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Postado em 22/06/2026 - 5:49
Queimar os drives e experimentar
Em entrevista, DJ Adame comenta a trilogia Rolê e a forma como Músicas para Ouvir no After posiciona o funk frente à música eletrônica internacional

Sem saber muito bem por quê, são 7 da manhã e você ainda está em pé. A festa acabou e, para aqueles que aguentaram até o fim, o after é um troféu. Pelas melhores e piores razões, afters costumam ser tão memoráveis quanto desconcertantes. E o rumo de Músicas para Ouvir no After, de DJ Adame, terceiro volume da trilogia Rolê — e o mais extenso deles — anda nessa estrada. 

O funk tem uma gramática rítmica muito particular, assim como o gabber, o uptempo, o psytrance e outros gêneros da música eletrônica têm as suas. O esforço por identificar semelhanças estruturais entre eles exige certo esclarecimento tanto da forma como cada gênero constrói e destrói suas tensões quanto da maneira que trabalha o impacto e o intervalo que dão corpo a uma base específica.

DJ Adame foi buscar essa escuta em lugares que vão desde as festas do Espírito Santo, onde teve seu primeiro contato com música eletrônica, até clubes com dress code visitados na Europa e no estúdio do Boys Noize, onde esbarrou com um sintetizador modular que virou de ponta cabeça a sua ideia do que um som pode ser antes de existir como música.

Os três volumes da trilogia seguem uma sequência que Adame descreve como a da própria noite: a preparação, o rolê e, por fim, o after. Começa na playlist de quem está se arrumando para sair, cheia de gêneros que não se comunicam muito bem entre si — ao modo da animação de um esquenta. O segundo é um EP de quatro músicas que o próprio DJ reconhece como incompleto, como quem saiu da festa antes da hora. O terceiro existe para acertar a conta: começa dentro do rolê, com alguém, e termina depois que tudo acabou — em casa.

A primeira faixa, a Intro, repete uma voz que fala “Cachoeiro”. Adame transformou essa acapella em grave para depois fazer disso um beat, levando a faixa a se revelar simultaneamente como voz e um tipo de estrutura rítmica da faixa. Cachoeiro de Itapemirim é a cidade onde nasceu, e o fato de ela abrir o álbum indica uma localização. Afinal, antes de qualquer rolê, estamos em casa. E é para lá que voltamos quando tudo termina.

As faixas do álbum são invariavelmente, híbridas, distorcidas e saturadas ao mesmo tempo em que articulam algo de etéreo e mecânico. Numa experimentação com a música eletrônica internacional misturada com funk mandelão e capixaba – o beat fino –, os gêneros gabber e uptempo somam cerca de metade das faixas ao passo que o restante se distribui entre psytrance, slap house e trance. Mas o que Adame persegue é o ponto depois da combinação, quando já não se sabe mais o nome de nada e o corpo ainda está em pé sem entender direito o motivo.

Adame só trabalha à tarde, num estúdio com uma parede inteira de vidro, sob luz natural. A música feita para a madrugada nasce durante o dia, num ambiente ensolarado. E a energia do after vira produto de uma escuta detalhista, feita de pequenas decisões tão intencionais quanto capazes de simular a falta de clareza. Mesmo porque a tarefa de dar algum sentido ao esforço para “não fazer sentido” está, para o artista, entre as atitudes mais difíceis de sustentar.

 

O álbum fecha uma trilogia. Como ela foi se construindo?

Quando comecei o primeiro álbum, Músicas pra Ouvir Antes do Rolê, não tinha ideia de que seria uma trilogia. A ideia surgiu numa conversa com um amigo e eu não tinha muito objetivo — só queria fazer música, queria agrupar coisas, nunca tinha feito álbum. Senti que precisava de uma continuidade. Afinal, tem a música pra ouvir antes do rolê… Então, agora, tem que ter o rolê. E junto com o rolê veio a ideia da volta. Isso demorou uns três anos para se firmar.

Só que, como um EP é menor, quando fiz Rolê eu tinha muitas músicas que fui refinando, entendendo o feeling de cada uma, e decidi não colocar tudo. São quatro músicas só, bem diferente do primeiro, que tem nove, e do terceiro, que tem dezoito. Mas foi justamente porque eu quis entregar muita coisa no Rolê e não consegui. Então resolvi entregar tudo, toda a energia que eu quero para finalizar bem.

E de que modo acontece essa relação entre os três álbuns? No primeiro, você conta uma história. Falando das faixas, como essa história inicia, segue para o rolê e termina no after?

Essa comunicação tem duas partes. A primeira é instrumental — eu foco muito mais no instrumental do que no que está sendo cantado. Mas tem uma história também, porque é funk. Ou seja, é uma história da carnalidade de um rolê, de você sair, querer ficar com alguém. O primeiro álbum é a energia de se preparar e por isso ele é meio confuso de gêneros. Porque, quando você coloca a playlist para se arrumar, ela vai ter coisas que não se comunicam muito bem, mas dizem tudo sobre a energia que você quer pra depois. Já o segundo, ele é mais festa mesmo. E o terceiro… As primeiras seis músicas são sobre você ainda na festa com alguém, e depois as coisas acabam e você segue pro after em casa.

Ainda sobre as tracks, várias questões relacionadas à mistura com outros gêneros da música eletrônica — que você vinha trabalhando desde 2023, como em “Tomabala” — aparecem mais claras no álbum. Pensando sobretudo nesse interesse por experimentar com a relação entre funk e techno, como você enxerga os avanços, ou sofisticações, que acontecem nesse álbum?

De 2022 a 2024, eu tinha certo medo de misturar. Ainda não morava em São Paulo, não tinha noção de público e não entendia muito bem como as pessoas que consomem o meu trabalho reagiriam. Em cidades do interior, falando de música experimental, é mais difícil para as pessoas entenderem o que você está fazendo. Provavelmente por isso é que eu tentava agradar mais com o funk, deixar as músicas mais digeríveis.

Depois, fui tomando mais liberdade. Faço música hoje primeiro pra mim e depois para o meu público. Acho que só é possível fazer aquilo que eu realmente quero desse jeito. Isso influenciou a forma como eu penso enquanto produtor. E, junto, veio a coisa de pegar o que eu consumo — techno, drum and bass e diversos outros gêneros — para interpretar e reinventar no funk. Começou como um tipo de tentativa por testar novas possibilidades de experimentação dentro do funk.

Você enxerga essa transformação também nos sets? Como o seu trabalho enquanto produtor afeta o que você faz como DJ?

Num set, eu penso em construção, em certa história sendo contada — assim como fazem os sets de música eletrônica que acho mais desenvolvidos. A maior parte dos sets que você ouve num rolê, numa rave de trance, é um set pensado como a construção de uma história, em que você trabalha a energia das coisas. Isso no sentido de ter momentos que realmente são mais calmos, momentos para você parar, respirar e descansar, para quando chegar o momento de euforia, você ter total energia para isso. 

Às vezes, eu faço o contrário. Construo uma tensão para depois tirar essa tensão toda e te deixar num vácuo, que também é interessante. Isso eu pego de outros gêneros. É um pouco diferente do trance, por exemplo, mas também é interessante a maneira que o trance trabalha a construção de energia, a construção de uma história de um set, diferente das minhas produções. Mas as músicas que eu produzo, é claro, são feitas pensando também nisso.São pequenas construções dentro das faixas a partir das quais eu consigo relacionar uma com a outra. Isso é a composição de um set. E, estudando as tracks, consigo entender certas estruturas que depois viram vocabulário para o que eu faço.

Há uma relação que parece muito estreita no modo como você trata o funk não como um tema ou assunto, mas como música. Como você entende a sua relação com essa música eletrônica do funk em relação às outras vertentes? 

As pessoas falam do funk como se não fosse música eletrônica, mas ele é. Acontece que costumam associar música eletrônica com house, com techno, e o funk fica separado. Mas o funk também é eletrônico. Tendo isso em mente, a música eletrônica você ouve para viajar com ela. Um psytrance, que é o trance psicodélico — por isso é “psy”, que vem de psicodelia —, leva você a desenvolver toda uma imaginação. Tem um universo que você constrói. O house tem o seu universo também, você constrói os seus efeitos e isso vai criar um certo ambiente, um certo espaço. Eu penso que o funk também pode ter esse ambiente, esse espaço que você vai ouvir, você vai viajar, mas vai ser algo que seja dançante. E se não for dançante, tudo bem também. Às vezes o funk pode ser só algo viajado. Mas eu penso que ele pode sim ter algo disso que tem nos outros gêneros da eletrônica.

Dado que existe a relação do funk como música eletrônica, e pensar um papel dele que é diferenciado de um papel que é só uma tematização, de que modo você vê a diferença entre o que foi o Adame do Espírito Santo, formado numa cena mais provinciana, de interior, do que é o Adame depois da turnê da Europa, já com esse diálogo mais sólido com os clubes e a produção de artistas internacionais?

Antes de eu começar a sair, de ir em festas de verdade, não tinha noção. É muito sobre o que a gente experimenta, o que a gente consome, onde a gente tá inserido. Meu primeiro contato com música eletrônica de fato foram as raves do Espírito Santo. Foi aí que eu comecei a entender um pouco melhor como é que funcionam outras coisas. 

Eu já produzia nessa época, lá em 2020, 2021. Foi quando comecei a sair em festas que não fossem bailes, festas de funk, e entender como eram outros universos. Na minha primeira Eurotour, eu pude ir num clube de techno de verdade — um clube que tem dress code, em que se você estiver com uma roupa que não seja condizente com o ambiente você não entra. Toda essa inserção em outros ambientes mudou meu pensamento sobre como a música bate nas pessoas, como elas reagem. E como eu vou produzir — essa ideia de continuidade, de progressão dentro das minhas músicas. Consegui perceber que houve mudanças na maneira que eu produzo, na maneira que eu interpreto a música enquanto DJ e também consumidor.

Pensando numa ampliação disso ao debate sobre o que é a música brasileira hoje e como o funk parece ter conseguido se alastrar para além do Brasil, como isso dialoga com certa sofisticação do funk enquanto gênero hoje no Brasil, de ele não permanecer constrangido a uma tematização?

Acho que é sobre como as pessoas pensam. Às vezes, a gente precisa de uma validação. Não pra ter coragem, mas pra se sentir motivado a seguir um caminho. Você pensa em fazer uma coisa, em juntar isso com isso, mas existe certo medo de como vai ser recebido. Aí você vê alguém fazendo e se sente motivado também. Esse tipo de coisa incentiva a inovação, a reinvenção, a descoberta de novos caminhos. O funk anda muito nessa linha.

A música periférica do Norte, do Nordeste, do Sudeste… É tudo muito diverso. E como o Brasil é grande, tem muito essa coisa de as pessoas sempre criarem e essas produções acabarem se misturando. Artistas do Sudeste fazendo parceria com artistas do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste. Essa mistura geográfica influencia a mistura de gêneros. E o que eu faço não é só misturar o que é daqui, eu defendo muito que a gente olhe e pegue coisas de fora. Mesmo porque as pessoas de fora já pegaram muita coisa nossa. Por que, então, não fazer o contrário? Pegar gêneros de outros lugares e trazer pra cá, fazer o nosso com novidades e experimentação. O favela bass faz muito isso. Não exatamente querer que algo se torne nosso, mas fazer o nosso, com novidades, com coisas de outros lugares. 

Voltando agora ao álbum, isso que você comentou das relações nacionais e internacionais traçadas hoje na música eletrônica brasileira, como você entende que o álbum dialoga com essa nova lógica e até com a realidade histórica?

Eu entendo que esse álbum tem um diálogo dentro dele, no sentido de ideias de outros lugares — tem muito gabber, muito techno, é mais techno do que funk, mas é funk ainda. Mas a ideia mesmo dele é não fazer sentido. Que é também uma coisa que eu fui descobrir em outros gêneros, em músicas mais etéreas, feitas para realmente não fazer sentido. Acho que é mais essa a conversa do álbum, mas, ainda assim, reformulando muita coisa vinda de outros estilos. Tem uma faixa com muito psytrance, que viaja nos efeitos e cria um ambiente próprio; tem bastante do gabber e do uptempo, que é o techno extremamente acelerado. Mas a sensação que o álbum passa, no fundo, é a de queimar os drives da mente — ficar no after acordado até as seis, sete, oito da manhã. Essa é a energia dele.

Dentre esses gêneros, quais têm sido importantes para você, brasileiros e internacionais?

Principalmente o techno, sobretudo o gabber, o uptempo. Eles somam uns 50% do álbum. Além deles, entram o psytrance, o slap house, o trance, o funk mandelão e o beat fino, que é o funk capixaba. O que faço é encontrar similaridades na estrutura desses gêneros — em como são desenvolvidos, como são feitos — e tentar comunicar um com o outro. No fundo, é essa junção.

E o funk capixaba, especificamente, aparece logo desde a primeira faixa…

A primeira música se chama Intro e fala de Cachoeiro [de Itapemirim]. O grave da música é, na verdade, uma voz que eu emulei, botei vários efeitos e transformei um acapella em grave, em beat. É duas coisas em uma só — um acapella que é um grave também, que faz parte da música e dá groove. Afinal, pra ir num rolê, você precisa partir de algum lugar. E onde você está? Você tá em Cachoeiro. É isso que a voz fala na intro.

Porque apesar de tudo, de qualquer viagem, a gente volta pra casa.

É, volta pra casa. O álbum começa com a gente voltando pra casa, e é também onde ele termina.

 

Gabriel San Martin é escritor e crítico de arte.

Danco Costa é artista da cena.