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Frame do vídeo Versos de Porquería (2021), de Naomi Rincón Gallardo (Foto: Cortesia Galeria Luciana Brito e Josue Samol)
Postado em 19/12/2023 - 3:56
NO PISCAR DE OLHOS DE UM COLIBRI
Marilyn Boror Bor, Donna Conlon e Paz Errázuriz flagram o crepúsculo de um mundo, flertando com os devires ainda possíveis

O chão da galeria está recoberto por lápides. Lemos os nomes de Ajtun Cuyuchi Andres, Andrea Ximena Rompich Trinidad, Daniela Alejandra Ajcot Cacao, Ramiro Jo Cucul, envoltos pelo silêncio que é apropriado ao contexto da morte.

Quem são todas essas pessoas indígenas, cujos nomes foram inscritos ao lado de uma cruz plana preta simples nos azulejos? Edicto Cambio de Nombre (2018), instalação de Marilyn Boror Bor, acontece em dois tempos na mostra Primavera Silenciosa. As lápides de azulejo na primeira sala da Galeria Luciana Brito nomeiam os incontáveis indígenas que vivem na Guatemala e se sentiram compelidos a adotar um nome ocidentalizado; eles estão vivos, mas sua identidade indígena morreu com o abandono do próprio nome.

No percurso que fazemos sobre esse piso para chegar à segunda sala expositiva, passamos por um jardim, onde vemos uma lápide de pedra, instalada aos pés de uma árvore. Ali se somam mais dois nomes à lista mental que enumerávamos
pelo caminho: “O estado da Guatemala aprova a mudança de nome de Marilyn Elany Boror Bor [Maio 1984 – Agosto 2018] por Marilyn Elany Castillo Novella – Em memória dos corpos maias órfãos violentados pelo estado racista da Guatemala”.

“Ao revogar seu próprio nome indígena, mediante um processo legal”, anota a curadora Alexia Tala, sobre Edicto Cambio de Nombre (2018), no ensaio que acompanha a mostra, “[Marilyn] adota o sobrenome europeu de uma das famílias mais poderosas do país, e que detém a posse das cimenteiras que acabaram com a tradição de seu povo de cultivar flores para exportação.” A artista de origem Maya-Caqchiquel endereça a destruição do cultivo de flores pela chegada de um grande fabricante de cimento na cidade de San Juan Sacatepéquez também nas obras que expõe atualmente na 35ª Bienal de São Paulo.

Monumento Vivo (2023) é uma performance que Boror Bor realizou no dia da abertura da Bienal: com vestimentas maias típicas, a artista ficou durante uma hora sobre um pedestal, no qual foi despejado cimento fresco, cobrindo seus pés. Na base do pedestal, que segue exposto até 10/12, uma placa sinaliza: “Em memória dos defensores da terra. Em memória dos guias espirituais. Em agradecimento aos presos políticos. Em agradecimento aos líderes comunitários. Liberdade para os rios, os lagos, as colinas, as montanhas e as flores”.

No vídeo oficial de registro da ação, vemos a artista subir no pedestal e colocar-se primeiramente voltada para o parque, para em seguida assumir a posição frontal (alinhada com a placa do monumento), com a instalação de Kidlat Tahimik ao fundo; o público percorre o entorno, observa, curioso, os funcionários que manuseiam o cimento, tira fotos e segue a vida. Poucos ficam, aguardam, notam o movimento mínimo que às vezes Boror Bor faz com as pernas, testando a resistência do cimento.

Kawoq (2023), videoperformance do Colectivo Tz’aqaat, formado por Cheen (Cortez) & Manuel Chavajay (Foto: Cortesia Galeria Luciana Brito e Josue Samol)

Quando desce dali, a artista caminha descalça pelo pavilhão até o segundo piso, onde estão as obras de suas séries Nos Quitaran la Montaña, nos Dieron Cemento (2022) e El Futuro Que Nunca Fue (2023); a performance termina diante dessa última, um tríptico de pinturas, sobre uma das quais vemos o movimento firme de mão e punho da artista batendo para derrubar a camada de cimento que a encobria.

PROCESSOS CELULARES
A crise ambiental é o pano de fundo de muito da produção artística indígena, no Brasil e no mundo, o que fica evidente na curadoria Primavera Silenciosa, a começar pelo título emprestado de um livro pioneiro no assunto, que versa sobre o
impacto dos inseticidas nos processos celulares de plantas, animais e seres humanos. Concebida em torno da pesquisa de artistas da América Central, a curadoria de Alexia Tala divide-se em três segmentos: preservação/regeneração; exotização e silenciamento; extrativismo e outras agressões do Capitaloceno.

“Na natureza cíclica, sempre esteve ali a capacidade de adaptar, de ressurgir e de regenerar. Eis a própria primavera para nos lembrar disso da forma mais singela. Dentro dessa proposta, a obra De las Cenizas (2019), da artista Donna Conlon (Panamá), pontua o tema com graciosidade: um colibri é contemplado de muito, muito perto, acolhido por uma mão humana, mas não se move”, escreve a curadora. O pássaro inerte, descobre-se no decorrer do vídeo, estivera inconsciente (devido ao procedimento de fixar nele um chip para monitoramento e preservação da espécie), e a descoberta acontece no microssegundo em que o colibri pisca o olho – piscada captada em um zoom –, para depois retomar desajeitadamente
a batida das asas, virar-se e voar.

Palo/Madera (2022), de Benvenuto Chavajay (Foto: Cortesia Galeria Luciana Brito e Josue Samol)

No piscar de olhos de um colibri, despertamos com ele para a possibilidade da vida. Isto não significa que a exposição termine com um aceno otimista: ali estão, por exemplo, os retratos da série Los Nómades del Mar (1995-2016), de Paz Errázuriz, em que a fotógrafa chilena parte em busca dos poucos sobreviventes Kawéskar, no extremo sul do continente americano, para fotografá-los e “deixar sua imagem como testemunho dos extermínios genocidas aberrantes de todos os povos indígenas nômades do sul do Chile, a partir de 1877. Por meio desses retratos, ela mostra que o conhecimento e a compreensão do território do sul que habitavam também se perderam com eles”, sentencia Tala.

Primavera Silenciosa
Até 20/12
Galeria Luciana Brito,
Avenida 9 de Julho 5.162
lucianabritogaleria.com.br