos de combinações visuais possíveis entre os 16 principais orixás cultuados no Brasil, cada um deles acompanhado por um poema Oríkì que invoca as energias presentes nessas composições. “Palavras têm o poder de acordar mundos”, disse Heráclito no lançamento da obra no setor editorial da feira ArPa, em São Paulo. Os desenhos são a exata reprodução, nas mesmas dimensões, daqueles expostos juntamente com esculturas em aço inox na instalação Juntó-Orìkí (2026), na mostra In Minor Keys, na 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza. 

O Sistema Juntó é uma criação estética que apresenta (e não representa) um complexo sistema espiritual, que busca a síntese de um conhecimento que não é racional, mas contém outras dimensões de entendimento. Dentre elas, a certeza de abolir o estigma de que a arte afro não é conceitual.  

Serviço
Ayrson Heráclito: Ojú-Inú
Simões de Assis São Paulo
Mesa de lançamento do Livro dos Juntós na galeria: 11/9, 18h, com conversa entre o artista, a editora Maria Lago (Familia Editions) e o curador Hélio Menezes
Al. Lorena, 2050A, Jardins, SP
Até 12/9

 

Logunedé na Cachoeira, da série Narrativas de Abebê com Ofá (2026), de Ayrson Heráclito, que integra individual do artista na Simões de Assis Galeria (foto: divulgação)
Ferro de Ogum com Xaxará, da série Xaxará (2025), de Ayrson Heráclito, que integra individual do artista na Simões de Assis Galeria (foto: divulgação)