Pareidolia é a tendência da percepção de atribuir uma interpretação significativa ao que tem forma vaga ou incerta. Um exemplo célebre na literatura ocidental consta em Dom Quixote, em que o protagonista confundiu moinhos de vento com gigantes, apesar da advertência de Sancho Pança: “aqueles que estão ali não são gigantes, mas moinhos de vento, e o que neles parecem braços são as pás, que, rodadas pelo vento, fazem trabalhar as mós.” Nós presentificamos pessoas, objetos, animais, medos e desejos com a imaginação. É isso que explica o funcionamento do teste de Rorschach. É também o que explica a possibilidade da leitura do destino na borra do café.
As telas da artista Marcela Dias (Recife, 1998) são em sua maioria não-figurativas. Apesar disso, os títulos sugerem alguma figuração. Te vi numa sombra vermelha (2024) é uma pintura em que se vê duas manchas, uma acima e outra abaixo de uma linha horizontal que divide a tela. As duas manchas, assim como as sombras, criam um duplo. Além disso, as sombras, assim como as manchas, são dois tipos de formas vagas que nos permitem ver nelas aquilo que não está ali.

O título, sendo um modo de apresentação do trabalho, é uma grande interferência na leitura da obra. Nem todo mundo gosta de banho de piscina à noite (2024) e Mesmo que distante (2024) também são não figurativas. O casamento entre o título e a imagem, no primeiro caso, associa a piscina, a noite e a variação de tons de azul usada na tela. Em Mesmo que distante, por sua vez, o uso do verde e do azul sugere um horizonte, uma paisagem montanhosa e um céu. No entanto, nem todos os pontos da tela parecem ter sido preenchidos pela mesma tinta, criando furos na imagem. Esses vazios remetem a algo que está em pedaços, um “cão sem plumas”, uma recordação que jamais se deixa reformular por inteiro. A distância colocada no título seria aquela entre a pintora e o objeto da sua pintura, objeto esse que não está mais ao alcance da vista.
No entanto, não é possível fazer essas afirmações com certeza, tendo em vista que o título da tela não é como uma legenda. Ou seja, o ruído entre imagem e palavra e a cisão entre o nome da obra e aquilo que é visto indica que a imagem está aberta à interpretação. Quanto menos determinações materiais, mais sentido pode ser atribuído. O tom poético dos títulos e o caráter abstrato das imagens faz com que o sentido não seja dado, mas lacunar.
Se a pintura é pensada a partir da técnica, ela é sempre meio figurativa e meio abstrata. Em outras palavras, pensar em termos de transparência e opacidade, sombra e luz, textura e suavidade, suporte e material, afasta a pintura do mimetismo e do referente. A atenção à materialidade da obra tensiona os limites da representação e, ao mesmo tempo, constrói um campo pictórico que está além da diferença entre a abstração e a figuração.
A pareidolia, como um modo de leitura dessas pinturas, provoca o receptor na direção de projetar nelas suas próprias referências, lembranças e experiências, tornando a pintura um espaço de coexistência entre a presença e a ausência, o visível e o imaginado. Assim, sua obra convida à participação ativa do olhar, mostrando que a pintura não só pode representar o visível, mas pode provocar questionamentos sobre a própria natureza da percepção.
“Longe, enfim”, primeira individual de Marcela Dias, está em cartaz na Garrido Galeria até 7 de julho
Serviço:
Longe, enfim, de Marcela Dias
com curadoria de Guilherme Moraes
Garrido Galeria
Rua Samuel de Farias, n° 245, Casa Forte, Recife/PE
Lara Carvalho Cipriano é doutoranda em Filosofia na UFMG. A sua tese, assim como a sua dissertação, é vinculada a linha de Estética e Filosofia da Arte e se dedica sobretudo ao problema colonial. Além disso, é graduada em Psicologia na PUC-MG e mantém consultório privado de psicanálise.