icon-plus
Pierrô Apaixonado, dos carnavalescos da Unidos de Vila Isabel Leonardo Bora e Gabriel Haddad, na exposição Casa Fluminense, em cartaz na Casa Brasil até 8/7/26 (Foto: Filipe Aguiar)
Postado em 25/06/2026 - 6:53
UM LAR DEMOCRÁTICO PARA AS ARTES
Casa Brasil deixa para trás a França em seu nome para declarar oficialmente sua vocação de difusora da arte nacional em geral – e fluminense em particular

Desde o início de 2025, o espaço construído em 1820 pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny a pedido de Dom João VI na Rua Visconde de Itaboraí, Rio de Janeiro, atende pelo nome de Casa Brasil. Na verdade, o antigo “França” que desde 1990 compôs o nome do centro cultural foi se tornando mais decorativo que efetivo com o passar do tempo. 

Quando o centro cultural foi inaugurado, a programação expositiva capitaneada pelo francês Pierre Castel tinha um bom número de nomes europeus, como a Missão Francesa e os Pintores Viajantes, Niki de Saint Phalle e Joan Miró. Mas, ao longo dos anos, a antiga Praça do Comércio do Rio de Janeiro passou a priorizar em  sua agenda expositiva individuais de artistas como Iole de Freitas, Oswaldo Goeldi e Hélio Oiticica, e coletivas com recortes da produção nacional de diferentes períodos. Consolidando a vocação que sempre esteve latente entre suas largas paredes, a atual Casa Brasil abraça a missão de valorizar a produção brasileira das mais diversas vertentes, e também a fluminense.

Vista da fachada da Casa Brasil que dá pra a Orla Conde, que liga a Praça XV à Praça Mauá (Foto: Filipe Aguiar)

Patrocinada pela Petrobras por dois anos e gerida pela produtora V-Arte, essa nova proposta quer ressignificar de vez a herança escravocrata do edifício, que, sendo o principal centro de comércio do Brasil na então capital do Império, chegou a abrigar a mais abjeta transação comercial, que dispunha dos corpos de nativos africanos e afro-descendentes como mercadoria. 

Para tanto, o projeto curatorial encabeçado pela diretora da Casa Brasil Tânia Queiroz junto ao artista Cadu, ao produtor Jocelino Pessoa e ao curador Marcelo Campos se abre para a pluralidade de expressões artísticas do território nacional e fluminense, com foco no decolonialismo e nas culturas afro-indígenas. Entre os projetos desenvolvidos no novo programa, destaca-se uma experiência virtual de cinco  minutos com óculos 3D que conta uma história carioca, desde a paisagem nativa antes da chegada dos colonizadores até os dias de hoje, passando por fatos que marcaram a trajetória do prédio.

Vista da exposição Casa Fluminense, em cartaz na Casa Brasil até 8/7/26 (Foto: Filipe Aguiar)

 “Para o Rio de Janeiro, a Casa Brasil contribui ampliando o diálogo com os muitos Brasis que coexistem no território nacional. O estado e a cidade passam a atuar como plataforma de escuta, intercâmbio e circulação de diferentes vozes, fortalecendo sua relevância no cenário cultural contemporâneo. Para o país, ao colocar em evidência artistas, saberes e experiências vindas de diferentes contextos, a Casa Brasil contribui para a construção de uma identidade nacional mais plural e democrática. Em vez de buscar uma ideia única de brasilidade, o projeto reconhece que a riqueza do Brasil está na convivência de múltiplas identidades, histórias e modos de vida”, diz Tânia Queiroz, diretora do espaço, à celeste.

DEMOCRATIZAR A PROGRAMAÇÃO

A coletiva de abertura, Casa Brasil – A Exposição (em cartaz entre novembro de 2025 e março deste ano), foi resultado de um edital que recebeu cerca de 1 mil inscrições e selecionou 57 nomes, entre artistas desconhecidos e já estabelecidos das cinco regiões do país, como Bruno Faria (Recife, PE), Novíssimo Edgar (Guarulhos, SP) e PH Costa (Cruzeiro do Sul, AC). Paralelamente, foi exibida a individual do carioca Arthur Chaves, que migrou da moda para criar seres mitológicos a partir da costura, do desenho e da pintura.

PRATAS DA CASA

Desde 9/4, na coletiva Casa Fluminense (em cartaz até 8/7), o foco é o Estado do Rio de Janeiro, pelas lentes das 97 obras de 60 artistas de cidades como Campo dos Goytacazes, Maricá, Paraty, Niterói, Teresópolis, Volta Redonda e  capital. Além da equipe da instituição (Cadu, Jocelino Pessoa, Marcelo Campos e Tânia Queiroz), a curadoria da exposição traz também Aliã Waimiri Guajajara para mostrar o que o Rio de Janeiro tem de singular em sua produção artística.

Vista da exposição Cada Cabeça É um Mundo, de Melissa de Oliveira, em cartaz na Casa Brasil até 8/7/26 (Foto: Filipe Aguiar)

 Há a instalação de bambolês no pátio externo que lembra uma cerca ornamental, criada pelo artista maricaense Marcos Cardoso, que também está em cartaz até 1/7 em São Paulo, na Galeria Lica Pedrosa, como celeste falou aqui. Logo na entrada, uma enorme cabeça apresenta ao público o Pierrô Apaixonado dos carnavalescos da Unidos de Vila Isabel Leonardo Bora e Gabriel Haddad.

O salão de manicure de Lyz Parayzo propicia uma experiência estética e política em que toque e contato são ferramentas afetivas de convivência e resistência para além de estereótipos sociais e de gênero. Simultaneamente, na individual Cada Cabeça É um Mundo, a fotógrafa e artista Melissa de Oliveira retrata os profissionais de barbearias cariocas e do Morro do Dendê, na Ilha do Governador, onde nasceu.

Sim, nestes dois anos contemplados pelo edital da Petrobras, a ordem é democratizar a Casa Brasil, tanto em sua programação, que abraça as pautas identitárias e grupos minorizados, quanto o público, a partir de uma programação semanal de conversas, ativações das exposições e oficinas, tudo gratuito. Nessa estratégia de aproximação do grande público, valeu até abrir as portas da Casa que dão para a Orla Conde, caminho que liga a Praça Mauá (onde fica o Museu de Arte do Rio – MAR) à Praça XV de Novembro (onde está o Paço Imperial), criando um fluxo entre instituições, público e arte. 

Serviço:
Casa Fluminense e Cada Cabeça É um Mundo
Casa Brasil (Visconde de Itaboraí, 78, Centro, Rio de Janeiro)
Terça a domingo, 10h às 17h
Entrada gratuita
Até 8/7

Espectador participa da imersão 3D que faz uma viagem na História do Rio de Janeiro e da Casa Brasil (Foto: Filipe Aguiar)