Em sua exposição individual, O Tempo É, Carolina Cordeiro traz à nossa boca um gosto metálico. Implica nosso corpo em uma palavra-espelho-imagem: zinco.
Zinco que nos atravessa em um silêncio sincopado, que nos convoca a uma desaceleração, a um tempo de reflexão.
Talvez eu siga fora das palavras, porque Cordeiro situa o zinco, dialeticamente, entre duas tradições brasileiras que o excluem: a arquitetura moderna e a arte construtiva.
Esse acento crítico e político presente na mostra em cartaz na Galatea, em São Paulo, por um lado recusa o caráter moralista e espetacular dos procedimentos de cancelamento tão em voga na arte dita política. Por outro, é intensificado em uma chave que nos convoca a pensar a política, o agir político do artista por meio da dimensão poética, da beleza ambígua, contraditória, dialética do zinco na música popular brasileira, no samba.
A artista também não recusa –nem se filia a– essas duas tradições. Situa-as em um devir crítico e reflexivo. Nos trabalhos expostos, esse devir assume a forma de uma relação dialética; o zinco ocupa um lugar simultaneamente entre-fora-dentro das duas tradições. Como falar desde aí? Impasse do conhecimento.
Dessa perspectiva, se ainda sigo fora das palavras é também porque em O Tempo É Carolina Cordeiro nos confronta com a crise do nosso léxico, vocabulário, e gramática artísticos nos quais o zinco – e tudo que ele significa – não encontra lugar.
Seguir fora das palavras não me impede de saber – e aqui se trata do saber de um corpo que foi implicado e se implicou em O Tempo É – que palavras como “precariedade” e “miséria”, evocadas por João Perassolo em reportagem recente na Folha de S.Paulo, não são habitáveis quando deparamos com o conjunto de obras na mostra de Cordeiro.
O gosto metálico não apenas trava nossa língua, mas também nos obstrui certas palavras, nos desautoriza a evocar o léxico dado, estereotipado, fetichista dos que atribuem um caráter precário e de gambiarra a tudo que escapa à gramática hegemônica, ao que é oriundo do Sul Global, produzido por determinados corpos. Trabalhos que elegem materiais ditos precários não são necessariamente precários. E, se é possível formar um consenso acerca das obras expostas, é que elas definitivamente não são precárias nem evocam a miséria.
Em O Tempo É, a artista faz reluzir o zinco em sua beleza metálica, entre espelhos e temporalidades. Entre o corte e o abrigo. E, mais, quando ferido, perfurado, o zinco não opera desde uma negatividade, ao contrário, se abre para uma dialética do sim e converte o chão/ paredes em um céu de estrelas.
Aqui, o zinco que resiste, abriga, fere, possui o temperamento e o tempo da poesia, assim como no samba, referência conceitual e formal da artista. Para Jacques Rancière, a poesia “constrói um tempo específico no qual o desdobramento dos fatos é idêntico ao de uma cadeia de causas e efeitos”.
SÓ O SIM ENGENDRA OUTRO SIM
Pensando com Rancière, ainda muito afetada por O Tempo É e muito desconfortável com as imagens que o texto de Perassolo associa aos trabalhos, vou chegando em um certo entendimento (ainda que provisório) sobre o “ainda sigo fora das palavras”.
Em sua dialética afirmativa, O Tempo É parece se abrir e nos abrir para uma sequência de sins. E, como nos alerta Alain Badiou, só o sim engendra outro sim. Em um mundo no qual a política foi substituída por discursos e disputas de natureza moral e que, portanto, se estrutura no não, na negação e destituição de tudo que não se conforma a um determinado valor, pensar desde uma dialética que não opera na negatividade é pensar desde o aberto.
A radicalidade crítica de O Tempo É reside também no fato de que os três trabalhos que a constituem não se prestam a fazer uma acusação, nem dar uma resposta, nem tampouco fazer uma reparação. Isso significa dizer que esses trabalhos nos convocam a nos implicar desde o aberto, a pensar e operar desde o sim, ou seja, desde a potência prévia de uma afirmação.
Ao que parece, para Cordeiro essa potência prévia da afirmação tem um dos possíveis começos no sim que a dialética do zinco engendra em duas tradições fundamentais do nosso pensamento artístico/arquitetônico. Tradições que são constitutivas tanto de um imaginário de Brasil como um país do futuro quanto de uma suposta “vocação” construtiva de uma arte dita brasileira.
É no aberto do zinco, em sua dialética do sim – desde um devir crítico e reflexivo –, que essas tradições, em seus equívocos, violências e limites, mas também no que nos colocam de possibilidade, de aberto, são ressituadas nas urgências e exigências do tempo presente.
Fabrícia Jordão é curadora e professora. Doutora e Mestre em Artes pela ECA/USP. Em 2019 recebeu o prêmio de melhor tese da CAPES (Artes) com pesquisa que investigou as contribuições e atuações institucionais de críticos de arte e artistas visuais no processo de redemocratização brasileira. Desde 2019 atua como professora de curadoria e coordenadora do Laboratório de Imaginário Radical na UFPR. Onde se dedica a pensar arte e política no contexto de hegemonia do imaginário capitalista. Dentre outras exposições, foi curadora ou co-curadora das mostras 67o Salão Paranaense de Arte Contemporânea (MAC-PR, 2022), Raquel Nava (Museu Nacional da República-DF, 2022), Alice Ricci (Espaço Cama-SP, 2021); Alex Vallauri (Museu Nacional da República-DF, 2021); Estratégias do feminino (Farol Santander, Porto Alegre, 2019), Pequenos gestos: memórias disruptivas (MAC-PR, 2019), I Bienal Latino-Americana de São Paulo, 40 anos depois (Centro Cultural São Paulo, 2019).
Serviço
O Tempo É, individual de Carolina Cordeiro
Até 14/10
Galatea, Rua Oscar Freire 379, São Paulo