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Vista da exposição de Charline von Heyl no auroras (foto: Ding Musa)
Postado em 17/06/2026 - 5:48
Charline von Heyl e a forma emblemática
Em exposição no auroras, artista inédita no Brasil apresenta pintura sedimentada em camadas, construída com método de apropriação e montagem

No ano em que o auroras completa dez anos de atividades, a realização de três exposições individuais de artistas internacionais, nunca antes exibidas no Brasil, é sintomática e representativa do programa deste espaço de projetos que prima por não seguir modelos, mas abrir caminhos. Para quem ainda não conhece, o auroras, instalado em uma casa modernista no Morumbi, São Paulo, opera desde 2016, sob a direção de Ricardo Kugelmas. Depois de Suzanne Jackson e antes de Jacqueline Humphries, a artista Charline von Heyl expõe em São Paulo pela primeira vez. Residente entre Nova York e Marfa (Texas), desde 1996, Charline von Heyl nasceu em Mainz (Alemanha), estudou pintura em Hamburgo e Düsseldorf, e participou da cena artística de Colônia, nos anos 1980. Com pesquisa em pintura e desenho, Von Heyl pertence a uma geração de artistas que retoma a pintura após décadas de experimentalismo no campo conceitual. 

A ênfase no gesto pictórico, na década de 1980, é um acontecimento mundial. No Brasil, uma “geração 80” é detectada na exposição Como Vai Você, Geração 80? (Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro), em 1984, que reúne 123 artistas de idades e formações distintas, aproximados pela pesquisa de novos materiais em pintura e o diálogo crítico com movimentos da arte moderna. O embate dessa pintura pós-moderna com a pop, a transvanguarda, a nova figuração, o neo-expressionismo, o expressionismo abstrato e outras vertentes abstratas do pós-Guerra, por meio de procedimentos de apropriação, lhe confere um caráter alegórico. 

Gestada nesse zeitgeist, a pintura de Charline von Heyl está sedimentada em camadas. A artista usa métodos alegóricos de apropriação e montagem ao superpor e fragmentar a informação. É neste sentido que, embora elaborados em tinta acrílica sobre linho, os 14 trabalhos recentes expostos no auroras, até 19/9, implodem os limites da pintura. Em sua qualidade inquieta e transitória da justaposição de técnicas, linguagens, estéticas e referências, os trabalhos são compostos segundo as regras dialéticas da montagem. 

MONTAGEM E SABOTAGEM
Charline von Heyl já se declarou “uma pessoa a-histórica”, que não se interessa pela ideia de desenvolvimento linear. O que significa que as alusões a cânones da história da arte e à iconografia pop podem ser discernidas de forma fragmentária entre as camadas da sua pintura. A tauromaquia de Picasso, ou as cores das artes gráficas soviéticas – vermelho, preto e branco –, por exemplo, são apropriações que se colocam de forma direta ou dissimulada em trabalhos como Bull TV (2000) e a série Sabotagerie (2026). Menos óbvia, mas igualmente sugestiva, é a forma como uma certa memória da bandeira estadunidense, explorada por Jasper Johns na série Flags (1967-68), parece vibrar nas entrelinhas nas telas Stash (2026), All the Shy (2026) e Sabotagerie #4 (blue) (2026), de Von Heyl.

A ideia de sabotagem, que nomeia o conjunto de telas em pequeno formato instaladas nas salas do segundo andar do auroras, é um princípio que parece ordenar toda uma pesquisa pictórica organizada por meio do método alegórico da confiscação, subtraindo o sentido original dos objetos ou símbolos apropriados. Por mais emblemática que possa parecer a forma como listras e caracteres se organizam dentro de um círculo na tela Anger Diary (2026), a insígnia apresentada aqui não está a serviço da representação de uma ideia clara. 

O emblema que não delimita uma identidade ou o texto que permanece restrito às entrelinhas da pintura. Estas são condições que tornam o trabalho de Von Heyl resolutamente abstrato e não narrativo. Isto permite ao espectador experimentar sensações paradoxais entre unicidade e reprodutibilidade, sensualidade e rigor, prazer e desconforto. 

Mesmo em relação à abstração, à qual dedica-se desde o início dos anos 1990, Von Heyl é ambígua: “Quero levar a abstração a um ponto em que ela grite que é algo: uma representação e uma coisa”. A frase, registrada no catálogo da mostra Abstract Generation: Now in Print, no MoMA, em 2013, atesta um método de sabotagem não só de referências históricas. A artista pratica a autossabotagem em cada uma de suas pinturas, reinventando as próprias regras e tornando a leitura de sua obra um exercício permanente de reaprendizagem.

Bull TV, 2026, de Charline von Heyl (Foto: Jason Mandella / cortesia da artista e da galeria Petzel, Nova York)
Residente entre Nova York e Marfa (Texas), desde 1996, Charline von Heyl nasceu em Mainz (Alemanha), estudou pintura em Hamburgo e Düsseldorf, e participou da cena artística de Colônia, nos anos 1980. Com pesquisa em pintura e desenho, Von Heyl pertence a uma geração de artistas que retoma a pintura após décadas de experimentalismo no campo conceitual. 

 

Charline von Heyl
exposição feita em colaboração com Petzel Gallery, NY
auroras, av. São Valério 426, São Paulo
Até 19 de setembro de 2026

 

o que celeste já publicou sobre o auroras:

https://celeste.art.br/semente-pictorica/
https://celeste.art.br/pensar-fora-da-caixa/