icon-plus
Detalhe de imagem da série Retrato do Espírito (2021-em andamento), de Yhuri Cruz (fotos: cortesia do artista/ Felipe Berndt)
Postado em 12/08/2026 - 12:39
Proposta para destruir uma entrevista, pela opacidade
O formato entrevista, tradicionalmente, tem como ponto nevrálgico um desvelar lógico, uma construção linear de pensamento sobre uma história, uma ideologia, um fato, uma subjetividade

Há um interesse objetivo, por parte do entrevistador, em recorrer às lacunas do pensamento do entrevistado, a fim de conectar aquilo já apreendido por ele, anteriormente, com uma nova informação adquirida. A entrevista é glutona e a transparência é seu mote. Proponho uma entrevista movida pelo inverso de seu desejo primário, pela mediação da opacidade e da permissão ao resguardo de ideias, informações na abertura de novas lacunas, um programa performativo para a entrevista.

Ilustração de Nina Lins, diretora de arte de celeste

O PROGRAMA
Um produtor X elege um entrevistado B e agenda uma datapara a troca.

No dia marcado, a entrevistadora A aguarda o entrevista-do B, sem conhecer a sua identidade, dentro de um dark room, ou um palco de teatro sob blackout ou uma sala com divisórias.

Esta ação pode ser feita em locais abertos, com recepção de público, ou não.

O entrevistado B entra no espaço escuro guiado pelo produtor X.

A entrevistadora A, que não se preparou para a entrevista por não saber quem é o entrevistado B, não busca chegar a um resultado nítido e transparente.

O entrevistado B não sabe quem é a entrevistadora A, não tem respostas prévias, medos prévios, desejos prévios.

Entre eles, há apenas um espaço, corpos e o escuro em suas lacunas opacas para uma possível entrevista fantasmagórica.

A entrevista tenta se desenrolar escapando de perguntas mais diretas ou reveladoras, ela não quer revelar nada, mas sustentar um mistério.

As luzes podem ser acesas ao fim, revelando o entrevistador e o entrevistado. Ou não.

AS QUESTÕES DE FUNDO
Este é um desafio para nosso tempo transparente, infocrático e hiperimagético.

Que perguntas podem emergir de um espaço em que não conheço o outro, não o vejo?

Como posso conhecer o outro a partir de outras perspectivas de pensamento que não sejam as esperadas, as idealizadas, as imaginadas na redutiva prospecção da imagem?

Como se interessar pelo outro em sua completude, enquanto sujeito ou enquanto trabalhador da arte, sem pré-conceitos estabelecidos, sem uma crítica prévia, sem decodificações binárias ou maniqueístas, proporcionadas pela hegemonia imagética?

Como amar o ofício da entrevista sem que uma seleção guie e controle o acontecimento?

Como uma entrevista pode deixar que o acontecimento aconteça?

Isto é uma entrevista, um encontro às cegas ou um happening lúdico da outridade?

Ilustração de Nina Lins sobre imagens da série Retrato do Espírito (2021-em andamento), de Yhuri Cruz (fotos: cortesia do artista/ Felipe Berndt)

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste exercício, embrenhados na opacidade, talvez surjam informações, detalhes, preciosidades que só o invisível é capaz de ofertar.

A ideia glissantiana de outridade, de diversidade, de tout monde está posta com esta proposta.

PADMATEO MENEZES é artista, pesquisadora, curadora e escritora. Pós-graduanda em Crítica e Curadoria pela PUC-SP e graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Salvador. É editora-chefe da revista Do Hiato, Litígio e curadora da Bienal de Performance da Bahia.