Estivemos lançados em direção a corpos, muitas vezes sem memória e sequer entendidos como sujeitos, que foram encenados como mercadoria. A vida como coisa, sujeita à dejeção, presença constante do avesso do acesso. Indóceis, diriam, e ainda é dito, cujo nenhum protagonismo lhes foi dado ao direito, à força de lei, no edifício da dívida impagável (outro cenário, e mesmo) de indivíduos quase soltos à mercê concessionária da exposição de vivos que, vista de dentro das vitrinas, cabe a certos personagens o pano de limpar os vidros, e, vista de fora, não há permissão que dê passagem nem aos carpetes de entrada.
O impróprio não se deixa ser carregado como propriedade, sendo a si próprio, próprio de si; se impróprio, também inapropriado. Uma vez sem caber e, não cabendo, torna a si próprio, impermeável à apropriação. Contudo, apropria-se, toma a propriedade, quer dizer, contorna a propriedade desse um outro como sua – e esse um outro, o sujeito do assalto, é mera fantasmagoria do universal. O ser impróprio, quer dizer, o que não entra em cena como propriedade, acena ao contrabando; melhor dito, torna próprio de si a propriedade de um, que tal outro, sem aceder se tornar a si mesmo propriedade. Manter-se impróprio, inapropriado, e de consumo imoderado.

Dia 27 de setembro, no Brasil, celebra-se Cosme & Damião. Uma modalidade de festa que, progressivamente, tem perdido as ruas. Não há muito tempo era possível ver uma abundância de crianças correndo, lá e cá, batendo de casa em casa atrás de doces. Contudo, por uma pletora de motivos, a celebração não tem só mudado o corte, mas ficado à míngua – ou seria à mercê – da falta de manutenção, ou sentido, do complexo festivo: seja pelo crescimento exponencial do neopentecostalismo que toma as comunidades, seja pela exposição violenta a que estão sujeitas as crianças – afinal, uma criança preta correndo é, a depender do olhar, e ele é quase sempre policialesco, o sinal evidente do perigo.

A ativação, em performance, é parte integrante da série Entrega: One Planet, One Health. Mostra que havia sido lançada em junho, na Cahiers d’Art, instituição em Paris, França, que também publicará um livro sobre a série. Com a inauguração do Pavilhão, que leva o nome de Maxwell Alexandre, na Rocinha – primeira galeria de arte nesse espaço da cidade do Rio de Janeiro –, podemos ver parte da série em alguns dos quadros expostos. Como que em diálogo, em certa medida, com a estrutura das histórias em quadrinhos, temos a (possível) narrativa de um grupo de estudantes de escola pública que trabalham como entregadores de alimentos. Os quadros mostram os alunos em incursão numa sequência de eventos que levam à caça, espancamento, esquartejamento e devoração de Dino, o mascote citado pouco mais acima.
As pinturas apresentadas, em grandes dimensões, são realizadas sobre uma série de recortes das embalagens de Toddynho. Cabe atenção aos detalhes, como a tinta seca das figuras sobre os códigos de barra, ainda aparentes em alguns casos, por exemplo. O que havia sido dito do corpo como mercadoria aqui deixa um rastro. As marcas, em certa medida apropriadas como figuração do desejo infantil, particularmente daqueles que não têm acesso econômico aos produtos, são desapropriadas da propriedade original, sendo reorganizadas como superfície para tinta e figura. Contudo, ainda permanecem lá, como fantasmas. Bem como as mochilas do aplicativo de entregas, Ifood, assim como o logo reapropriado da Danone, marca que não perde o nome, mas ganha nova figura – no caso, uma criança de cabelo crespo.
O que se vê estabelecido, afinal, é um jogo pleno de um artifício metonímico, devolvendo em espécie, e, no atacado, não apenas a tomada do objeto de desejo por contrabando, apropriação em sentido forte, mas o retorno alegórico da violência, fazendo com que o protagonismo da ação seja reencenado ritualmente por outras agências, no caso, a comunidade. Onde vemos as etiquetas da embalagem do achocolatado, podemos ler, afinal, todos os corpos da comunidade que sustentam a vida comum. Contudo vida comum revirada, do avesso. A encenação do fim da caçada ao Dino, por seu turno, emula a comemoração da mão pesada da lei – aquele modo de fotografia, típico, em que o despojo da ação é mostrado pela força policial. A dinâmica narrativa, quando invertida, ganha outro contorno. Obriga o olhar a outros, e mais diversos, desenhos na oficina de um pensamento muito pouco acostumado a perceber o diferente.

Esse post-scriptum nasce na relação dinâmica e processual com que Maxwell Alexandre performa e transforma suas ações. Conforme informado pelo artista em suas redes sociais, Dino foi ressucitado na ação intitulada “Terceiro Dia”, no dia 12 de outubro de 2023, Dia das Crianças. A volta, que mais uma vez por operação metonímica encena a ressureição de Cristo, nos dá um novo giro perspectivo das relações sociomateriais, a religiosidade incluída, aparelhado a um curto-circuito com a dimensão das estruturas da indústria cultural. Em seu revés, Dino retorna transformado, como agente da alegria e, na Passagem 3 do Pavilhão na Rocinha A iogurte de morango da Danone e achocolatado Toddynho, além de se deixar fotografar com as crianças.
SERVIÇO
Entrega: One Planet, One Health
Até 7/1/2024
Pavilhão Maxwell Alexandre
Via Ápia, 9, Rocinha
pavilhao.faith