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Cena de Puan (2023), dirigido por María Alché e Benjamín Naishtat [Foto: Divulgação]
Postado em 07/12/2023 - 10:10
Contradições entre vida e pensamento nas Américas
Estreia hoje, 7/12, a comédia argentina Puan, coprodução brasileira escrita e dirigida pela dupla María Alché e Benjamín Naishtat sobre uma intriga acadêmica no Departamento de Filosofia

Conhecidos por filmes dramáticos como Família Submersa, de Alché, e Vermelho Sol, de Naishat, os autores foram premiados no Festival de Sán Sebastián por um roteiro leve e divertido, que se desenrola a partir da morte do professor-titular de Puan, nome da rua onde se localiza a “Filo UBA”, a Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires.

Ironicamente, o velho representante da geração de intelectuais que enfrentou a violentíssima ditadura argentina sofre um mal súbito durante um treino de corrida. Seu herdeiro intelectual, o rechonchudo e desajeitado Marcelo Pena, vivido por Marcelo Subiotto, que também foi premiado na cidade basca, seria o candidato natural para o cargo, mas o antigo colega Rafael Sujarchuk (Leonardo Sbaraglia, de Relatos Selvagens) decide participar do concurso. 

Anuncia-se um embate entre a autenticidade de Pena e a arrogância de Sujarchuk, mas o filme inteligentemente evita maniqueísmos. Diante dos colapsos da economia, do eurocentrismo e do patriarcado, com o mundo na iminência do desmoronamento, a reconciliação com o outro se anuncia como uma única saída.

DIANTE DOS COLAPSOS DA ECONOMIA, DO EUROCENTRISMO E DO PATRIARCADO, A RECONCILIAÇÃO COM O OUTRO SE ANUNCIA COMO UMA ÚNICA SAÍDA

Apesar da gravidade dos temas da morte do filósofo e de sua falta entre os discípulos, a cada ato somos alertados sobre a ironia do enredo por closes em detalhe que lembram Alfred Hitchcock e Blake Edwards. O cenário da filosofia universitária contribui para esse espírito de contradição, uma vez que há uma cômica estranheza entre as ideias filosóficas e as coisas do mundo. A mania de Pena de ler de cabeça para baixo, porém, indica uma leitura crítica dos textos clássicos capaz de torná-los pertinentes para uma compreensão da realidade, como os “óculos de ideologia” que, no prefácio para The Plague of Fantasies (1997), o filósofo esloveno Slavoj Žižek encontra no filme Eles Vivem (John Carpenter, 1988), capazes de revelar a manipulação de massa oculta por trás de cartazes de publicidade e mostruários farmacêuticos. Seria possível usar os óculos de ideologia para estudar Filosofia?

De fato, as aulas de Pena comovem e iluminam os alunos, seja explicando a consciência da mortalidade como realidade humana em Heidegger para uma milionária idosa e solitária, ou mostrando para alunos de periferia que o policial presente na sala incorpora a ideia de Hobbes de que sem um Estado detentor do monopólio de violência viveríamos em guerra, ou, na sala de Puan, onde em meio à linguagem visual típica das paredes universitárias, repletas de cartazes sobrepostos e rasgados como os quadros de Jacques Villeglé, entre os quais se entrevê uma efígie de Lula, contando como Rousseau surpreendeu o público francês com sua crítica ao progresso e à desigualdade.

Pena, porém, trata com desdém tanto a referência de um aluno ao pensador peruano José Carlos Mariátegui quanto o convite de uma filósofa boliviana de origem indígena para substituir o falecido mestre em um congresso sobre o pensamento decolonial. É no embate com Sujarchuk que Pena se torna o que é. Apesar de irritar com seu pedantismo exibicionista, o filósofo carismático cativa o Departamento com seu currículo repleto de colaborações com grandes nomes nos EUA e na Europa. Sua aula sobre Espinosa, como contraponto ao Hobbes de Pena, é um sucesso. É verdade sobre Puan o que o crítico Inácio Araújo escreveu sobre Música Feroz (1993), um outro filme argentino que se passa na Faculdade de Filosofia, mas entre estudantes, e entre eles, o mártir do rock argentino Tanguito: “a história poderia, sem enormes retoques, ter acontecido no Brasil”. Na rua Maria Antônia em São Paulo teríamos nossa Puan.

NA RUA MARIA ANTÔNIA EM SÃO PAULO TERÍAMOS NOSSA PUAN

O filme apresenta duas canções que interagem dialeticamente. O rock de Charly Garcia, Dos Cero Uno (1983), projeta a vida adulta do ponto de vista de um jovem. Ao longo da história, porém, Marcelo Pena tenta cantar o belíssimo tango Niebla de Riachuelo (Cadícamo & Colbián, 1937). Cantar tangos, assim como ler filosofia de cabeça para baixo, é, conforme Pena explica a seu filho, um de seus “talentos”. Mas, na casa de Doris (Alejandra Flechner), viúva do falecido professor Caselli, algo o impede. Uma segunda oportunidade de cantar também é frustrada. Somente ao final, depois que os antagonismos sociais exigem dos filósofos, mais do que tomadas de posição, atitudes, as duas canções são apresentadas uma após a outra.

A cena que, como diria o crítico brasileiro, “justifica o filme” é o tocante passeio da câmera pela biblioteca de Caselli, onde, segundo Doris, Pena e ele passavam horas a fio fazendo sabe-se lá o quê, “lendo, filosofando”. A biblioteca é o “único lugar que não consegui mexer”, afirma ela. Ali, Pena vê livros de Mariátegui e José Martí. Recebe, por fim, o último caderno do seu professor. Niebla de Riachuelo não é apenas uma bela letra sobre a consciência acerca da perda e, portanto, sobre o trabalho de luto. É, por isso mesmo, uma profunda reflexão filosófica. Por que chamar de “pensamento latino-americano”? Por que não chamar de “filosofia americana”, pergunta-se Doris ao entregar o caderno para Pena.

Puan conta como a morte do filósofo exige que seus sucessores se reconcilem por meio da luta política e da crítica anticolonialista.

 

José Bento Ferreira é doutor em Artes e professor de Filosofia.