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Vista de exposição Yuxin Meshtika (2024), na Carmo Johnson Projects [Foto: Samuel Esteves / Divulgação]
Postado em 21/07/2026 - 7:29
Ponto a ponto de acasos felizes
Carmo Johnson Projects completa cinco anos com a consolidação de um trabalho ético-afetivo de posicionamento de seu elenco no sistema de arte

Fora do eixo Jardins-Barra Funda-Vila Madalena, instalada no Alto de Pinheiros, uma galeria de arquitetura arrojada ocupa um espaço inusitado: o subsolo da casa de Carmo Marchetti Berna Johnson. Completando cinco anos de atividades e muita personalidade, a Carmo Johnson Projects exibe até 1º de agosto uma exposição afetiva de arte têxtil. Trejeitos do Tempo tem obras de Leila de Sarquis e trabalhos inéditos realizados a quatro mãos entre dois artistas e suas mães: Michel CENA7 com Raquel Ramalho e Renato de Cara (que também assina a curadoria) com Bertha Eunice.  

De Cara, que atualmente dirige o Paço das Artes, envereda em colorida e vibrante viagem ao bordado, ao lado da mãe nonagenária. “Peguei uma sobra de material de uma oficina de bordado e me apaixonei pela técnica. Aí comecei a passar algumas peças para minha mãe trabalhar também, como uma outra forma de nos conectarmos”, conta o artista e curador.   Em tons fluorescentes, pequenos painéis estampam frases espirituosas, muitas delas ditas pela própria Bertha, outras coletadas entre livros e amigos. Bijuterias e pequenos objetos também entram na composição familiar, íntima e ao mesmo tempo pop, que coloca em perspectiva a passagem do tempo, o laço entre mãe e filho e a iminência do fim. 

As pinturas com cores fortes e geometria minimalista de Michel CENA7, realizadas em acrílica e aerógrafo, ganham organicidade com a sobreposição de formas em crochê criadas por sua mãe, Raquel Ramalho, trazendo artesania à impessoalidade construtiva. Embora fazendo uso da manualidade da costura, o ponto de visualidade dissonante são as obras da veterana Leila de Sarquis. Suturando sobre algodões translúcidos desenhos rudimentares feitos a caneta esferográfica, como esboços arrancados de páginas esmaecidas, a artista atinge uma visceralidade ancestral muito atual. Esculturas disformes e pequenas assemblages remetem a peças arqueológicas encontradas no futuro.  

Sobre essa convergência estranhamente coesa entre os três grupos de obras, Lenora de Barros escreve no texto de apresentação: “Tecer, bordar, crochetar talvez sejam formas delicadas de conversar com o tempo. Cada ponto depende do anterior, como os dias, como a memória”. O parágrafo do texto da artista e poeta, assim como a exposição, vale como síntese dos cinco anos da Carmo Johnson Projects. Um ponto a ponto de “acasos” felizes construídos por meio do olhar ético e da sensibilidade estética de sua galerista.  

La Sapienza artística em Roma
Foi a partir de 1979, nas aulas de Antropologia Cultural da Faculdade de História da Arte da Universidade de Roma – La Sapienza, que Carmo começou a educar sua visão e a voltar sua atenção para formas diversas de produção artística. “Percebi que não há diferença entre as obras de um artista originário, regional ou contemporâneo. Tudo é arte, tudo tem um pensamento estético de fundo”, diz à celeste. Essa concepção acabaria por, mais tarde, moldar sua atuação como galerista. De Roma, passou longas temporadas em Los Angeles e Londres, onde trabalhou no mercado de arte em diversas posições. Voltou para São Paulo em 2002, já casada, para morar na casa projetada pelo arquiteto Eduardo Longo (o mesmo da Casa Bola, no Itaim), onde há quase quatro anos trabalha. 

Em 1º de abril de 2021, no final do isolamento social da Covid-19, Carmo Johnson decidiu retomar o trabalho de galerista, experimentado em empreitadas anteriores. “Encontrei com o Bruno Novelli, que eu já tinha representado, e o chamei para uma individual. Fizemos uma mostra na Casa Cunha Lima, um marco da arquitetura modernista no Pacaembu, assinada por Joaquim Guedes, e deu muito certo, ficou linda”, conta. Nascia ali a Carmo Johnson Projects. 

Numa dessas coincidências serendípiticas que, vistas em retrospecto, mostram-se fundamentais para a história da galeria, foi o próprio Novelli que apresentou para Carmo o Mahku – Movimento dos Artistas Huni Kuin. Junto com o pintor, o coletivo indígena fez a segunda exposição na Casa Cunha Lima, intitulada Tudo É Perigoso, Tudo É Divino, Maravilhoso. “O Bruno disse que só faria um diálogo com outros artistas se fosse o Mahku, e me levou a eles.” Ainda na Casa Cunha Lima, foi realizada a coletiva Poéticas do Habitar, com a artista representada Kaya Agari, do povo Kurâ-Bakairi, e as convidadas Julia Angulo e Talita Zaragoza. Também lá aconteceram as individuais de Alberto Pitta e Regina Dabdab.   

Hoje, a Carmo Johnson Projects representa nove artistas ou coletivos, com trabalhos que atualizam e reinventam iconografias e cosmogonias disruptivas, inserindo-as no contexto da arte contemporânea. Sejam elas do universo autóctone, caso de Kaya Agari, Kássia Borges, a dupla Kókir, o coletivo Mahku e Naine Terena. Ou de fora do eixo sudestino, como o baiano Roney Jorge, e do universo sinestésico feminino, traduzido por várias faixas etárias: a jovem Sophia Pinheiro, a septuagenária Nara Guichon, e a nonagenária Belony Alma Ferreira, com um impressionante trabalho de pintura com terra.  

Costura de pontos firmes
É na costura das relações, de forma ética, cuidadosa e mesmo afetiva, que Carmo Johnson vem erigindo e consolidando sua atuação como galerista no país e no exterior. Grandes momentos incluem a participação do Mahku na 60ª Bienal de Veneza (2024) e nas feiras Miami Art Basel (2024) e Arco Madrid (2025). “Gosto de ter proximidade com as pessoas que represento. É fundamental que tanto colecionadores como instituições e artistas confiem em você, vejam que você tem responsabilidade e continuidade a longo prazo”, explica. “Esse é um trabalho que nunca termina. Vai sendo construído com o tempo e se fortalecendo.”  

A primeira individual do Mahku na galeria acontece em meados de outubro, como parte das comemorações de aniversário. Com forte presença institucional dentro e fora do Brasil, o coletivo ajudou a sedimentar a imagem da Carmo Johnson Projects, da mesma forma que a galeria construiu e consolidou a carreira do grupo na arte contemporânea, trabalhando em importantes projetos como a individual no Masp em 2023, e as participações na exposição internacional da 60ª Bienal de Veneza, em 2024, e na coletiva Les Vivants, com curadoria do antropólogo Bruce Albert, na Fondation Cartier de Lille, França (2022).   

Carmo Johnson vem bordando sua história com pontos firmes e indeléveis, representando obras de sensibilidades não-hegemônicas que perscrutam outras possibilidades de porvir.  

 

 

Serviço
Trejeitos do Tempo
Leila Sarquis, Michel CENA7 com Raquel Ramalho, Renato de Cara com Bertha Eunice
Curadoria: Renato de Cara
Texto: Lenora de Barros
Carmo Johnson Projects
Visitas por agendamento pelo tel. 11 93090-7061
Até 1º/8