A Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) acaba de divulgar o resultado do Prêmio ABCA 2026 — reconhecimento anual que, desde os anos 1970, acompanha e registra momentos decisivos das artes visuais no país. Tradicionalmente a premiação sempre reiterou nomes historicamente consagrados e acabava centralizando suas escolhas na região Sudeste, nas últimas edições, culminando na de 2025, houve um movimento de valorização da diversidade: não apenas de nomes e territórios, mas também de práticas artísticas, modelos expositivos e novas formas de circulação voltadas ao local e ao regional.
Ainda que o que esteja em jogo seja o reconhecimento de trajetórias já consolidadas no campo das artes visuais brasileiras,— como nos prêmios Mário de Andrade (trajetória em crítica) que consagra a crítica Sônia Salzstein, responsável pela criação do programa de exposições do Centro Cultural São Paulo e, Paulo Mendes de Almeida (melhor exposição do ano) — para a exposição A arte de amar, a arte de resistir, da artista Maria Bonomi, com curadoria de Paulo Herkenhoff e Maria Helena Peres, no Paço Imperial (Rio de Janeiro), o que vemos este ano é um um panorama em que diferentes gerações e formas de atuação convivem e se atravessam.
O Prêmio Ciccillo Matarazzo, voltado a personalidades atuantes no meio artístico, confirmou a crescente valorização do setor educativo nas instituições ao premiar Renata Bittencourt, diretora de Educação do Instituto Moreira Salles (IMS). Já o Prêmio Sérgio Milliet para pesquisa publicada elegeu A gênese da curadoria no Brasil (Propágulo), de Cristiana Tejo — uma revisão histórica do papel do curador que, até pouco tempo, ocupava o centro das atenções.
O tão aguardado Prêmio Mário Pedrosa para artista contemporâneo foi para Gê Viana, artista maranhense cuja prática insólita de colagens e fotomontagens confronta a cultura colonizadora hegemônica, bem como os sistemas de arte e comunicação. Na categoria Reconhecimentos Regionais, a região Norte premiou a fotógrafa paraense Paula Sampaio, que constrói seu repertório a partir de caleidoscópios de imagens-históricas — ora percorrendo o corpo amazônico, ora inventariando as ruínas dos casarões de Belém, últimos testemunhos do apogeu da exploração da borracha.
Ainda entre os Reconhecimentos Regionais, destaque para a região Centro-Oeste com a FARGO – Feira de Arte de Goiás, pelo papel na descentralização do mercado das artes e por revelar a potência do Cerrado como novo ponto de convergência entre artistas, galerias, colecionadores e público. Na região Sul, a premiada foi a Fundação Vera Chaves Barcellos (FVCB) — instituição privada sem fins lucrativos em atividade desde 2005, com sede em Porto Alegre e Viamão (RS), onde ocupa 3 hectares e 860 m² de área construída, abrigando exposições de seu acervo com mais de 4 mil obras de 800 artistas brasileiros e internacionais.
Alessandra Simões Paiva, presidente da ABCA, acredita que essas mudanças estão em evidência porque a própria entidade vem se transformando estruturalmente. “Existe um esforço contínuo para que mais pessoas se envolvam internamente, proponham nomes e compreendam o prêmio como um instrumento vivo de debate sobre o campo da arte.” Para Paiva, a crítica deve funcionar não apenas como mecanismo de consagração, mas como espaço de tensionamento e fortalecimento do debate público. “Precisamos incentivar o fortalecimento da ABCA em uma época em que as instituições culturais públicas estão cada vez mais desacreditadas. Somos uma das mais antigas e maiores associações de críticos do mundo”, pontua, lembrando que a entidade, integrante da Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA), completou 77 anos e conta com 180 associados espalhados por todas as regiões do país — um dos maiores contingentes de toda a AICA, com participantes que não são apenas pesquisadores mas atuantes no sistema.
Para Juliana Crispe, vencedora da categoria Gilda de Mello e Souza (jovens críticos), a ABCA exerce papel essencial na construção da memória das artes visuais no Brasil. Embora o Sul do país, onde iniciou sua produção, seja frequentemente entendido como território “privilegiado” em termos econômicos, em Santa Catarina — afirma — a história das artes visuais sempre foi marcada pela ausência de incentivo e reconhecimento institucional. “Aqui, fazer arte e cultura é, muitas vezes, um exercício de insistência e paixão.”
Deri Andrade, criador do Projeto Afro, vencedor do Prêmio Antônio Bento para difusão das artes visuais na mídia, celebra: “Receber este prêmio da ABCA é de muita alegria para o Projeto Afro, que vem trilhando, há quase dez anos, um caminho por uma mudança epistêmica e de referencial sobre o pensamento e sobre a arte produzida no Brasil.” Andrade reconhece a importância do prêmio como validação para sua plataforma. “É perceptível uma vontade e um movimento por mais diversidade na Associação. Este prêmio é do Projeto Afro e de todas as pessoas artistas, curadoras, pesquisadores, parceiros que acreditam na plataforma.”
A cerimônia de premiação será no dia 27 de agosto, às 19h, no Teatro Antunes Filho (Sesc Vila Mariana, São Paulo). O troféu está sendo criado pela artista Mônica Ventura, que terá sua primeira individual — Antes da forma, o encanto — inaugurada em 26 de maio, na Galeria Nara Roesler. A peça, revelada apenas no dia do evento, reflete a poética da artista: fortemente ancorada em aspectos construtivistas e tridimensionais, bem como na reinterpretação de elementos culturais pré-coloniais — como a arquitetura e as técnicas de trabalho manual dos povos afro-ameríndios. A cerimônia é aberta ao público e conta com produção da equipe do Sesc, parceiro que há muitas edições apoia o prêmio ABCA. “Espero que a arte possa ser praticada por todos, em todas as idades, e o acesso a ela seja infinito e sempre público”, comemora Maria Bonomi.
Vencedores do Prêmio ABCA 2026
Prêmio Gonzaga Duque – crítica associada por atuação ou publicação de livro
Priscila Arantes
Prêmio Mário Pedrosa – artista contemporâneo
Gê Viana
Prêmio Ciccillo Matarazzo – personalidade atuante no meio artístico
Renata Bittencourt
Prêmio Sérgio Milliet – pesquisa publicada
Cristiana Tejo – A gênese da curadoria no Brasil (Propágulo)
Prêmio Mário de Andrade – crítica de arte pela trajetória
Sônia Salzstein
Prêmio Clarival do Prado Valladares – artista pela trajetória
Marlene Almeida
Prêmio Maria Eugênia Franco – curadoria de exposições
Bitu Cassundé – Luiz Braga: Arquipélago Imaginário (Instituto Moreira Salles, São Paulo)
Prêmio Rodrigo Mello Franco de Andrade – instituição por sua programação
Centro Cultural do Cariri
Prêmio Antônio Bento – difusão das artes visuais na mídia
Projeto Afro
Prêmio Paulo Mendes de Almeida – melhor exposição do ano
Maria Bonomi: A arte de amar, a arte de resistir
Curadoria: Paulo Herkenhoff e Maria Helena Peres | Paço Imperial (Rio de Janeiro)
Prêmio Emanoel Araújo – coleção, acervo, conservação e documentação histórica
Fundação Museu do Homem Americano – Parque Nacional da Serra da Capivara
Prêmio Yêdamaria – ações educativas e de mediação
Galpão Bela Maré / Observatório de Favelas da Maré (Rio de Janeiro)
Prêmio Gilda de Melo e Souza – jovem crítica
Juliana Crispe
Reconhecimentos regionais
Centro-Oeste — FARGO – Feira de Arte de Goiás
Nordeste — Galeria Amparo 60 (Recife, PE)
Norte — Paula Sampaio
Sudeste — Ateliê 397
Sul — Fundação Vera Chaves Barcellos
Astrid Façanha é jornalista, Doutora em arte, membro da ABCA desde 2024