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Entre o Martelo e a Bigorna (2019), de No Martins
Postado em 09/02/2026 - 3:53
Revoada radical
Exposição no Museu das Favelas, em São Paulo, celebra atualidade do pensamento do filósofo martinicano Franz Fanon, em seu centenário

O que é um museu anticolonial? Se, nos últimos dez anos, as instituições culturais brasileiras, herdeiras da modernidade europeia, tem se empenhado em pensar novas práticas que questionam os legados coloniais em seus quadros e curadorias (leia-se: Masp, MAM SP, MAM Rio, Pinacoteca de São Paulo, Itaú Cultural, Inhotim, entre outras), não estamos falando aqui de descolonizar o museu, mas ser um museu anticolonial desde sua formação. Este é o Museu das Favelas, que surge em 2022 com a missão de conectar e garantir o protagonismo das favelas brasileiras e em dois anos recebe o Selo de Igualdade Racial, por promover a equidade racial e a diversidade no mercado de trabalho. 

“Antes, nos perguntávamos: por que museu? Hoje o público se pergunta: como eu quero esse museu?”. As indagações partem dos educadores do Museu das Favelas, o dançarino Weverton Martins e o artista Alexandre Cardoso, mais conhecido como O tal do Alê, que me guiam em minha primeira visita. As respostas aparecem em todos os cantos do antigo palácio, no Centro Histórico de São Paulo, que acolhe a instituição. Estão em ações educativas, como a plataforma FAVELA OCUPA, que credencia propostas do público para a construção colaborativa da programação do museu; até em cada uma das obras da mostra de longa duração Sobre Vivências e atualmente em exposição em Imaginação Radical: 100 anos de Frantz Fanon.

“O projeto desta exposição não é pensar sobre Fanon, mas com Fanon”, continua Weverton Martins. Nascido em 1925 em Fort-de-France, Martinica, o filósofo, psiquiatra e ensaísta Franz Fanon é o autor de Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), referência maior entre os estudos sobre o racismo estrutural nas sociedades modernas, cujo legado é decisivo para a luta anticolonial e o pensamento crítico que se pratica na contemporaneidade e reverbera na produção artística contemporânea do Sul Global. Já a tradução de Os Condenados da Terra (1961), nos EUA, diz-se ter sido decisiva para o surgimento do movimento político dos Panteras Negras.

A notícia (2013), de Dalton Paula
Reflexo da Nossa Identidade (2025) de O tal do Alê

Anticolonialidade

Com curadoria de Thais de Menezes e Jairo Malta e expografia de Gisele de Paula, a exposição divide-se em quatro núcleos que dialogam com as ideias e as ações de Fanon – Anticolonialidade, Território, o Corpo Psíquico e A Radicalização da Imaginação. Conta com cerca de 130 obras de 40 artistas de Brasil, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Espanha, Marrocos, Angola e povo Saharaui dos acampamentos de refugiados na Argélia e Martinica.

O percurso inicia em uma sala de espelhos, em que o visitante se vê refletido na escultura Tião (2017), de Flávio Cerqueira, e em série de retratos pintados de Robinho Santana para, em seguida, deparar-se com a escultura Entre o Martelo e a Bigorna (2019), de No Martins que, neste edifício, assume um caráter site specific. “O museu ocupa hoje o palacete que sediou a Secretaria de Estado da Justiça para abordar um território injustiçado”, diz O tal do Alê, educador e artista com obra na exposição.  

Enxame (2025), de Robinho Santana

Ainda no núcleo que parte da ideia de ancestralidade como reafirmação do corpo, encontramos um surpreendente Dalton Paula, na fotoperformance A Notícia (2013), em que o corpo negro é paulatinamente invadido por palavras carimbadas em branco. Ainda que o trabalho não tenha sido pensado pelo artista em franco diálogo com Pele Negra, Máscaras Brancas, a curadoria se encarrega de fazê-lo, incluindo-o nesta mostra. “Uma das premissas da exposição é a frase de Fanon ‘faço de mim um corpo que questiona”, continuam os mediadores.

Tião (2017), de Flávio Cerqueira
Nunca foi a primeira opção (2025), de Flávio Cerqueira [Foto: Priscilla Fenics]

A crítica da identidade: ser ou não ser

Psiquiatra e filósofo, Fanon desenvolveu, a partir de um diálogo crítico com o existencialismo de Jean-Paul Sartre, um elogio da indeterminação identitária e ao direito de não ser, argumentando o quanto a violência racial impede que pessoas negras, indígenas e grupos minorizados desçam à “zona do não-ser”, onde a seu ver estaria situada a região infernal, estéril e árida do cerne da existência humana. Segundo o cientista social Deivison Faustino, autor de Franz Fanon e as Encruzilhadas – Teoria, Política e Subjetividade (Ubu, 2022), “é exatamente por sermos indeterminados (não-ser) que a liberdade humana é possível, mas ela é aridamente infernal porque somos responsáveis pelas escolhas que fazemos”. É nos infernos da existência, afinal, que nos encontramos como sujeitos de nossas próprias contradições. 

Nessa encruzilhada entre a afirmação da negritude e a impossibilidade de uma identidade racial (porque isso representaria fixar o sujeito em uma determinada performance social e impondo-lhe um limite à indeterminação da existência) está expressa a dialética, a complexidade e a provocação do pensamento de Fanon.  

Para Raios Para Energias Confusas 2.0 (2024-2024), de Rebeca Carapiá

Na exposição, o espírito libertário que emana do conceito da zona do não-ser pode ser pressentido em obras como as esculturas da série Para Raios Para Energias Confusas 2.0 (2024-2024), de Rebeca Carapiá; nas pinturas da série Dialética do Salto (2025), de Matheus Abu, em que corpos flutuam no céu como uma revoada de pássaros; e na escultura Reflexo da Nossa Identidade (2025) de O tal do Alê, composta por móbile de onde pendem esculturas em papelão na forma de calçados icônicos de manifestações musicais e culturais como o samba, o hip-hop e o funk. “Eu trabalho o vestir como tecnologia de sobrevivência periférica. O sapato é o símbolo de uma liberdade precária, que não chegou a ser alcançada”, diz O tal do Alê para celeste

Dialética do Salto (2025), de Matheus Abu

Seria muito radical e ousado, então, imaginar que o Museu das Favelas – onde o público é instigado a pertencer e participar de exposições como Racionais MC’s: O Quinto Elemento (até 31/8/2025) e Imaginação Radical (até 24/5/2026) – seja um lugar onde se pratica a liberdade e se aproxima de uma zona do não-ser? 

 

Serviço
Imaginação Radical: 100 anos de Frantz Fanon
Até 24/5
Museu das Favelas, Largo Páteo do Colégio, 148 – Centro Histórico de São Paulo, SP
Entrada Gratuita